LULA PRESO POLÍTICO

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terça-feira, 29 de abril de 2014

Os escândalos que assombram a canonização de João Paulo II

Arquivo

João Paulo II, o papa que promoveu e encobriu pedófilos e violadores da Igreja, recebeu, ao mesmo tempo em que João XXIII, a canonização.


Eduardo Febbro, via Carta Maior

Vítimas, que vítimas? – perguntou o cardeal Velasio de Paolis. E acrescentou: “Não são apenas estas vítimas”. Depois houve um silêncio de corpo e alma e o olhar um tanto perdido do superior geral dos Legionários de Cristo, nomeado em 2010 para esse cargo pelo então papa Joseph Ratzinger. À pergunta de de Paolis se seguiu uma resposta: as vítimas não eram só os milhares de menores que sofreram com os apetites sexuais das batinas hipócritas, mas também o próprio Vaticano. As vítimas não eram unicamente os menores ou adultos abusados e violentados pelo padre Marcial Maciel, o fundador dessa indústria dos atentados sexuais que foi, durante seu mandato, o grupo dos Legionários de Cristo. A vítima era a Santa Sé, que foi “enganada”.

João Paulo II, o papa que, entre outros horrores, promoveu e encobriu pedófilos e violadores da Igreja, recebeu, ao mesmo tempo em que João XXIII, a canonização. Para além do espetáculo obsceno montado para esta ocasião, dos milhares de fieis na Praça de São Pedro, dos três satélites suplementares para transmitir o ato, para além da fé de muita gente, a canonização do papa polonês é uma aberração e um ultraje para qualquer cristão do planeta. Declarar santo a Karol Wojtyla é se esquecer do escandaloso catálogo de pecados terrestres que pesam sobre este papa: amparo dos pedófilos, pactos e acordos com ditaduras assassinas, corrupção, suicídios jamais esclarecidos, associações com a máfia, montagem de um sistema bancário paralelo para financiar as obsessões políticas de João Paulo II – a luta contra o comunismo -, perseguição implacável das correntes progressistas da Igreja, em especial a da América Latina, ou seja, a frondosa e renovadora Teologia da Libertação.

O “vítimas, que vítimas?” pronunciado em Roma pelo cardeal Velasio de Paolis encobre toda a impunidade e a continuidade ainda arraigada no seio da Igreja. Jurista e especialista em Direito Canônico, De Paolis fazia parte da Congregação para a Doutrina da Fé na época em que – anos 80 – se acumulavam as denúncias contra Marcial Maciel. No entanto, foi ele quem firmou a segunda absolvição do sacerdote mexicano. O ex-padre mexicano Alberto Athié contou à Carta Maior como Maciel sabia distribuir dinheiro e favores para comprar o silêncio das hierarquias. Athié renunciou em 2000 ao sacerdócio e se dedicou à investigação e denúncia dos abusos sexuais cometidos por clérigos e organizações.

O destino de Maciel foi selado por Bento XVI a partir de 2005. Em 2004, antes da morte de Karol Wojtyla, Maciel foi honrado no Vaticano. Neste mesmo ano, Ratzinger reabriu as investigações contra os Legionários. O dossiê Maciel havia sido bloqueado em 1999 por João Paulo II e mantido invisível por outra das figuras mais soturnas da cúria romana, Angelo Sodano, o ex-secretário de Estado de Giovanni Paolo. Sodano é uma pérola digna de figurar em um curso de manobras sujas. Decano do Colégio de Cardeais, ele tinha negócios com os Legionários de Cristo. Um sobrinho dele foi um dos assessores nomeados por Maciel para construir a universidade que os legionários de Cristo têm em Roma, a Universidade Pontífica Regina Apostolorum.

Sodano, que foi o número dois de Juan Paulo II durante quase 15 anos, tinha um inimigo interno, Joseph Ratzinger, um clube de simpatias exteriores cujos dois membros mais eminentes eram o ditador Augusto Pinochet e o violador Marcial Maciel. Sodano e Ratzinger travaram uma batalha sem tréguas: o primeiro para proteger os pedófilos, o segundo para condená-los. Em 2004, Ratzinger obrigou Maciel a se demitir e a se retirar da vida pública. Dois anos depois, já como Bento XVI, o papa o suspendeu “a divinis”. As investigações reabertas por Ratzinger demonstraram que Maciel era um pederasta, tinha duas mulheres, três filhos, várias identidades diferentes e manejava fundos milionários.

As denúncias prévias nunca haviam passado o paredão levantado por Sodano e o hoje Santo João Paulo. A carreira de Sodano é uma síntese do Papado de Karol Wojtyla, onde se mesclam os interesses políticos, as visões ideológicas ultraconservadoras, a corrupção e as manipulações. Angelo Sodano foi Núncio no Chile durante a ditadura de Pinochet. Manteve uma relação amistosa com o ditador e isso permitiu que organizasse a visita que João Paulo II fez ao Chile em 1987. Seu irmão Alessandro foi condenado por corrupção após a operação Mãos Limpas. Seu sobrinho Andrea teve a mesma sorte nos Estados Unidos. O FBI descobriu que Andrea e um sócio se dedicavam a comprar – mediante informação privilegiada – por um punhado de dólares as propriedades imobiliárias das dioceses dos Estados Unidos que estavam em bancarrota devido aos escândalos de pedofilia.

Mas o mundo sucumbiu ao grito de “santo súbito” que reclamava a canonização de um homem que presidiu os destinos da Igreja em seu momento mais infame e corrupto. O papa “viajante”, o papa “amável”, o papa “dos jovens”, era um impostor ortodoxo que deixou desprotegidas as vítimas dos abusos sexuais e os próprios pastores da Igreja quando estes estiveram com suas vidas ameaçadas.
 
Sua visão e suas necessidades estratégicas sempre se opuseram às humanas. Na trama desta história também há muito sangue, e não só de banqueiros mafiosos como Roberto Calvi ou Michele Sindona, com quem João Paulo II se associou para alimentar com fundos secretos os cofres do IOR (Banco do Vaticano), fundos que serviram para financiar a luta contra o comunismo no leste europeu e contra  a Teologia da Libertação na América Latina.

