LULA PRESO POLÍTICO

LULA PRESO POLÍTICO

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

OS ESTADOS UNIDOS: A ECONOMIA DA DESTRUIÇÃO E A TERAPIA DE CHOQUE



Robson de Moraes

(Comissão de Políticas Urbanas da Associação dos Geógrafos)

A economia norte-americana está assentada em um complexo militar-industrial. Se o Pentágono fosse um país, estaria entre as quinze maiores economias do mundo. Segundo Stephen Dais, com os dólares que foram gastos com armamento pelo governo americano, no período de 1947 a 1989 (8,2 trilhões de dólares), poderia se construir um outro do país do porte dos EUA, incluindo todas as suas indústrias e infraestrutura existentes. Só no ano de 2002 foi gasta, com armamento em todo o planeta, a soma de 0,8 trilhões de dólares, sendo que cinco países são responsáveis por metade destes gastos. Em 2005, somente o Ministério da Defesa Americano superou a cifra de um bilhão de dólares por dia. O orçamento de desenvolvimento e pesquisa do Pentágono equivale a algo entre 70% e 80% das pesquisas militares realizadas no planeta. Seymour Melman afirma que, desde 1951, o orçamento militar americano envolve uma quantia maior do que a somatória de todas as corporações sediadas no país. O setor bélico (estatal e privado) empregava, em 1986, mais de 6 milhões de pessoas. Um em cada 20 empregos depende direta ou indiretamente de gastos militares (Washington Post - 17/01/1986), sendo que a fronteira entre o que se inclui ou não no orçamento militar é mantida inteiramente na sombra. George McGovern sustenta que, em 1969, a cada dólar pago de imposto pelo cidadão dos Estados Unidos, apenas 28% ficavam liberados para despesas não militares. Como se pode concluir, considerar o “Grande Irmão do Norte” como um estado militarista tem a sua razão.

Atualmente, o capital financeiro e a indústria militar americana, aliados ao capital petrolífero e à grande mídia, compõem o centro hegemônico na estrutura de poder da sociedade americana. A administração W. Bush foi apenas uma expressão mais reveladora da presença deste agrupamento no domínio da maior potência militar do planeta. Após os atentados de 2001, foram autorizados mais gastos militares. As empresas contratadas no setor privado são as mais lucrativas. A Rockwell International multiplicou por oito seus contratos com o Pentágono. Desde então, segundo Mario Pianta, as contribuições às campanhas presidenciais multiplicaram por quatro.

Richard Chenney (Vice-Presidente de Bush) foi executivo principal da Halliburtun Corp, empresa mãe de uma das maiores beneficiárias de contratos com o Pentágono, a Kellogg, Brown & Root, que ganhou contrato milionários para as obras do Iraque ocupado. Na vigência da política contra o “eixo do mal”, os gastos militares foram elevados em 18% para fim de modernização tecnológica. Empresas como Boeing, Lockeed Martin e Northorp Grummann estão entre as que mais faturaram com os avanços da máquina da guerra.

Vinte e dois dos cinquenta estados americanos dependem das despesas militares. Em 14 estados o emprego está ligado a empresas com íntima relação com o sistema de defesa. A economia deste país não pode suportar o desarmamento. Em sete estados, a indústria da guerra representa 20% da economia. Desta forma, é fácil chegar à conclusão de que a economia dos EUA é extremamente dependente da máquina de destruição da vida. Os grupos industriais norte americanos, que, nas décadas de 1920 e 1930, eram inseridos na produção automobilística, migraram, com a crise de 1929 e a II Grande Guerra, para as encomendas militares. O complexo industrial militar do Tio Sam é de um tipo jamais visto na história da humanidade, que resultou (direta ou indiretamente) nas guerras mais sangrentas da experiência humana na Terra.

A história da economia armamentista norte americana andou, lado a lado, com o aumento do déficit público. As aparentes tentativas de fazer encolher ou de formatar o complexo militar-industrial converteram-se em seu oposto, isto é, em mais gastos militares. Em 1949, houve uma depressão na economia dos EUA, com diminuição do Produto Interno Bruto e quebra das importações. Este fenômeno estava relacionado ao desarmamento seguido pelo fim da Guerra. A Guerra da Coreia reverteu esta tendência, realimentando as taxas de lucros. A saída encontrada pela economia capitalista para a crise de superprodução veio com a corrida armamentista e não através da adoção da Teoria Geral de Keynes, como muito se divulga. Para Claudio Katz, é importante observar o desenvolvimento tecnológico, que se faz fundamental neste setor. Katz indica que todas as inovações tecnológicas significativas nas últimas décadas, foram inicialmente concebidas na esfera militar: a microeletrônica surge como resolução de problemas de balísticas; a energia nuclear veio do âmbito militar, etc.

No imediato pós-guerra, a demanda mundial era inferior à capacidade produtiva dos EUA. A pura e simples expansão produtiva poderia agravar ainda mais a superprodução. A indústria da guerra tem o “mérito” de elevar o poder de compra e, consequentemente, o consumo, sem produzir uma massa de mercadorias que vão ao mercado competir com outras mercadorias já existentes. A produção induzida pelo governo tem a vantagem de não concorrer com a produção não militar. Os setores da economia voltados para a produção de mercadorias perderam o controle da reprodução ampliada do capital para a indústria armamentista. O governo americano passou a ser o grande comprador, o grande “consumidor coletivo”.

A partir da estruturação da economia de guerra dos EUA, fica patente a insuficiência do argumento segundo o qual, a cada crise, a economia capitalista se renova, volta a crescer, acumula e desenvolve novamente as forças produtivas. O “Grande Irmão do Norte” criou uma economia baseada na guerra permanente, uma forma bem diferenciada do imperialismo britânico precedente.

Governos no mundo inteiro não têm como subsidiar a indústria bélica da mesma maneira. Grande parte da capitalização de recursos estatais é proveniente da própria população. Na prática, o que ocorre é que uma parte da sociedade subvenciona a outra parte. O setor da economia não militar financia, por meio de impostos, a ajuda governamental à produção bélica. Os países mais ricos do mundo passam a ter sua base econômica embalada pelo crescimento da dívida pública. O G–7 (grupo dos sete países mais ricos do mundo: EUA, França, Reino Unido, Itália, Canadá, Alemanha e Japão), criado no contexto do choque do petróleo de 1975 e do esgotamento do acordo de Breton Woods, vem implementando esforços de controlar artificialmente o déficit estatal através da financeirização, na qual a especulação passa a ter papel destacado e constitui-se como principal ator. Financeirização empresarial e desenvolvimento de estratégias de lucratividade em curto prazo vão construindo o cenário em que o setor produtivo vai cedendo lugar aos ativos financeiros. O resultado? Todos nós já conhecemos: as crises econômicas, tais como a atual.

