LULA PRESO POLÍTICO

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domingo, 2 de março de 2014

Monster High: é só um brinquedo! Será?

monster high parte 2
*Imagem daqui


Texto de Patrícia Grinfeld*, via Infância Livre do Consumismo
[continuação daqui]
É só um brinquedo! Será?
Não tenho dúvida de que a imaginação de uma criança é ilimitada. Uma boneca-bebê pode ser o monstro da brincadeira e uma MH pode ser ninada como um bebê. Mas o tal do enredo pronto parece limitar a imaginação. Basta olharmos para um brinquedo industrializado, que carrega uma historinha previamente contada (ou algum deles chega à criança sem propaganda?) ao lado de um brinquedo artesanal, sem enredo, e testar em qual deles nossa imaginação voa mais longe.
O fabricante das MH tem como slogan: “A gente cria, seu filho imagina”. A mim, soa como uma tremenda desvalorização da capacidade criativa da criança. Se alguém cria para a criança, como ela poderá inventar e transformar? Como ela aprenderá a encontrar soluções, resolver conflitos, lidar com as diferenças – em sua vida atual e futura?
Quando a coisa vem pronta deixamos de ser sujeito e passamos a ser objeto – de uma indústria, de um modelo, de uma fala. Perdemos nossa potência, ficamos frágeis. Um tanto como as MH. As diferenças deixam de existir (todos ficam iguais: monstros ou Barbies).
Duplas mensagens que merecem atenção
Não podemos ignorar que a criança, sozinha ou entre seus pares, não consegue processar as mensagens subliminares contidas no brinquedo e no consumismo. Mensagens que carregam os valores de uma cultura – nem por isso, os melhores para se construir uma sociedade mais justa, com menos desigualdade e violência (ao outro e a nós mesmos).
Quando observo uma MH, não consigo ver apenas a exuberância de suas cores e roupas, cabelos sempre arrumados, maquiagens e acessórios deslumbrantes. Em comparação a qualquer outra boneca, vejo olhares tristes e corpos que parecem que vão quebrar a qualquer momento. Não é porque são monstras que precisam ser tristes e frágeis; aliás, os monstros só são assustadores porque se apresentam mais fortes do que nós.
Como as crianças se identificam com personagens não apenas para projetar suas histórias e anseios (e consequentemente elaborar medos e conflitos), mas também por aquilo que têm em comum a eles, fico pensando se parte do sucesso das MH não está relacionado à identificação das crianças e adolescentes com essa tristeza e fragilidade apresentadas pelas bonecas. Tristezas e fragilidades fazem parte da vida, só são patológicas em casos extremos, mas acredito que elas precisam ser consideradas.
Para finalizar, não posso deixar de mencionar que me chama atenção o fato de as MH carregarem o tema da morte (afinal, tem caveira no logotipo e até cama-caixão para a boneca dormir), mas esse tema não aparecer em nenhum texto que li sobre elas ou nos comentários deixados no meu outro texto. Parece-me que aqui reside outra dupla mensagem: de que a morte pode ser estampada nos adereços da boneca, mas, como em nossa cultura, deve ser silenciada. Que paradoxo! Se existe uma única coisa que nos iguala, é que somos todos mortais. Quem sabe, podemos aproveitar a boneca para colocar nas rodas de conversas com crianças esse tema que não nos escapa. A morte, assim como o padrão de beleza atual, a anorexia infantil, o brincar induzido, as tristezas, as fragilidades e as diferenças são “monstros” que precisamos encarar. E só conseguiremos fazer isso se o debate sobre o modelo que impera não for tomado como um ataque pessoal, mas como uma questão sociocultural.
*Patrícia é 2x mãe, psicóloga e escreve no blog Ninguém cresce sozinho
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