João Paulo II deixou desprotegidos os padres que encarnavam, na América Latina, a opção pelos pobres frente às ditaduras criminosas e seus aliados das burguesias nacionais. Em 2011, cinquenta destacados teólogos da Alemanha assinaram uma carta contra a beatificação de João Paulo II por não ter apoiado o arcebispo salvadorenho Óscar Arnulfo Romero, assassinado em 24 de março de 1980 por um comando paramilitar da extrema-direita salvadorenha, enquanto celebrava uma missa. Romero sim que é e será um santo. O arcebispo enfrentou os militares para pedir-lhes que não assassinassem seu povo, percorreu bairros, zonas castigadas pela repressão e pela violência, defendeu os direitos humanos e os pobres. Em resumo, não esperou que Bergoglio chegasse a Roma para falar de “uma Igreja pobre para os pobres”. Não. Ele a encarnou em sua figura e pagou com sua vida, como tantos outros padres aos quais o Vaticano taxava de marxistas ou comunistas só porque se envolviam em causas sociais.

João Paulo II é um santo impostor que traiu a América Latina e aqueles que, a partir de uma igreja modesta, ousaram dizer não aos assassinos de seus povos. Se, no leste europeu, João Paulo II contribuiu para a queda do bloco comunista, na América Latina favoreceu a queda da democracia e a permanência nefasta de ditaduras e sua ideologia apocalíptica. Um detalhe atroz se soma à já incontável dívida que o Vaticano tem com a justiça e a verdade: o expediente de beatificação de Óscar Romero segue bloqueado nos meandros políticos da Santa Sé. João Paulo II beatificou Josemaría Escrivá, o polêmico fundador da Opus Dei e um de seus protegidos. Mas deixou Romero de fora, inclusive quando estava com sua vida ameaçada. “Cada vez mais sou um pastor de um país de cadáveres”, costumava dizer Romero.

João Paulo II foi eleito em 1978. No ano seguinte, Monsenhor Romero entregou a ele um informe sobre a espantosa violação dos Direitos Humanos em El Salvador. O papa ignorou o informe e recomendou a Romero que trabalhasse “mais estreitamente com o governo”. Como lembrou à Carta Maior Giacomo Galeazzi, vaticanista de La Stampa e autor de uma magistral investigação, “Wojtyla Secreto”, em “seus 25 anos de pontificado nenhum bispo latinoamericanao ligado à ação social ou à Teologia da Libertação foi nomeado cardeal por João Paulo II”. A resposta está em uma frase de outro dos mais dignos representantes da “Igreja dos Pobres”, o falecido arcebispo brasileiro Hélder Câmara. “Quando alimentei os pobres me chamaram de santo; mas quando perguntei por que há gente pobre me chamaram de comunista”.

O show universal da canonização já foi lançado. A imprensa branca da Europa tem a memória muito curta e sua cultura do outro é estreita como um corredor de hospital. Todos celebram o grande papa. Ela promoveu à categoria de santo um homem que tem as mãos sujas, que cometeu a infâmia de encobrir violadores de crianças, de beijar ditadores e legitimar com isso o rastro de mortos que deixavam pelo caminho, de negociar benefícios para a máfia, que sacrificou em nome dos interesses de uma parte da Europa a misericórdia e a justiça de outros, entre eles os da América Latina. Estão canonizando um trapaceiro. O cúmulo da esperteza, do erro imemorial.
 
Em que altar se ajoelharão as vítimas dos abusadores sexuais e das ditaduras? 
Podemos levantar todos juntos um lugar aprazível e justo na memória com as imagens do padre Múgica ou do Monsenhor Romero para nos reencontrarmos com a beatitude o sentido de quem, por um ideal de justiça e igualdade, enfrentou a morte sem pensar nunca em si mesmo, ou em baixas vantagens humanas.


Tradução: Marco Aurélio Weissheimer

DIRCEU, HOMEM-TESTE Esforço de Joaquim Barbosa para impedir Dirceu de exercer um direito saiu do plano racional -- e isso é mais perigoso do que parece