Aliada à incrível máquina de guerra estadunidense, uma outra tática é largamente adotada: a chamada terapia do choque, técnica que consiste em se aproveitar momentos de pavor para introduzir mudanças tidas como necessárias. Segundo o economista norte americano Milton Friedman, considerado um dos principais teóricos do liberalismo econômico contemporâneo, defensor do Capitalismo de laisse-faire e do livre mercado, “somente uma crise, real ou pressentida, produz mudança verdadeira”. A afirmação de Friedman é a ponte que vincula uma onda de desastres naturais e provocados, com a ascensão do chamado neoliberalismo, nas mais variadas regiões do planeta.

Nas terras do Tio Sam, o furacão Katrina, que arrasou a região metropolitana de New Orleans em agosto de 2005 e vitimou milhares de pessoas, foi recebido por “Tio Miltie” (nome dado pelos alunos de Friedman), em matéria publicada no Wall Street Journal, como uma “enorme possibilidade de reforma no sistema educacional de Lousiania”. Antes da passagem do Katrina, havia 123 escolas públicas e 7 privadas. Os professores contavam com uma forte representação sindical. Depois da tempestade, só restaram 4 escolas públicas, pois as demais foram privatizadas. 4.700 professores foram demitidos e depois uma parcela foi recontratada com salários reduzidos e sem estabilidade. O Americam Interprise Institute, declarou : “ O Katrina realizou, em uma semana, o que os reformadores neoliberais não conseguiram em anos”. É o Capitalismo de Desastre.

Em 1947, Milton Friedman e Friedrich Hayek fundaram a sociedade de Mont Pelerin, um clube que incorporava economistas defensores da ideia de livre mercado, que levou o mesmo nome da pequena cidade suíça onde reuniam-se anualmente. Neste momento histórico, o mundo acabava de sair de uma Grande Guerra e de uma depressão econômica. O contexto da fundação do grupo de Mont Pelerin não era o mais estimulante para os novos liberais. Desde a crise de 1929 e a Teoria geral de John Maynard Keynes, a intervenção do Estado como instrumento de regulação da economia era amplamente praticada. Friedman e Hayek eram vistos como pensadores exóticos e completamente descontextualizados das reais necessidades existentes no mundo da economia.

Em um de seus livros (Capitalismo e Liberdade), Friedman sistematiza os principais elementos que orientariam o mercado global e que, nos EUA, seriam transformados na agenda do movimento neoconservador. Em primeiro lugar, os governos deveriam abolir sistematicamente todos os entraves e empecilhos existentes no caminho da acumulação de capital; deveriam vender todos os ativos que pudessem ser administradas por empresas privadas; deveriam ainda cortar os gastos sociais. As diretrizes apresentadas tinham o inconveniente de ser extremamente impopulares, não podendo ser aplicadas em um país onde a democracia e a vontade popular fossem base estruturante da vida política, pois a reação a tais medidas poderia representar perda de popularidade e, consequentemente, de votos.

Com o crescimento das orientações dos Desenvolvimentistas no Terceiro Mundo e as constantes ameaças aos interesses americanos nestas regiões é que vem a tona a Doutrina do Choque, em que se aproveita de um momento na qual a sociedade se encontra atordoada para realização da agenda apresentada por Friedman. Os sucessivos golpes militares executados na América Latina vão fornecer o ambiente necessário para a aplicação da agenda neoliberal, sendo que a resposta popular passaria a ser simplesmente criminalizada e taxada de vandalismo, terrorismo ou comunismo.

O Chile é o palco da primeira experiência. O choque implementado pela violenta deposição do governo eleito de Salvador Allende e a ascensão de Augusto Pinochet foi a bandeirada de largada do experimento neoliberal. Com tanques e canhões de guerra nas ruas a sociedade chilena presenciou a taxa de desemprego subir de 3% (durante o governo Allende) para 20% um ano após o golpe. As manifestações populares foram duramente reprimidas pela Lei Marcial e foi imposto o toque de recolher. A economia contraiu 15%. Em contrapartida, grandes empresas estrangeiras passavam a controlar a economia aumentando expressivamente sua lucratividade.

A próxima experiência vem com outro golpe militar, um novo choque, desta vez na Argentina (1976). Ao colocar o Peronismo na clandestinidade, a Junta Militar proíbe greves e elimina todas as restrições para demissão de trabalhadores. A ditadura privatizou centenas de companhias estatais, transformando o país em solo atrativo para as multinacionais, com a admiração e agradecimento de Washington. As celas e presídios ficaram abarrotados de prisioneiros criminalizados pela resistência. Bolívia, Colômbia, Uruguai, Paraguai, entre outros, seguiram o mesmo caminho.

Na década de 1980, o choque, na América Latina, foi causado pelo impacto da dívida externa. Com a elevação brutal dos juros da dívida, promovida pelo Banco Central americano (FED), os países endividados foram obrigados a recorrer a empréstimos de curto prazo (FMI), o que invariavelmente agravou a situação.

O ideário neoliberal e sua Doutrina de Choque não se restringiram aos países sul-americanos. A Inglaterra do final da década de 1970 vivencia sua terapia de choque com Margareth Thatcher. Eleita em 1979 com o slogan “O trabalhismo não está funcionando”, provocou a elevação dos níveis de desemprego e da inflação. Em 1982, seu índice de aprovação chegava a 18%. Mas um fato inusitado veio a proporcionar ao governo conservador inglês, bem como a junta militar argentina, a edição de um novo choque. As Ilhas Malvinas, identificadas como território britânico no atlântico sul e consideradas, até então, como um peso para os cofres da Coroa, foi ocupada por tropas argentinas. A guerra estava declarada. Uma ampla campanha de mídia foi iniciada relembrando a trajetória do orgulho do Império Inglês. No final da guerra (11 semanas e pouco mais de mil mortos), a popularidade de Thatcher ultrapassava 59%. A reeleição estava garantida. O novo inimigo, agora interno, são os trabalhadores das minas de carvão em greve. Com o aparato repressor já montado pela recente guerra, a greve dos mineiros (o sindicato mais forte da Inglaterra) foi derrotada, em uma manifestação final com mais de setecentos feridos. O choque estava completo: atordoados, os keynesianos e a esquerda trabalhista não puderam mais reagir. Privatizações, estímulo a fusões e cortes sociais foi o que se seguiu.

Os países do Bloco Socialista não estavam imunes à Terapia do Choque de vertente neoliberal. A ascensão do Movimento Solidariedade de Lech Walesa ao governo levou a Polônia à inflação de 600% e ao racionamento de comida. As festejadas Perestroika (reestruturação) e Glasnost (abertura) de Mikhail Gorbachev culminaram com Boris Yeltsin e a completa bancarrota e desaparecimento da URSS. Na África do Sul, a chegada ao governo de Nelson Mandela e dos militantes anti-apartheid do CNA (Congresso Nacional africano) incorporou a premissa neoliberal e foi incapaz de corrigir as graves distorções sociais e econômicas existentes no país.