adolf_hitler

Por Paulo Moreira Leite, via Isto É Independente

É inacreditável que, no Brasil de 2014, se tente levar a sério – por um minuto – o pedido de investigar todas ligações telefônicas entre o Planalto, o Supremo, o Congresso e a Papuda entre 6 e 16 de janeiro.
A rigor, o pedido de investigação telefonica tem um aspecto terrorista, como já disse aqui. 
Implica em invadir poderes -- monitorar ligações telefonicas é saber quem conversou com quem mesmo sem acessar o conteúdo da conversa  -- e isso o ministério público não tem condições de fazer antes que o STF autorize  a abertura de um processo contra a presidente da República. 
O que queremos? Brincar de golpe?
Criar o clima para uma afronta aos poderes que emanam do povo? 
Quem leva a sério o pedido de monitorar telefones do Planalto, com base numa denúncia anonima, sem data, nem hora nem lugar conhecido -- o que permite perguntar até se tenha ocorrido -- nos ajuda a  pensar numa hipótese de ficção cientica. Estão querendo um atalho atingir a presidente? Assim, com a desculpa de que é preciso apurar um depoimento secreto? 
Nem é possível fingir que é possível levar a sério um pedido desses. 
Por isso não é tão preocupante que uma procuradora do DF tenha feito tenha assinado um pedido desses. É folclórico, digno dos anais da anti-democracia e da judicialização.
O preocupante é a demora de Joaquim Barbosa em repelir o pedido. Rodrigo Janot, o PGR, já descartou a solicitação. Mas Joaquim permanece mudo.
O que ele pretende? 
O que acha que falta esclarecer? 
Honestamente, cabe perguntar: qual é a dúvida? 
Indo para o terreno prático. Estamos falando de uma área por onde circulam milhares de pessoas, que mantém conversas telefônicas longas, curtas, instantâneas ou intermináveis com chefes, assessores, amigos, maridos, motoristas, namoradas, amantes...sem falar na frota de taxi, no entregador de pizza e no passeador de cachorro...
Monitorar quem ligou para quem?
Imagine. Num dia qualquer entre 6 e 16 de janeiro de 2016 uma jovem assessora do Senado, que trabalha de minissaia e namora um musculoso agente penitenciário na Papuda, resolve encontrá-lo para tomar um sorvete. Mas o rapaz não aparece. Ela liga para o celular do amor de sua vida. O namorado atende  dentro de um ônibus que, naquele momento, se encontra parado no sinal vermelho em frente ao Planalto. 
Três meses depois, aparece o grampo:
-- Alô, Zé Dirceu na linha? Onde você está? Aqui é a Maça Dourada. Aquela, de 68. Lembra, na Maria Antônia....A gente não tinha marcado um encontro, 50 anos depois? Nossa turma tinha essa mania, lembra?
 Está na cara que nada se pretende descobrir com uma investigação desse tipo. O que se pretende é ganhar tempo, como se faz desde 16 de novembro, quando Dirceu e outros prisioneiros chegaram a Papuda. Com ajuda dos meios de comunicação mais reacionários, os comentaristas mais inescrupulosos, pretende-se criar uma ambiente de reação contra o exercício de um direito típico dos regimes democráticos. Aguarda-se por uma comoção que impeça a saída de Dirceu. Você entendeu, né...
No plano essencial, temos o seguinte: Dirceu nunca deveria ter passado um único dia em regime fechado, pois  jamais recebeu uma sentença que implicasse em pena desse porte após o trânsito em julgado.
 Suas condições de detenção na Papuda se tornaram inaceitáveis a partir do momento em que ele – cumprindo as determinações legais à risca – conseguiu uma oferta de emprego para trabalhar em Brasília, obtendo a aprovação do Ministério Público e da área psicossocial.
No plano da investigação policial, temos o seguinte: nenhuma das possíveis alegações para impedir o exercício desse direito foi provada. Nenhuma.
 O que mantém Dirceu na prisão?
 Apenas  a vontade política de negar um direito que a lei assegura a todos. Um pedido de monitoramento de milhares (ou centenas de milhares? Milhões?) de telefonemas expressa o tamanho dessa vontade delirante de  castigar, de punir. Já se ultrapassou qualquer limite civilizado. E aqui entramos em nova área de risco.
 Depois de passar por um campo de concentração do nazismo, e, mais tarde, conduzido a um campo soviético  porque fazia oposição política a Josef Stalin, o militante David Roussett fez uma afirmação essencial:
 “As pessoas normais não sabem que tudo é possível."

Ele se referia à câmara de gás, aos trens infectos, ao gelo, a fome, o frio – a todo sofrimento imposto a seres humanos em nome do preconceito de raça, de classe, da insanidade política, do ódio, da insanidade que dispõe de armas poderosas para cumprir suas vontades.
Não temos câmaras de gás no Brasil de 2014. Mas temos anormalidade selvagem.  Já tivemos um julgamento onde os réus não tiveram direito a presunção da inocência. Quem não tinha foro privilegiado não teve direito a um segundo grau de jurisdição. As penas foram agravadas artificialmente.  
Dirceu está sendo desumanizado, como se fosse uma cobaia de laboratório, mantida sob vigilância num cubo de vidro, 24 horas por dia.
Foi transformado num caso-teste.  
O direito que hoje se nega a Dirceu amanhã poderá ser negado a todos.
 Será tão difícil captar a mensagem? 

segunda-feira, 28 de abril de 2014

Como o general Kruel traiu o presidente Jango





O pesadelo Estado-unidense


sonho americano – de que o trabalho árduo é recompensado com a oportunidade de prosperidade, sucesso e ascensão social – levou centenas de milhares de emigrantes a escolherem os EUA como destino. Muitos entraram pelo porto de Nova Iorque e foram recebidos pela Estátua da Liberdade, onde estão inscritos os versos de Emma Lazarus: «Venham a mim as multidões exaustas, pobres e confusas ansiosas pela liberdade. Venham a mim os desabrigados, os que estão sob a tempestade... Eu guio-os com a minha tocha

Artigo de André Levy publicado na revista O Militante.


Hoje os EUA são um país com crescentes desigualdades económicas, alastramento de precariedade e exploração dos trabalhadores, constante erosão de direitos e benefícios sociais, e intensificação da subordinação do poder político às forças económicas. Cada um destas vertentes por si só seriam graves assaltos à democracia. A intensificação de todos eles em conjunto configura uma transformação qualitativa do carácter do regime, que vem sido prosseguido nas últimas décadas. Para tal muito contribuiu o processo de concentração de riqueza, de políticas ao serviço do grande capital, sobretudo a partir da década de 1970, incluindo a desregulamentação, uma política fiscal (nos equivalentes ao IRS e IRC) favorecendo os mais ricos, os ataques à contratação colectiva, o aumento do custo de vida e a perda de salários e benefícios sociais, tudo factores que empobreceram as classes económicas mais pobres e erodiu a chamada classe média, extremando a desigualdade de rendimentos e riqueza. Hoje, são os EUA o país das «multidões exaustas, pobres e confusas».

Estes processos não são fruto de decisões conjecturais dos recentes líderes políticos, nem são exclusivos dos EUA. Os leitores reconhecerão certamente a semelhança com processos em Portugal, quer os impostos pela troika estrangeira, quer os implementados pela troika nacional. Infelizmente, poucas lições tirámos da consequências nefastas destas políticas já exibidas nos EUA, que encetou estes processos há mais tempo. Estes processos são sim parte de uma resposta concertada do grande capital internacional impostas aos governos, incluindo o dos EUA, com vista a intensificar a acumulação de lucro e de, mais recentemente, capitalizar com a crise económica por ele mesmo criada.