Nos Estados Unidos da era Reagan o mesmo ocorreu. O ex-ator de Hollywood, em uma única canetada, demitiu 11.400 controladores de voo em greve, dobrando um importante sindicato deste país. Recentemente, os atentados às Torres Gêmeas fornecem os ingredientes necessários para a execução da chamada Terapia do Choque. Atordoado pela ação que vitimou milhares de pessoas, o governo americano, em uma imaginária cruzada, constrói todo um cenário propício a manobras políticas e econômicas de seus interesses. Governos em várias partes do planeta apresentam “preocupações” semelhantes e recorrem a medidas de exceção que fortalecem o controle e a obediência, evitando ou combatendo diretamente as mais variadas reações.

A crise do capitalismo, expressa pelo descenso político do neoliberalismo, pode representar uma crise de hegemonia norte americana. No entanto, a edificação de um bloco de forças anti-imperialistas e anti-neoliberais encontra uma série de dificuldades. O que se denomina de Pós-Neoliberalismo é um termo por demais genérico e incorpora diferentes formas de negação do Consenso de Washington. A quadra histórica que vivemos é amplamente marcada pela perda de legitimidade das correntes liberais e por variados esforços de viabilização de projetos alternativos, tendo ainda como pano de fundo o cheiro de pólvora e cadáver do belicismo americano.

Robson de Moraes é professor; membro da Comissão de Políticas Urbanas da Associação dos Geógrafos (AGB-GO) e militante do Partido Comunista Brasileiro (PCB)

FONTE: AEPET

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

Ciência, religião e o Haiti, artigo de Marcelo Gleiser


"A realidade é crua: a natureza não precisa de nós"

Marcelo Gleiser é professor de física teórica no Dartmouth College, em Hanover (EUA) e autor do livro "A Harmonia do Mundo". Artigo publicado na "Folha de SP":

É impossível encontrar palavras para descrever a tragédia no Haiti. De longe, lemos depoimentos e jornais. Assistimos às notícias na TV, chocados em ver uma população inteira em profunda agonia, num estado de total fragilidade e de caos. Crianças perdidas de seus pais (ou órfãs) e milhares de pessoas morrendo de fome e sede.

Gangues de jovens -mais de 50% da população tem menos de 18 anos- atacando aqueles que tem algo para comer ou tentando roubar tudo o que podem. Nenhuma água, gasolina ou qualquer forma de comunicação. A vida forçada a parar por completo, um apocalipse real, provocado por forças muito além do nosso controle.

Mesmo que a ciência possa explicar as causas dos terremotos e das erupções vulcânicas, permanece incapaz de prever quando irão ocorrer. Saber a localização das falhas geológicas onde os terremotos ocorrem claramente não é suficiente. Modelos e explicações permanecem especulativos.

Por exemplo, existe uma proposta que terremotos tendam a ocorrer quando há um aumento na força das marés, como em torno da época de um eclipse. De fato, um eclipse anular ocorreu três dias após o terremoto do Haiti. Infelizmente, previsões dessa natureza raramente são precisas o suficiente para salvar vidas.

A Terra é um planeta ativo, borbulhando em suas entranhas, com uma crosta formada de placas que tendem a mudar de posição em busca de um maior equilíbrio quando a pressão subterrânea aumenta. Obviamente, fazem isso sem dar a menor importância para a destruição que causam.

Cataclismos naturais, como o do Haiti ou o tsunami de 2004 no oceano Índico, que causou em torno de 230 mil mortes, expõe a crua realidade da vida na Terra: precisamos da natureza, mas a natureza não precisa de nós. No nosso desespero, e sem poder prever quando cataclismos dessa natureza irão ocorrer, atribuímos tais eventos a "atos divinos". Nisso, não somos muito diferentes de nossos antepassados, que associavam divindades a quase todos os aspectos e fenômenos do mundo natural.

Talvez a transição do panteísmo ao monoteísmo, sobretudo no ocidente, tenha removido Deus do contato mais direto com os homens, relegando-o a uma presença etérea, distante da realidade do dia-a-dia. Mas muitos continuam atribuindo o que não entendem a "atos divinos", seguindo a receita tradicional do "deus das lacunas": a fé começa onde a ciência termina.

Talvez faça mais sentido associar esses cataclismos a uma indiferença divina. É horripilante testemunhar a crueldade -e até mesmo a estupidez- de certos homens de fé nesses momentos difíceis. Um exemplo é do pastor evangélico americano Pat Robertson, que recentemente atribuiu o terremoto a uma punição divina contra o povo haitiano, que supostamente assinara um pacto com o diabo para conseguir obter sua independência dos franceses. Nossos antepassados nas cavernas teriam concordado.

Dentro do contexto desta coluna, a tragédia provocada pelo tremor no Haiti nos ensina ao menos duas coisas. Primeiro, que a ciência tem limites, e que existe muito sobre o mundo que ainda não sabemos. Porém, não é por isso que devemos atribuir o que não sabemos explicar a atos sobrenaturais. Nossa ignorância deve abrir caminho ao conhecimento e não à superstição.

Segundo, aprendemos que a vida -e aqui estamos nos incluindo- é extremamente frágil e deve ser protegida a todo custo. Nosso planeta, apesar de demonstrar fúria ocasionalmente, é nossa única morada viável. Devemos tratá-lo com o respeito que merece.

(Folha de SP, 24/1)

FONTE: JORNAL DA CIÊNCIA

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

Da série: Ideologias de extrema-direita # 4


# 4 - Benito Mussolini


Benito Mussolini (1883-1945) é um dos protagonistas do século XX que, mais do que muitos outros, conseguiu atrair a atenção e o interesse de inúmeros historiadores e dividir a opinião das massas. Amado e odiado com a mesma intensidade tanto na Itália como noutros países, Mussolini é a própria encarnação do Fascismo, muito embora muitos estudiosos advirtam para a tendência fácil de estabelecer identificações deste tipo. Na verdade, Mussolini e o Fascismo foram, durante alguns anos, uma e a mesma coisa, a ponto de tantas vezes ter tido que, ele próprio, refrear alguns núcleos mais revolucionários do partido que ele mesmo havia criado mas de que nunca tinha realmente gostado.

Ainda assim, a história do Fascismo não pode ser escrita sem se falar de Mussolini, um homem que, na opinião de muitos, possuía a maior parte das características do povo italiano e explorava os seus sonhos, aspirações e medos. Foi o homem que criou uma nação que em apenas alguns anos se tornou um Estado, que experimentou o gosto pelo poder e que pouco depois conduziu essa mesma nação para a maior derrota da sua história.
Do squadrismo das suas origens até a união dos anos 30, o Fascismo possuiu sempre duas faces: desde a cheia de vitalidade, violenta e revolucionária, dos camisas negras, até ao regime político, reformista, e defensor do Estado.

O Partido Nacional Fascista (PNF) nasceu enquanto movimento em 1919 e desapareceu em 1943. Passou por todas as contradições da ação política, buscando simultaneamente manter vivas as suas raízes revolucionárias, substituindo-se ao Estado tanto quanto lhe fosse possível. Era um projeto ambicioso (a que Mussolini pessoalmente se opunha), que poderia ter criado um partido totalitarista fora do PNF, mas que deu origem a uma enorme organização cujo principal propósito era vestir uma camisa negra a todos os cidadãos italianos. Deixando em alguns grupos juvenis o gosto pela política (e pela dissidência), o PNF, sob a liderança de Achille Starace, ficou reduzido a uma mera "fábrica de consenso", condenada a um desaparecimento inglório após a queda do regime.

O Fascismo foi declinado em quantas línguas? Ainda nos anos 30, sobretudo no mundo anglo-saxão e na propaganda comunista, o termo fascismo significava qualquer movimento de extrema-direita, inclusive o Nazismo. Todavia, os historiadores e os estudiosos do tema ainda buscam um denominador comum que se adapte a tantos e tantos movimentos políticos nacionalistas com uma forte vocação social que assolaram o panorama europeu durante os anos entre as duas guerras mundiais. Seriam mais as coisas que uniam ou as que dividiam movimentos como o do croata Ante Pavelic, os rexistas belgas de Léon Degrelle, a Guarda de Ferro romena de Corneliu Codreanu, o movimento fascista inglês de Oswald Mosley ou a Heimwehr austríaca do príncipe Ernst Starhemberg?

Mas os grupos e os partidos que olhavam com admiração (e de que frequentemente recebiam ajuda) para a Itália e o fascismo de Mussolini ou para a Alemanha hitleriana encontravam-se na Hungria, na Eslováquia, na Bulgária, nos países bálticos ou nos escandinavos, na França, na Suíça, em Portugal, com o ultra-católico Salazar, e na Espanha, com a Falange (pouco querida de Franco). Até na América Latina a experiência italiana foi interpretada de diferentes maneiras, sobretudo na Argentina dos anos 40, quando subiu ao poder Juan Domingo Perón, e também no Brasil, com a ditadura Vargas. No início dos anos 30, houve uma tentativa de dar vida a uma Internacional Fascista, que abortou logo depois, seja pelas rivalidades com os nazistas seja pela dificuldade objetiva de unir movimentos nacionalistas de países vizinhos ainda separados por rivalidades ancestrais.

Próximo post: # 5 - A filosofia de Mussolini

Outros posts:

# 1 - O aparecimento das ideologias de extrema-direita na Europa

# 2 - As origens do Fascismo

# 3 - O Fascismo e o Estado italiano

# 6 - Racismo

# 7 - As bases filosóficas do Fascismo

# 8 - As condições da emergência do Fascismo

# 9 - As condições econômicas e sociais que estimularam o Fascismo

# 10 - O Nazismo

FONTE: COM TEXTO LIVRE

domingo, 24 de janeiro de 2010

QUEM É O TERRORISTA?

Não dá para assistir e não sentir uma dor lascinante, que nem de perto se traduz na dor que nossos irmãos Palestinos vivem diariamente, sem a possibilidade de um analgésico; só Deus, mas como sou ateu, só a revolução!



FONTE: BLOG DO VELHO COMUNISTA

Os dotes do corpo e os dotes da alma

Dom Quixote

"... há duas formosuras: uma da alma, outra do corpo; a da alma campeia, e mostra-se no entendimento, na honestidade, no bom proceder, na liberalidade e na boa criação, e todas estas partes cabem e podem estar num homem feio; e, quando se põe a mira nesta formosura e não na do corpo, o amor irrompe então com ímpeto e vantagem. Bem vejo que não sou formoso, mas também conheço que não sou disforme; e basta a um homem de bem não ser monstro, para ser querido, contanto que tenha os dotes da alma..."

Do blog do Agnon Fabiano

FONTE: BODEGA CULTURAL


Diretor de 'Platoon' diz que Hitler foi 'bode expiatório fácil' da História


O diretor de cinema americano Oliver Stone disse neste domingo que o líder nazista Adolf Hitler foi um "bode expiatório" da História e que o líder soviético Josef Stálin não deve ser julgado com uma visão maniqueísta.

Stone fez as declarações durante uma coletiva de lançamento de sua minissérie "The Secret History of America" ("A História Secreta da América", em tradução livre), cuja estreia na televisão dos Estados Unidos está marcada para este ano.

O diretor acha que a minissérie vai incomodar setores americanos mais conservadores, ao mostrar como grandes empresas do país financiaram a consolidação do partido nazista: "Não podemos julgar as pessoas apenas como 'más' ou 'boas'. (Hitler) é o produto de uma série de ações. É uma relação de causa e efeito. Muitos americanos não entendem a conexão entre a Primeira e a Segunda Guerras Mundiais", declarou Stone.

A respeito de Stálin, o diretor traçou um perfil menos estereotipado do ditador: "Não quero pintá-lo como herói, mas tento fazer uma representação mais factual dele. Ele lutou contra a máquina alemã mais do que qualquer outra pessoa".

Oliver Stone é conhecido pelos filmes "Nascido em 4 de julho", "Platoon" e "O expresso da meia-noite", pelos quais conquistou suas estatuetas do Oscar. Ele também produziu obras polêmicas a respeito de presidentes americanos: "JFK" (sobre John Kennedy) e "W" (sobre George W. Bush).

FONTE: SRZD

"Justiça" americana condena 47 inocentes a prisão perpétua em campo de concentração

"Evidências muito tênues" significa "Nenhuma prova", "Extraídas por meios controversos de interrogatório" significa "arrancadas mediante tortura". "Departamento de Justiça Americano" significa "Gestapo do Século XXI".

Campo de Concentração de Guantánamo
Comissão recomenda que 47 presos fiquem em Guantánamo indefinidamente

Uma equipe liderada pelo Departamento de Justiça americano recomendou ao governo dos EUA, nesta sexta-feira, que 47 prisioneiros detidos na base de Guantánamo permaneçam indefinidamente, sem julgamento, sob a custódia do país.

Estes prisioneiros seriam considerados muito perigosos para ser libertados, mas não podem ser julgados porque as evidências contra eles seriam muito tênues ou teriam sido extraídas por meios controversos de interrogatório, não sendo, portanto, aceitáveis em tribunais americanos.