A geração dos «baby boomers» (nascidos entre 1945-54) foi a última a ter melhores condições de vida que a precedente. Apesar dos casos atípicos de rápida ascensão económica, explorados como exemplos da suposta actualidade do sonho, na realidade o nível económico dos progenitores pesa fortemente sobre o nível de educação e rendimentos dos filhos. A mobilidade social nos EUA fica muito abaixo de países como a França, Alemanha, Canadá, Noruega ou Dinamarca (entre os países mais desenvolvidos, apenas o Reino Unido tem níveis semelhantes). Os ricos tendem a ser filhos de ricos. E o fosso entre ricos e pobres aprofunda-se, havendo crescente concentração de riqueza num número cada vez menor de pessoas, e vivendo os mais pobres (e a classe média) em situação de crescente pobreza e endividamento.

A desigualdade de rendimentos tem vindo a crescer nas últimas décadas, mas de 2011 para 2012 o 1% de rendimentos mais altos subiu 19.6%, enquanto o dos restantes 99% subiu apenas 1%; em 2012, o 1% da população com maiores rendimentos arrecadou 19.3% do total de rendimentos, um máximo na história do pós-guerra.1 Um presidente de conselho de administração (CEO) ganha, em média, 380 vezes mais que a média dos restantes trabalhadores. A desigualdade em termos de riqueza acumulada é ainda maior que a de rendimentos. O 1% mais rico possui 40% da riqueza, enquanto os 80% mais pobres apenas 7%.2


Em 2010, a fasquia oficial do índice de pobreza era US$22,314 para uma família de quatro pessoas, classificando mais de 46 milhões de estado-unidenses como pobres (15.1%); em 2007, este valor era de 12.5%. Quase metade destes (44.2%) tinha rendimento inferior a metade do limite de pobreza oficial. Como sucede frequentemente, os números oficiais de pobreza são uma subestimação, pois a fasquia é muito inferior ao nível equivalente à privação material. Se duplicarmos o valor limite oficial, por forma a obter uma definição que reflicta efectiva pobreza, em 2010 esta atingia 40% dos cerca de 318 milhões de habitantes dos EUA.3

A pobreza atinge severamente quem trabalha. Em 2012, 39% dos trabalhadores ganhava $15 à hora ou menos4. Muitos são os trabalhadores forçados a terem dois ou mais empregos, por vezes dois empregos a tempo inteiro, para subsistirem: 7 milhões de trabalhadores (5% da força de trabalho), em finais de 2011, números que terão entretanto certamente aumentado, e serão sempre uma subestimativa devido ao trabalho paralelo pago em numerário. Em 2012, 3.7 milhões de trabalhadores ganhavam o salário mínimo ($7.25/hora) ou menos, representando 3% dos trabalhadores, sobretudo jovens. Mas este valor de referência condiciona o salário de muitos mais trabalhadores. O SMN subiu para este valor em 2009. No final de Janeiro deste ano, o presidente Obama subiu o valor do SMN federal para $10/hora. Mas se o aumento tivesse acompanhado os ganhos de produtividade o salário mínimo seria hoje de $18.72/hora; se tivesse acompanhado o aumento de rendimento dos 1% mais ricos seria de $28.34/hora5. Por essa razão, uma das reivindicações dos trabalhadores é um SMN de $15/hora6.

A desigualdade aprofunda-se num contexto de aumento de produtividade. Desde 2000, enquanto a produtividade aumentou cerca de 23%, o salário do trabalhador médio aumentou apenas 0.5%, e a compensação média (salário e benefícios) apenas 4%. Enquanto até aos anos 1970 a produtividade e os salários cresceram aproximadamente a par e passo, desde 1973 a produtividade aumentou 80% enquanto os salários aumentaram apenas 11%, e o número de horas trabalhadas aumentou cerca de 9%. Uma família de classe média enfrenta crescentes dificuldades em manter o seu nível de vida, devido à subida de custos acima do valor da inflação e à ínfima subida dos salários. Os custos na saúde por pessoa duplicaram desde 1988 (para $8,500). Os custos de frequência no ensino superior subiram levando cerca de dois terços dos estudantes a recorrerem a empréstimos (45% há duas décadas) e a terminarem os cursos com dívidas na ordem dos $27,000. Metade dos recém-licenciados, com menos de 25 anos, estão desempregados ou em empregos que não exigem licenciatura.

Os níveis de desemprego subiram dramaticamente durante 2008-9, e apesar de ligeiras melhorias a partir de meados de 2011 a taxa de desemprego oficial situa-se de momento nos 7%, acima dos 4% no início do século. Os valores são maiores em alguns estados e grupos (12% entre os negros, 8.3% entre os hispânicos e 20% entre os jovens)7. Se considerarmos a taxa de subemprego, que inclui desempregados e quem tenha trabalho a tempo parcial e procure trabalho a tempo inteiro, este valor ascende aos 17.4% (Janeiro/2014, Gallup). E estes valores não incluem ainda os desempregados que já deixaram de activamente procurar emprego. 

À semelhança do que sucede em Portugal, encontrado novo emprego este implica uma quebra de salário, na ordem de 10%. A quase totalidade dos novos empregos criados, 96%, foram empregos a tempo parcial.

Este desfasamento entre os níveis de produtividade e acumulação de riqueza, por um lado, e mais horas de trabalho e perda de salário, por outro, corresponde a uma significativa intensificação da exploração dos trabalhadores, que em parte foi possível devido aos fortes ataques à contratação colectiva. Durante os anos 1950, cerca de um terço dos trabalhadores estavam sindicalizados. Em 2011, este valor era de apenas 12% (37% no sector público, e 7% no sector privado). Isto muito embora as vantagens da contratação colectiva sejam evidentes: os trabalhadores com contrato colectivo têm salário cerca de 23.3% mais elevado, probabilidade 18.3% superior de ter seguro de saúde, e 22.5% de ter pensão de reforma. Em 2011, apenas 17.8% dos trabalhadores estavam cobertos por contrato colectivo (face a 43% em 1978). Este declínio explica cerca de um terço da desigualdade salarial entre 1973-2007, para os homens trabalhadores, e um quinto entre mulheres.