FONTE: O ESQUERDOPATA

Bolivia temerosa de que Haití se convierta en base militar estadounidense





El vicepresidente boliviano,
Álvaro García Linera, visitó zonas devastadas por el terremoto y no vio que militares de EE.UU. prestaran ayuda. (Foto:ABI)



El vicepresidente boliviano ofreció una rueda de prensa en La Paz, tras su llegada del devastado país, donde fue a entregar personalmente ayuda humanitaria. Durante su discurso rechazó la presencia militar estadounidense en Haití, porque teme que se convierta en una base militar más del país norteamericano. Asimismo, llamó a los países del continente a que se sumaran a este reproche. Venezuela y Nicaragua ya se han manifestado en contra del contingente militar.

Para ler mais TeleSur

Fonte: Blgo do Cappacete

Iémen: Não é a Al-Qaeda que os EUA combatem, mas a democracia

Umas calças pegam fogo num avião próximo de Detroit e chovem mísseis no Iémen: efeito borboleta? Para Mohamed Hassan, a ameaça terrorista não é mais do que um pretexto.

Entrevista a Mohamed Hassan

Por: Gregoire Lalieu e Michael Collon, publicada no site michelcollon.info

Na abertura deste novo capítulo da série ‘Compreender o mundo muçulmano', o nosso especialista explica-nos o que realmente está em jogo no Iémen: combater a democracia no Golfo para salvaguardar o controlo do petróleo.

Desde o atentado falhado ao avião que fazia a ligação Amsterdão-Detroit que o Iémen é tema de primeira página nos jornais: foi aí que o jovem terrorista nigeriano terá sido treinado. Como é que esse país, aliado dos EUA, se terá transformado num refúgio para a Al-Qaeda?

Em primeiro lugar, devemos observar este fenómeno que se repete: cada vez que um regime sustentado por Washington é ameaçado, os terroristas aparecem. E se isso ocorre em países muçulmanos, aparece a Al-Qaeda. Ou seja, este grupo terrorista fantasma aparece por toda a parte onde os movimentos nacionalistas ou anti-imperialistas abalam os governos-marioneta apoiados pelos EUA. É isso que se passa, neste momento, com o Iémen. Este país é dirigido por um regime corrupto aliado de Washington mas que está sob ameaça dos movimentos de resistência.

E eis que surge um jovem nigeriano que embarca com explosivos num avião com destino a Detroit. Isso não faz sentido. Esse presumível terrorista foi integrado nas listas de vigilância depois do pai ter avisado as autoridades americanas. Além disso, os EUA dispõem de importantes dispositivos de segurança e material de alta tecnologia: com os seus satélites, eles poderão dizer se uma pessoa comeu uma sanduíche de atum ou de frango. Esta história de terrorismo assemelha-se a uma trapalhada interna que demonstra que a situação no Iémen escapa aos EUA e que os seus interesses nesse país estão em perigo.

Por que razão o Iémen se tornou tão importante aos olhos de Washington?

O presidente do Iémen, Ali Abdullah Saleh, está há 30 anos no poder. O seu regime é corrupto, mas alinhado com a política dos EUA. Um grupo de resistentes no norte do país e os separatistas do sul ameaçam a estabilidade deste governo. Se um movimento revolucionário derruba Saleh, isso poderá ter impacto sobre toda a região, encorajando os resistentes que lutam nos estados pró-imperialistas daquela área e, particularmente, contra o regime feudal da Arábia Saudita.

De qualquer forma, apesar dos combates com os resistentes do norte terem eclodido no Iémen, a Liga Árabe, dirigida pelo Egipto, condenou imediatamente os rebeldes e manifestou o seu apoio ao governo iemenita. Espero ainda que esta mesma Liga condene as agressões de Israel contra o Líbano e contra a faixa de Gaza. O Conselho de Cooperação do Golfo (também denominado de Conselho de Cooperação dos Estados Árabes do Golfo Pérsico), uma organização que olha pelos interesses ocidentais e reúne alguns países produtores de petróleo, tem igualmente condenado a acção dos resistentes do Iémen. Para os EUA, em pleno período de recessão, a sua colónia saudita não pode ser ameaçada por movimentos de resistência. Com efeito, a Arábia Saudita fornece uma parte importante do petróleo a Washington e constitui um aliado precioso na zona do Golfo. A instabilidade da região poderá ter graves consequências económicas para os EUA.

Quem são os resistentes no norte do país? Quais são as suas reivindicações?

No norte do país, o governo depara-se, desde há vários anos, com a resistência armada dos ‘houtis', que devem o seu nome ao do fundador deste movimento, Hussein Al-Houti, que morreu em combate há quatro anos, tendo sido substituído pelo irmão. Como a maioria dos iemenitas do norte, os ‘houtis' são zaiditas. O islamismo divide-se em várias correntes como o sunismo ou o xiismo e, por sua vez, estas correntes subdividem-se em ramos, sendo que o zaidismo é um ramo do xiismo.

O presidente Saleh é zaidita, mas os ‘houtis' não lhe reconhecem autoridade. O Iémen é um país muito pobre: a sua economia baseia-se essencialmente numa agricultura em declínio, nalgumas receitas provenientes do petróleo, nalguma pesca, na ajuda internacional e nas remessas de dinheiro dos trabalhadores emigrantes. Assim, apenas um punhado de pessoas, as que rodeiam o presidente, conseguem lucrar com algumas das riquezas do país, enquanto que a população em geral se torna cada vez mais pobre. A maioria dos iemenitas tem menos de 30 anos mas nenhuma perspectiva para o futuro: o desemprego atingiu os 40 por cento em 2009. Os ‘houtis'interpelaram o governo sobre o sub-desenvolvimento da região, a falta de água e a ausência de infra-estruturas. O presidente Saleh, no entanto, não deu resposta a estas questões e, desde então, os ‘houtis' conduzem a luta armada. O seu bastião é a cidade de Saada, o que tem uma simbologia importante: foi nesta localidade que, há mais de dez séculos, se instalou o fundador do zaidismo iemenita.

Os combates perto de Saada têm consequências evidentes. Calcula-se que os refugiados sejam vários milhares e o governo acusa o Irão de apoiar os rebeldes...

Essa acusação é falsa. O Irão é de maioria xiita, mas os zaidistas do Iémen, pela sua forma de rezar entre outras coisas, são, na realidade, muito mais próximos dos sunitas. Se a resistência ‘houtista' detém armas suficientes para continuar a combater nos próximos 10 anos, é porque beneficia da ajuda duma parte do próprio exército iemenita. Com efeito, muitos soldados e oficiais deste exército são também eles zaidistas. Os combates nessa região já fizeram mais de 150.000 refugiados e os militares zaidistas vêem como sofrem os seus irmãos. Alguns acabam mesmo por se juntar à resistência.

O presidente Saleh mobiliza, no seio do exército, os sunitas oportunistas para combater a resistência no norte, mas isso terá implicações: este presidente zaidista, que se usou das suas convicções religiosas para mobilizar a população e o exército, apela agora aos sunitas para combater outros zaidistas. Saleh arrisca-se assim a perder todo o apoio que ainda detém no norte do país.