Os estado-unidenses estão não só a acordar do son(h)o como a despertar para a luta. O movimento Occupy Wall Street em Nova Iorque, depois replicado em dezenas de cidades, embora sendo um movimento desestruturado e sem programa concreto, galvanizou muitas pessoas e colocou a questão da desigualdade económica e ganância capitalista na ordem do dia, condicionando o discurso político de Washington, D.C.
A luta ganha ascendente entre os trabalhadores, incluindo os trabalhadores portuários e dos aeroportos, os professores, os trabalhadores domésticos, os trabalhadores agrícolas, e os emigrantes. Tem surgido não só nos sectores sindicalizados, mas também, recentemente, de forma mais vigorosa entre os trabalhadores mais precarizados e de mais baixos salários. Exigem-se melhores salários, a subida do SMN para $15/hora, e o direito a sindicato e contrato colectivo. Neste grupo encontram-se os trabalhadores das cadeias de restauração rápida (fast-food), como a McDonalds e outras, que têm protagonizado uma luta intensa e prolongada em todo o país. Em Dezembro, estes trabalhadores coordenaram uma greve em 150 cidades. Contrariamente à visão estereotipada, o trabalhador típico destas cadeias não é adolescente. A idade média é de 29 anos, mais de 26% está a criar um filho, entre um terço e metade tem mais um emprego8, e 43% tem um rendimento duas vezes inferior ao limiar federal de pobreza. 

Estas companhias dão salários de pobreza aos seus trabalhadores, enquanto arrecadam milhares de milhões em lucros e, aproveitando uma estipulação fiscal, usam os prémios de eficiência dados aos executivos para pagar menos impostos. Entre 2011 e 2012, o CEO da YUM! Brands, que possuiu a Taco Bell, KFC, e Pizza Hut, recebeu $94 milhões limpos em prémio, resultando numa isenção fiscal para a companhia de $33 milhões, devida só a este prémio.9

Os trabalhadores da Walmart, cadeia de lojas de grande superfície, estão também há meses numa luta aguerrida. Em Novembro coordenaram uma greve em mais de 1500 lojas. Se esta empresa transnacional fosse um país estaria entre uma das 30 maiores economias dos mundo, com um PIB de $460 mil milhões, empregando 2.2 milhões de trabalhadores. Cerca de metade das suas acções pertencem a seis membros da família Walton, cuja riqueza ascende aos $150 mil milhões, mais que Bill Gates, Warren Buffet e Michael Blomberg juntos, ou mais que os 40% mais pobres dos EUA. As lutas foram fortemente reprimidas, resultando em mais de 100 prisões. Muitos destes trabalhadores vivem abaixo do limiar da pobreza e dependem de subsídios federais para comprar alimentos (food stamps).

Cerca de 14% das famílias, 47 milhões de pessoas, depende deste programa federal de apoio alimentar. Mas o Congresso discute cortes a este programa na ordem dos $5 mil milhões, enquanto em 2013 aprovou $526.8 mil milhões só para o Pentágono e $80 mil milhões para a guerra no Afeganistão. Não será este Congresso nem a Casa Branca a assegurar uma alteração do sistema. Se os trabalhadores dos EUA querem melhores salários e condições de vida e trabalho, se querem um futuro melhor, terão de abandonar a ilusão da ascensão individual, e optar pela organização e luta colectiva.

A ideologia do sonho americano alimentou, até há pouco, a aceitação de algum nível de desigualdade. «Se eu trabalhar, eu ainda poderei vir a ser rico.» O carácter individualista do sonho minou a consciência de classe dos trabalhadores, cegando-os à necessidade de se reunirem em organizações de classe. Mas as actuais lutas estão a alterar as perspectivas. Esta deve ser a de não apenas melhorar a condição da sua classe, mas abolir as classes e o sistema de exploração do homem pelo homem.

Notas:
(1) Ver http://america.aljazeera.com/articles/2013/9/10/top-1-percent takehomerecordshareof2012usincome.html
(2) Ver http://workingamerica.org/
(3) Estes valores, e outros referidos neste artigo foram extraídos de Mishel, Lawrence, Josh Bivens, Elise Gould, and Heidi Shierholz. The State of Working America, 12th Edition. A forthcoming Economic Policy Institute book. Ithaca, N.Y.: Cornell University Press. Este estudo está disponível emhttp://stateofworkingamerica.org/
(4) Relatório sobre emprego de 2013, http://thejobgap.org/national-report/
(5) Estimativas do Economic Policy Institute, http://www.epi.org
(6) http://15now.org
(7) Bureau of Labor Statistics, 10 de Janeiro, 2014, http://www.bls.gov/news.release/empsit.nr0.htm
(8) National Employment Law Project http://www.nelp.org
(9) http://www.ips-dc.org/reports/fast-food_ceos_rake_in_taxpayer-subsidized_pay

domingo, 27 de abril de 2014

CAROS AMIGOS - Edição 205 - Editorial e Sumário

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ALOPRADOS
Por golpes e tramoias, a direita no Brasil viveu aboletada no poder por muito tempo. E, dominando o Estado, também não precisou sair às ruas, gritar, berrar, xingar, como visto atualmente e de forma tão descarada. Apresentadora de tevê elevada a intelectual e âncora a pregar justiça com as próprias mãos; músicos que ressurgem para dizer que a ditadura não foi tão ruim assim; pastores-ostentação exibindo suas ignorâncias contra gays e aborto, fazendeiros e ruralistas declarando morte a indígenas, políticos órfãos da família papai-mamãe e, por fim, aloprados que se dispõem a ir para as ruas pedir a volta dos militares. Diante de pequenos avanços sociais e populares, a direita mostra sua cara.