E o sul exige a secessão! O presidente iemenita parece estar, verdadeiramente, numa posição pouco favorável...

Conhecer a história do Iémen é essencial para compreender a sua situação presente. O país, na sua configuração actual, nasceu da fusão, em 1990, da República Democrática Popular do Iémen, do sul, com a República Árabe do Iémen, no norte. Estes dois estados tiveram percursos diferentes.

A criação do Norte remonta há mais de dez séculos quando os zaidistas chegaram a Saada. Em 1962, no entanto, eclodiu uma revolução que pretendia derrubar o regime feudal e instalar uma república. O presidente egípcio, Nasser, defensor da independência árabe, apoiou o movimento revolucionário. Por seu lado, os EUA, a Grã-Bretanha, a Arábia Saudita e o xá iraniano enviaram mercenários para auxiliarem os elementos reaccionários do antigo regime feudal e enfraquecer Nasser. O conflito redundou numa guerra horrível, onde mais de dez mil soldados egípcios perderam a vida. O governo republicano não foi derrubado mas saiu deste conflito bastante enfraquecido, sem meios para iniciar uma revolução cultural, para democratizar ou industrializar o país. E embora o rei e imã que dirigia o país tenha fugido para a Arábia Saudita, uma grande parte do Iémen do Norte permaneceu no estado feudal.

E no sul?

O Iémen do Sul tem um percurso diferente. Foi colonizado pelos britânicos de forma a bloquear a expansão dos franceses que se tinham apoderado de Djibouti, e dos russos que já se expandiam até à Ásia central. Mas tratava-se também de manter o domínio britânico no golfo árabe e sobre a passagem estratégica do estreito de Ormuz. Foi a Grã-Bretanha que construiu a cidade portuária de Aden, no Iémen do Sul. Esta localidade tornou-se muito importante para o império britânico. Podemos dizer que seria a Hongue Kongue ou a Macau da época. Muitos estrangeiros foram igualmente enviados para a região.

A pirâmide social daquela sociedade colonial organizava-se da seguinte forma: no topo, dominavam os colonos britânicos; abaixo surgiam as comunidades somalis e indianas que constituíam uma espécie de tampão em relação à última classe, os iemenitas. Esta estratificação era uma estratégia clássica dos colonos britânicos: utilizar um grupo de indivíduos contra outro de forma a se preservarem a si mesmos. Todas as pessoas que a Grã-Bretanha considerava que poderiam constituir uma ameaça para a sua colónia indiana - como os nacionalistas ou comunistas - eram exiladas para Aden.

Como na Somália, estes prisioneiros políticos vão influenciar o curso da história naquela região?

Completamente. Em 1967, os movimentos independentistas acabam por levar os colonos britânicos a fugirem do território e, dois anos depois, a República Democrática Popular do Iémen vê a luz do dia. Esta é dirigida pelo partido socialista iemenita: uma coligação de diversos elementos progressistas, herdeiros, em parte, dos prisioneiros de Aden. Aí encontramos comunistas, nacionalistas, liberais, ou baasistas oriundos da Síria ou do Iraque. Todos estes actores encontram-se reunidos sob a bandeira do partido socialista.

O Iémen do Sul torna-se então no estado árabe mais progressista da região e conhece o seu período mais favorável com uma reforma agrária ou a promoção da igualdade entre sexos. Todavia, o partido socialista continua a ser composto por numerosos elementos de origens diversas. Os comunistas enquadram o partido e conferem-lhe uma certa coesão, mas de cada vez que é necessário fazer face a um desafio maior, as contradições vêm ao de cima. Devido à ausência duma base industrial e ao carácter pequeno burguês da coligação, estas contradições resultam em mortes. Os membros matam-se, literalmente, uns aos outros. O partido conheceu assim três sangrentas revoltas internas. A derradeira ser-lhe-á fatal. A maioria dos quadros ideológicos que dirigiam o partido foram assassinados e a ala liberal assumiu a liderança do movimento. Era, por isso, um partido socialista muito débil que liderava o Iémen do Sul aquando da reunificação dos dois Iémen, em 1990. Apesar destes percursos relativamente diferentes, os partidos do norte e do sul incluíram sempre nas suas agendas a unificação do país.

Então, porque foi preciso esperar pelo ano de 1990 para que o Norte e o Sul se unissem?

A Norte, o Estado encontrava-se demasiado enfraquecido desde a guerra. Tinha sido dirigido por liberais desprovidos de ideais verdadeiramente revolucionários, e controladas pelos países do Golfo, especialmente a Arábia Saudita. Na verdade, o vizinho saudita fornecia armas e dinheiro à classe feudal, visando enfraquecer o governo central. Para a Arábia Saudita, um Iémen do Norte tribal era mais fácil de gerir. Pelo contrário, o Sul tinha-se tornando um bastião de ideias progressistas. Em plena guerra fria, era considerado como inimigo da região e deveria ser colocado em quarentena.

Mas, em 1990, as coisas mudaram. Primeiro, a União Soviética havia desaparecido e a guerra fria terminado. Para além disso, o partido socialista iemenita não representava mais uma grande ameaça. Na verdade, os seus líderes ideológicos tinham sido eliminados aquando da terceira revolução interna do país. Para os países da região, e para os interesses estratégicos do Ocidente, a unificação do Iémen já não representava, dessa forma, um grande perigo. Ali Abdullah Saleh, presidente da Republica Árabe do Iémen desde 1978, toma o destino do país. Persiste ainda hoje no poder.

Em 1990, o Iémen e Cuba são os únicos países a se oporem à guerra no Iraque. Vinte anos mais tarde se, por um lado, Castro manteve a oposição aos «Yankees», Saleh, pelo contrário, colocou-se ao lado dos Estados Unidos na guerra contra o terrorismo. Como explica esta mudança?

A oposição à guerra no Iraque não resultou da política de Saleh, mas de membros do antigo partido socialista iemenita que ocupavam postos-chave no novo governo. No entanto, apesar de sempre desejar a unificação dos dois Iémenes sobre uma base progressista, o partido socialista encontrava-se demasiado enfraquecido pelas suas revoluções internas para transmitir completamente a sua política. Para além disso, a Arábia Saudita, fiel aliada dos Estados Unidos, pagou caro ao Iémen essa tomada de decisão contra a guerra no Iraque. O reino saudita expulsara um milhão de trabalhadores iemenitas que beneficiavam de um estatuto especial para trabalhar do outro lado da fronteira. Tal provocara uma grave crise económica no Iémen, enviando um sinal forte ao presidente Sahel. Este revê a política para torná-la, gradualmente, marionete do imperialismo americano, que hoje conhecemos.

E os elementos progressistas do Sul aceitaram?

A reunificação foi uma grande decepção para os dirigentes do Sul. Lançaram-se neste processo sem verdadeira estratégia. E, tal como vimos, o partido socialista encontrava-se já muito enfraquecido. O centro do poder gravitava, desse modo, em torno do presidente Saleh. O regime era corrupto, o retorno dos iemenitas, trabalhadores na Arábia Saudita, tinha também provocado uma grave crise e a situação económica deteriorava-se.

Todos estes factores levaram o Sul a pedir a secessão em 1994. Os separatistas eram apoiados pela Arábia Saudita, que preferia ter um vizinho dividido e fraco por diversas razões. Primeiro, porque mantinha as contradições com o seu vizinho sobre o traçado da fronteira: na verdade, o Iémen reclamava alguns territórios situados na Arábia Saudita. Depois, porque um Iémen unido por uma boa liderança podia trazer problemas às classes feudais dos países do Golfo, como a Arábia Saudita.

Tais tensões entre o Norte e o Sul deram finalmente lugar a um conflito. O presidente, de confissão zaydite, mobilizara a população do Norte e uma grande franja do exército à volta das suas convicções religiosas para lutar contra o Sul, de maioria sunita. Os separatistas foram vencidos, o que enfraquecia ainda mais os antigos membros do partido socialista no seio do governo iemenita.

Esta guerra ofereceu ao Norte e a Saleh a oportunidade de instalar o seu domínio no plano militar e político.

Quinze anos mais tarde, o Sul pede de novo a separação. Pensa que o presidente Saleh se sairá tão bem desta vez?

Não, evidentemente que não. Saleh deve enfrentar problemas de todas as partes. O Sul reclama de novo uma partilha equilibrada do poder, depois deste governo corrupto ter praticamente levado o país ao estado feudal. Para os iemenitas do Sul que têm um passado progressista, tal situação não é aceitável. Mas ela não é igualmente para os Houtis, no Norte. E, neste caso, o presidente Saleh não pode mais mobilizar uma grande parte de população e do exército em torno das suas convicções religiosas: os Houtis são também zaydites! A resistência houtiste permitiu, na verdade, colocar a nu a verdadeira política deste governo, como nenhum estratega poderia ter feito em tão pouco tempo. A população descobre o que se passa realmente, e o descontentamento revela-se cada vez mais forte.

Quais são as razões do descontentamento do povo iemenita?

Primeiro, a situação social e económica. Enquanto o regime beneficia das riquezas, a população torna-se cada vez mais pobre. Há também um bastião do imperialismo americano, e o receio que Saleh se coloque ao lado de Washington na luta contra o terrorismo. Os iemenitas vêem o que se passa no Afeganistão, no Paquistão e no Iraque. Para eles, é uma guerra contra os muçulmanos. Barack Hussein Obama bem pode ter um nome muçulmano e fazer todos os discursos que quer, não há outra palavra para definir esta guerra.

Para além disso, o governo iemenita nem sequer assegura a protecção dos seus cidadãos. Depois dos atentados do 11 de Setembro, alguns foram sequestrados sem qualquer razão. Aconteceu mesmo com um eminente chefe religioso iemenita. Enquanto se deslocava aos Estados Unidos para ver o seu filho, foi aprisionado e levado para Guantánamo sem motivo válido. Depois de seis anos de detenção, foi finalmente libertado. Mas acabou por falecer três semanais depois, já que essa detenção o tornaria doente. Esta guerra contra o terrorismo não encontra realmente unanimidade no seio do povo iemenita.

Finalmente, Saleh reconheceu as fronteiras da Arábia Saudita no diferendo que opunha os dois países. Ele autorizou igualmente as tropas sauditas a bombardear a região onde se encontravam os rebeldes houtistes. Para os iemenitas, esta situação é inaceitável. Saleh está assim numa posição instável. Razão pela qual precisa do apoio dos Estados Unidos, que aproveitam o espantalho da Al-Qaeda para poder agir livremente no país.

Depois do Afeganistão e do Iraque, o Iémen será a terceira frente dos Estados Unidos?

Eu penso que já o é. O exército americano já enviou mísseis e tropas especiais para o local. Ele fornece igualmente muito material ao Iémen, mas uma boa parte deste passa pelas mãos dos resistentes pelas ligações que estes estabelecem com os zaydites do exército iemenita. Faz agora seis meses que Saleh lançou uma ofensiva contra os Houtis. Lançou também um apelo a um reforço dos exércitos sauditas e norte-americano. Não me espantaria que Israel se juntasse, a seguir. Apesar de tudo, não conseguem terminar com a resistência houtiste. Esta encontra-se alojada numa região montanhosa, como os talibans. Sabemos a dificuldade de combater os rebeldes no terreno. Para além do mais, os Houtis dispõem de armas suficientes para combater ainda por bastante tempo.

Um novo fracasso em vista para os Estados Unidos?

A história parece repetir-se para os Estados Unidos. Este país bem pode ser dirigido por um antigo muçulmano, a sua política mantém-se contudo inalterada. Na verdade, o discurso de Obama até pode ser bem semelhante ao de G. W. Bush: promete perseguir os terroristas onde quer que eles estejam. Washington abana o espantalho da Al-Qaeda para combater os rebeldes nas montanhas do Iemen? Bush fez a mesma coisa há oito anos com o Afeganistão e essa guerra ainda não acabou.

A questão é saber por quanto tempo vai durar. O historiador Paul Kennedy revelou que a disparidade entre a base económica e a expansão militar era um dos principais factores do declínio dos grandes impérios. Se a economia de uma grande potência se revela em menor velocidade, e as suas despesas militares, pelo contrário, não cessam de aumentar, essa grande potência está condenada ao fracasso. É a situação dos Estados Unidos hoje.

Tradução de Vanessa Pereira e Nuno Figueiredo

Mohamed Hassan é um especialista de geopolítica e do mundo árabe. Nascido em Adis Abeba (Etiopia), participou em movimentos de estudantes no quadro da revolução socialista de 1974 no seu país. Estudou Ciência Política no Egipto antes de se especializar em Administração Pública em Bruxelas. Diplomata pelo seu país de origem, nos anos 90, trabalhou em Washington, Pequim e Bruxelas. Co-autor de «O Iraque sobre a ocupação» (EPO, 2003), participou igualmente em obras sobre o nacionalismo árabe e movimentos islâmicos, e sobre o nacionalismo flamengo. É um dos melhores especialistas contemporâneos do mundo árabe e muçulmano.

FONTE: ESQUERDA.NET

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Agora FHC corta os pulsos! Lula receberá prêmio inédito de Estadista Global em Davos

O presidente Lula vai receber um prêmio inédito no Fórum Econômico Mundial de Davos, na Suíça, no dia 29. Ele foi escolhido estadista global, uma homenagem para marcar o aniversário de 40 anos do Fórum. Segundo os organizadores do evento, Lula foi eleito para receber o prêmio por ser um líder político que usou o mandato para melhorar o mundo.