"Levante Coxinha"
Para discutir esse levante “coxinha” (termo que se popularizou na internet para definir reaças e direitosos), Caros Amigos entrevista estudiosos e pesquisadores sobre essas manifestações que, no fim de março, quando já se falava nos 50 anos do golpe militar, levou a uma tentativa de reedição da Marcha com Deus, Família e Propriedade dos longínquos e tenebrosos anos 1960. Poderíamos resumir que a direita não está suportando as seguidas vitórias petistas, que identificam “comunistas”, mas há mais o que ver nessas manifestações: elas atestam a linhagem da direita brasileira contra qualquer ação de justiça social, reforma agrária, cotas para negros e Bolsa Família; qualquer ação que fuja dos tradicionais privilégios para poucos com a exploração de muitos.

Transgênicos
A edição traz também ao debate os avanços dos transgênicos no Brasil. Questão até mesmo de soberania nacional – afinal, a semente trans é de propriedade privada de multinacionais –, a introdução dos transgênicos tem seguido a regra nada saudável dos atropelos às leis, pressões de poderosos lobbies e omissões. A reportagem constata que nem mesmo os órgãos estatais se entendem quanto à fiscalização, por exemplo, sobre a rotulagem obrigatória, que praticamente não há. E nesse caldeirão de manipulações, a transgenia já está presente em muitos produtos alimentícios sem informação aos consumidores. A onda homofóbica na África é outro tema desta Caros Amigos. Institucionalizada em leis em vários países, tem tratado homossexuais como criminosos ou doentes. Mostramos ainda as consequências da crise na Europa, que criou uma legião de “novos pobres”, a classe média que perdeu empregos e casas e atualmente vive nas ruas e abrigos. Ainda nesta edição, a discussão sobre a apropriação das narrativas indígenas por escritores não índios e como cada um as tratou, uma questão que revela o mesmo movimento que ainda expropria e marginaliza os indígenas. E falamos de outra apropriação: a linguagem do cordel a serviço do movimento gay e as reações dos mais tradicionalistas.
Boa leitura!
P.S.: A edição tem ainda a estreia de Ciro Marcondes Filho, que substitui ao saudoso Renato Pompeu na seção Ideias de Botequim. Bem-vindo!


Sumário

REPORTAGENS

ENTREVISTAS

ARTIGOS E COLUNAS

SEÇÕES
42 - Ensaio Fotográfico - Marchas antifascistas

CHARGE

sexta-feira, 25 de abril de 2014

Como a crise ucraniana pode derrubar o Império Anglo-Sionista

The Saker

22/4/2014, The SakerThe Vineyard of the Saker



Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Há muitas teorias sobre o que, exatamente, causou o colapso da União Soviética. Alguns dizem que foi Ronald Reagan, com seu programa Guerra nas Estrelas [orig. Star Wars program]. Outros dizem que foi a guerra no Afeganistão, ou o sindicato polonês Solidarnosc. Outras teorias populares incluem o fracasso da economia soviética; a queda dos preços do petróleo; a incapacidade para produzir bens de consumo; o anseio de muitos soviéticos por liberdades e rendas de “padrão” ocidental; problemas nacionais/étnicos; um complexo militar-industrial hipertrofiado; uma burocracia massiva e corrupta; a corrupção dentro do Partido Comunista da União Soviética (PCUS) e sua nomenklatura; Mikhail Gorbachev, traidor; e muitas outras teorias. 

Embora todos esses fatores tenham contribuído para enfraquecer o sistema soviético, não acredito que os tenham derrubado, sequer se se somam todos. 

O que realmente derrubou a União Soviética foi coisa inteiramente diferente: uma insuportável dissonância cognitiva ou, dito mais simplesmente, uma sensação pervasiva e predominante de total hipocrisia.

Leonid Brezhnev
Mas antes de argumentar a favor da minha tese, sobre o papel da hipocrisia, permitam-me esclarecer por que não acredito que qualquer das teorias acima listadas faça sentido: simplesmente porque a União Soviética sobreviveu a tempos muito, muito, muito mais duros. Francamente, todo o período, de 1917 até 1946 foi muito pior que qualquer coisa que tenha acontecido durante a “estagnação” de Brezhnev ou depois dela. Mesmo assim, a União Soviética não apenas sobreviveu: ela destruiu, praticamente sozinha, a maior máquina militar que a Europa jamais criou – a Wehrmacht de Hitler − e também cortou as asas da Anglosfera, que planejava atacar a URSS ao final da guerra. 

Então, mais ou menos venceu também a “corrida espacial” (com a notável exceção da chegada à Lua, que a URSS perdeu, dia 24/10/1960); construiu a, pode-se dizer, mais poderosa força militar convencional sobre o planeta, enquanto vivia internamente um boom econômico. Por qualquer medida que se adote, a URSS foi potência formidável por longo período.

Mas, então, alguma coisa deu muito, muito errado.

Pessoalmente, tendo a culpar Nikita Khrushchev que, na minha opinião, foi, de longe, o pior governante que a União Soviética jamais teve. 

Nikita Khrushchev
Embora seja posição controversa, creio firmemente que Khrushchev e uma gangue de apoiadores assassinaram Stálin (o envenenaram) e, depois, se engajaram em massiva campanha de propaganda para justificar o crime e legitimar o próprio poder. Tudo começou com o infame famoso discurso secreto de Khrushchev ao 20º Congresso do PCUS; e continuou durante quase todo o governo de Khrushchev. Khrushchev, que odiava pessoalmente Stálin, usou todas as verdades e todas as mentiras para demonizar Stálin. Pior, Khrushchev objetivamente uniu forças com muitos trotskistas em todo o mundo, que há décadas vivem de espalhar o mito do “stalinismo”.

Devo esclarecer que não sou admirador de Stálin, que considero ditador sanguinário e absolutamente cruel, embora pessoalmente muito sedutor. Mas tenho de dizer que, definitivamente, Stálin não foi pior que Lênin, Trotsky ou Khrushchev e que, como estadista, foi muito mais habilidoso que qualquer outro governante soviético. Quanto a Khrushchev, foi “protegido” de Lazar Kaganovich, um dos maiores bandidos na história soviética; foi participante ativo de muitas ações de repressão sangrenta; e, em geral, foi homem amplamente imoral e sem princípios e excepcionalmente mau.

Seja como for, com sua campanha anti-Stálin, Khrushchev, basicamente, convenceu o povo soviético de que tudo que até ontem fora branco, passaria doravante a ser preto; e o preto, branco. Num nível mais profundo, a operação fez ver, ou deixou ver, que a URSS era governada por hipócritas absolutos, sem convicções políticas pessoais, capazes de ceder qualquer coisa, exceto o próprio poder.

veneno da desilusão, da desesperança, da descrença injetado por Khrushchev e sua gangue agiu devagar, mas sem parar; e quando Leonid Brezhnev chegou ao poder (1964), já havia discretamente contaminado toda a sociedade soviética. Em 1980, o veneno já estava onipresente em todos os níveis da sociedade, do mais inferior e mais pobre, ao mais poderoso e rico membro do partido. Não posso entrar em detalhes agora, mas digo que o fato de que praticamente ninguém se tenha levantado para defender o sistema soviético em 1991 e em 1993 é efeito direto da erosão, por aquele envenenamento, da sociedade soviética. 

Nos anos 1990s, todos sabiam que, ainda se os ideais do comunismo fossem bons (ainda há quem os veja como bons até hoje), a moderna sociedade soviética estava erguida sobre mentira gigantesca, pela qual ninguém estava disposto nem a lutar nem, e muito menos, a morrer.

Esse surto de desilusão e descrença também definiu os anos 1990s e o “pesadelo democrático” dos anos Ieltsin. Hoje se diz que foi a época em que “todos os russos queriam ser chefões de máfias, e as todas russas, prostitutas” – o que evidentemente não é verdade, mas em geral, sim, faz sentido. Foi só quando Putin chegou ao poder, que esse veneno começou a enfraquecer e a sociedade russa começou a descobrir ideais decentes e alguma fé em valores que vale a pena defender.


O que tudo isso tem a ver com o Império Anglo-Sionista e a Ucrânia?

De fato, é bastante óbvio. Tendo a concordar com Alexander Mercouris, Mark Sleboda e Mark Hackard (vídeo no fim do parágrafo - em inglês), quando dizem que os EUA, governados por políticos incompetentes e mal formados (não por diplomatas treinados ou estadistas), provavelmente esperavam que a Rússia se encolheria e aceitaria um regime de fascistas banderistas na Ucrânia. E quando a Rússia recusou-se a aceitar e reagiu, os anglo-sionistas cometeram o primeiro erro de cálculo, tornado ainda pior quando subiram dramaticamente o tom da retórica e puseram-se a insistir que preto seria branco e branco, preto.


Para os anglo-sionistas, uma insurgência neonazista armada que toma o poder 24 horas depois de ter assinado um acordo formal e legal, é “representante legítima do povo da Ucrânia”; os banderistas são filossemitas e democratas; e todo o povo do leste da Ucrânia são, ou extremistas odiadores de judeus, ou agentes russos. Se gente no oeste da Ucrânia inicia campanha de terror, assassinato e saques, é expressão de democracia. Quando gente no leste toma prédios do serviço secreto ucraniano, é terrorismo. Quando Yanukovich enfrentava manifestações, os EUA exigiram que não usasse seus policiais, sequer cassetetes. Quando o capo da junta, Iatseniuk, enfrenta protestos, está agindo com elogiável moderação, se manda tanques, peças de artilharia e aviões de combate contra civis. O referendo na Crimeia é ilegítimo porque estaria, dizem os EUA, sendo realizado sob ameaça de armas. Mas a eleição presidencial será legítima, ainda que organizada por neonazistas notórios, e apesar de dois candidatos não nazistas terem sido atacados e não poderem fazer campanha. 

Poderia continuar a multiplicar os exemplos ad nauseam, mas vocês já entenderam: o que os anglo-sionistas estão dizendo urbi et orbi é, basicamente, que branco é preto; que a Terra é plana; que 2+2=3, que o que está acima está abaixo, etc.. Estão fazendo exatamente o que Khrushchev fez na URSS: estão mostrando ao próprio povo que eles não acreditam em coisa alguma, que nada defendem, que não lutam por nada, exceto pelo próprio poder. (Não que o povo dos EUA precise de muito estímulo para se convencer, deve-se lembrar).

Em minha opinião admitidamente subjetiva, o nível de desgosto de muitos norte-americanos contra o governo federal já atinge a estratosfera. Claro, muitos se sentem impotentes e creem que nada há que possam fazer. Quando votam pela paz, só obtêm mais guerras. Quando votam por menos impostos, só ganham mais impostos. Quanto mais votam por mais direitos civis, menos têm. Há toda uma geração de norte-americanos tão desiludidos e desgostosos com seus próprios governantes, como estavam os soviéticos, com os deles, nos anos 1970s e 1980s.

Interessante: há, sem dúvida possível, um forte movimento antigoverno, de norte-americanos. São gente que têm a sabedoria de separar, de um lado, o país deles, o povo que são, os ideais sobre os quais a sociedade dos EUA foi construída; e, de outro lado, o governo em Washington e o 1% da população para cujos interesses trabalha aquele governo em Washington. 

Não é incrível?! A União Soviética teve sua nomenklatura formal; os EUA têm a deles, só que informal. Nos dois casos, cerca de 1% da população.

Querem mais espantosos paralelos? Que tal esses:
  
1. Orçamento militar super inchado, consumido em exércitos ineficientes;
2. Comunidade de inteligência gigantesca e ineficiente;
3. Infraestrutura pública em ruínas;
4. O recorde mundial na proporção da população encarcerada (o US GULag);
5. Uma máquina de propaganda que já não convence ninguém;
6. Movimento interno de dissidentes que o regime não consegue calar;
7. Uso sistemático de violência contra os cidadãos;
8. Tensões crescentes entre autoridades federal e locais;
9. Indústria cujo principais itens de exportação são armas e energia;
10.População com medo de ser espionada por serviços internos de segurança;
11. O dissenso é apresentado como terrorismo e espionagem;
12. Paranoia generalizada e medo de inimigos internos e externos, todo o tempo;
13. Super dispersão financeiramente catastrófica do mando do império, sobre todo o planeta;
14. Consciência de ser odiado em todo o planeta;
15. Um exército subserviente de press-titut@s na imprensa-empresa, que jamais se atreve a perguntar as perguntas certas;
16. Quantidade estratosférica de consumo e abuso de drogas;
17. Pelo menos uma geração de jovens que não acreditam em rigorosamente coisa alguma;
18. Um sistema educacional em queda livre (mas o sistema soviético sempre foi muito melhor que o dos EUA, mesmo no pior momento);
19. Desgosto generalizado, entre os eleitores, com a política;
20. Corrupção massiva e em grande escala em todos os níveis do poder político.