"Estamos encantados que o presidente Lula retorne a Davos em seu último ano de mandato. Queremos fazer uma homenagem pela alta estima do mundo e por seus bem-sucedidos anos à frente do Brasil. Um país em constante crescimento e que será chave no futuro próximo", assinalou em entrevista coletiva Klaus Schwab, diretor executivo do Fórum Econômico Mundial (FEM).

A entrega será feita pelo ex-secretário-geral da ONU, Kofi Annan, e está prevista para às 11h30 (horário local, 8h30 de Brasília) do dia 29, quando o presidente brasileiro fará um discurso. Em seguida, terá início um painel de discussão sobre o Brasil. O objetivo é debater os atuais condutores do crescimento do País e os desafios à frente, consideração à estimativa que em 2020 será a quinta economia mundial.

O painel contará com a participação do presidente do Banco Central, Henrique Meirelles; o copresidente do conselho de administração da Brasil Foods, Luiz Fernando Furlan; o presidente do Instituto Ethos, Ricardo Young e o vice-presidente do argentino Banco Hipotecario, Mario Blejer. Lula também fará o encerramento do painel sobre o Brasil.

Muitos eventos

Entre os mais de 200 eventos que ocorrerão nos cinco dias do Fórum de Davos, além da discussão sobre o futuro do Brasil, haverá uma sessão dedicada também à América Latina e aos desafios que enfrenta a região.

Entre os outros chefes de Estado latino-americano que estarão presentes está o presidente do México, Felipe Calderón, o da Colômbia, Álvaro Uribe, e o do Panamá, Ricardo Martinelli.

Calderón centrará sua estadia em Davos para discutir a mudança climática e preparar a nova reunião da ONU sobre o assunto que será no fim do ano no México.

O primeiro-ministro espanhol, José Luis Rodríguez Zapatero, também participará da 40ª edição do Fórum como presidente rotativo da União Europeia.

Discussão sobre Haiti

A inauguração do Fórum será realizada pelo presidente francês, Nicolas Sarkozy.

Dentre os temas atuais que serão discutidos em Davos está o terremoto do Haiti.
"Vamos dedicar uma sessão especial ao Haiti na qual não pediremos dinheiro, mas solicitaremos às empresas e companhias presentes que se comprometam no longo prazo com o crescimento do país. Queremos que ajudem a construir para dar estabilidade ao país", assinalou Schwab.

Desse encontro participará o enviado especial da ONU para o Haiti, Bill Clinton, e Helen Clark, diretora do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud).

O tema geral que englobará todas as sessões do evento é "Melhorar o estado do mundo: repensar, redesenhar, reconstruir".

"O mundo mudou fundamentalmente. Em 2008, houve uma crise econômica; em 2009 houve uma crise financeira; o perigo é que em 2010 haja uma crise social. Vamos analisar o que deve ser feito para evitá-la. Nós não temos de tomar decisões, mas sim sugerir que caminhos seguir", explicou Schwab.

No total, no Fórum participarão neste ano mais de 2,5 mil pessoas de mais de 90 países.

Da sucursal de Brasília
Com agências

FONTE: TUDO EM CIMA

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

A QUEM INTERESSAR POSSA




A repentina “valorização” do fotojornalismo, com direito à citação dos mestres como Sebastião Salgado (?) e Walter Evans, é puro jogo de cena. Perseu Abramo já dizia que a grande imprensa se movimenta por um “padrão médio” de manipulação. Na média, o “fotojornalismo” que se pratica, hoje em dia, é o da foto/divulgação, da fotocampana tipo paparazzo, da fotocascata, das imagens de pessoas belas e jovens. Editores passam este tipo de pedido. Do material fotográfico já “editado” pelas agências. Quase tudo é cenografia. A mídia corporativa, com raríssimas exceções, está literalmente de costas para os reais problemas das grandes cidades. “Discute” e “mostra” tudo. Menos, é claro, o fato e a prática de que os atuais padrões de consumo estão destruindo o planeta. O “showrnalismo” publicitário/rp estimula o consumismo e esconde a realidade. Esta só interessa (tipo a brutal violência) quando reforça a imposição de subjetividades reacionárias.

O paparazzo parece ser um profissional que trabalha com absoluta liberdade e com total mobilidade. Bem ao contrário. Este “profissional” é que introduziu a prática da “campana”. Inspirado na atividade policialesca fica dias de tocaia, imobilizado. O paparazzo busca uma presa, uma celebridade. O “fotojornalista da campana” da mídia corporativa busca outro tipo de presa. Contribui para a cartografia, mapeamento dos miseráveis. Dos marginais, dos que estão à margem. Nenhum dos dois faz fotojornalismo. A lógica em ambas as atividades é a mesma: espetáculo, sensacionalismo, lucros, venda de emoções. Uma corrida desvairada pelo lucro por parte das empresas. “Profissionais” que se acham poderosos e acima de quaisquer suspeitas. Submetidos às poderosas teleobjetivas. Ferramenta de trabalho que estabelece a maior distância possível entre quem fotografa e o que se fotografa.

Imagens de uma Vila sendo destruída para o “avanço do desenvolvimento” com a ampliação do aeroporto, mesmo considerando que os moradores receberão moradias melhores, é uma prática igualmente de cartografia. É colocar em evidência a “notícia positiva”. Só nessas situações interessa a proximidade fotógrafo/objeto.

Jornalismo é subversão. O que aí está é perfumaria. E nesse caso perfumaria dominical. A crítica só não é mais contundente, dando nome a todos os bois, por estarmos sob censura. Ação movida por um funcionário com 35 anos de serviços prestados ao PRBS (Partido Rede Brasil Sul de Comunicação). Está fazendo um ano que estamos impedidos de escrever o que pensamos. Nem no tempo da ditadura, trabalhando na velha Rádio Continental, após sair da cadeia, fui submetido a tal regime de censura. O moralismo e a censura foram ”legalizados” pela mídia corporativa, substituindo os mecanismos repressivos de uma ditadura militar. Estamos na “ditabranda”, deles.

Saudades de Tarso de Castro. Do velho Pasquim onde se podia escrever o que se pensava. Do Coojornal de tantos combates.

FONTE: BLOG PONTO DE VISTA
FOTO: JORNALISTAS BUNDÕES (BPV)


Nota do Blog do Itárcio:
Excelente e revolucionário artigo do Blog Ponto de Vista que estávamos em débito em divulgar. Visitem o Ponto de Vista e acordem para a pílula vermelha. Enquanto não provarmos do que é subversão, vamos caminhando para a morte admirando e nos emocionando com outdoors cheios de bundinhas e carros importados da última moda, recheados de maionese.