São apenas uns poucos exemplos que se aplicam tanto à URSS dos 1980s, como aos EUA de 2014. Há, claro, muitas diferenças também, mas são bem óbvias e não é preciso listá-las.

Meu ponto não é que URSS e USA sejam idênticos, mas que as semelhanças entre os dois são cada dia mais visíveis e numerosas.

Para concluir, pondo as coisas em termos mais simples: o que os anglo-sionistas estão defendendo aberta e publicamente na Ucrânia é o oposto polar do que se supõe que defendam


É coisa extremamente perigosa de fazer para qualquer regime, e o Império Anglo-Sionista não escapa a essa regra. Impérios desmoronam quando o próprio povo desilude-se e deixa de acreditar, com discrepância massiva entre o que dizem as elites governantes e o que elas fazem. Como resultado, nem é tanto que o Império enfrente inimigos formidáveis. É, mais, que ninguém se interessa por defendê-lo – e de morrer para defendê-lo, então, nem se cogita!

Observem a frase abaixo:

(na Ucrânia) “Barack Obama e o Partido Democrata estão com o racismo e o fascismo”

Estranha frase, não? Mas verdadeira, por mais que nessa frase, assim tão curta, haja tensões internas suficientes para detonar o cérebro de muitos norte-americanos, sobretudo, de Democratas. Pus “na Ucrânia” entre parênteses para oferecer o contexto, mas, é claro, o contexto nada muda. Não se podem pregar políticas liberais em casa, e fascismo no exterior. Nem se pode ser antirracista, de um tipo que apoia racismos, e não importa onde esteja o racismo. Valores nos quais se acredita realmente são aplicáveis sempre e em todos os lugares. Não se pode ser contra a tortura no país “x”, e a favor, no país “y”. É ridículo. Releiam então a mesma frase, dessa vez sem os parênteses de “contexto”:

“Barack Obama e o Partido Democrata estão com o racismo e o fascismo”

É de enlouquecer, não é? 

E, claro, o mesmo se pode dizer de McCain e seu partido:

“John McCain e o Partido Republicano estão com o racismo e o fascismo”

Ainda dói, não é?

E essa:

“A União Europeia está com o racismo e o fascismo”

Ou, ainda melhor:

“A Liga Antidifamação e o Centro Weisenthal estão com o racismo e o fascismo”

Ou, mais uma:

“Anistia Internacional e Observatório dos Direitos Humanos estão com o racismo e o fascismo”

Engraçado, não?

Agora, tentem combinar qualquer das frases acima, com a seguinte:

“Putin e a Rússia estão com a democracia, a liberdade e os direitos humanos”

Opa! Essa machucou muitos norte-americanos e europeus. 

Claro, os eventos da Ucrânia – de fato, nenhum evento – são jamais mostrados assim pela imprensa-empresa de massa e no discurso para a opinião pública zumbificada. Mas tampouco na URSS, os eventos eram mostrados assim. Mas em nenhum caso toda a população são zumbis imbecilizados – embora, sim, muitos sejam – e as pessoas pensam, com seus botões, calados, os seus pensamentinhos, com a própria cabeça. Vez ou outra, trocam ideias com os amigos. Na União Soviética, o Petri dish para conversas politicamente incorretas era em geral a cozinha. Nos EUA, talvez seja em torno da grelha de assar hambúrgueres.

Claro, não veremos manifestações de massa pelas ruas de Washington DC, a maioria manterá privados esses “pensamentos criminosos”, cada um para si mesmo, para uma roda pequena de amigos nos quais confiam, mas permitam-me lembrar, uma vez que estamos fazendo comparações entre a URSS e os EUA, que não houve movimento “Occupy o Kremlin” na URSS; e que “Occupy Wall Street” é movimento amplo e muito difundido por todo esse país imenso. Nem jamais houve equivalente soviético aos protestos gigantes contra a Organização Mundial do Comércio, em Seattle, em 1990. Significa que o povo norte-americano não é, absolutamente não é, tão passivo como creem alguns.


A Ucrânia é muito distante dos EUA, e só 1/6 dos norte-americanos conseguem localizá-la num mapa. Mas as consequências do envolvimento de alta visibilidade, do governo dos EUA com o Império Anglo-Sionista, ali, serão dramáticas, embora retardadas, no tempo. Ninguém, homem ou mulher, em perfeito uso das faculdades mentais, daria outra vez a Obama aquele Prêmio Nobel. Assim, mesmo que a formidável máquina ocidental de propaganda seja mais sofisticada e mais potente que qualquer coisa com que Goebbels ou Suslov tenham algum dia sonhado, ela não conseguirá ocultar, para sempre, a realidade.

Por isso, precisamente, o Império se empenha tão desesperadamente por algum tipo de vitória na Ucrânia. Se já não consegue ser respeitado, tem, pelo menos, de ser temido. Mas, se a Ucrânia se esfacela, e a Rússia fica com a Crimeia e o leste (como parece a cada dia mais provável que aconteça), nesse caso, os Anglo-Sionistas já não mais serão, sequer, temidos. Quando isso acontecer, a expectativa de vida do Império já será muito, muito curta.

Ah, sim, conhecer a verdade liberta sempre, e a verdade é a mais poderosa arma de acabar com impérios jamais criada. Pôs abaixo a URSS e porá abaixo os Anglo-Sionistas. Agora, é só questão de tempo.


The Saker