LULA PRESO POLÍTICO

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sexta-feira, 22 de agosto de 2014

O BRICS e os desafios de uma nova ordem mundial

Blog do Planalto
Não é de surpreender que haja deliberações em curso em Washington acerca das recentes recomendações do Painel de Defesa Nacional, publicadas dias após a VI Cúpula do BRICS, no sentido de modificar a doutrina militar do país para capacitá-lo de travar grandes guerras simultâneas em nada menos de seis frentes ao redor do mundo – muito além das duas frentes atualmente previstas – inclusive contra outras potências nucleares, em particular a Rússia e a China.

Por Paris Yeros, via Brasil de Fato
A recente VI Cúpula do BRICS, reunida em Fortaleza em meados de julho, deu o primeiro passo concreto na construção de uma aliança entre os principais países ditos emergentes: o Brasil, a Rússia, a Índia, a China e a África do Sul. Em sua declaração final, os cinco se manifestaram a favor de uma reforma substantiva na ordem mundial, cujo único antecedente se encontra nas reivindicações do G-77 há exatamente 40 anos, no âmbito da Assembleia Geral da ONU.
O movimento dos G-77 foi uma das ramificações mais importantes da emergência dos povos do Sul, sujeitos a meio milênio de dominação europeia. Apostou em uma possível ação coletiva pelos exportadores de matérias-primas por meio da cartelização, ao exemplo da OPEP, com a finalidade de reverter e estabilizar os termos de troca em relação aos centros industriais do Norte.
No entanto, tal proposta faltava participação popular e coerência política. Afinal, a Nova Ordem Econômica Internacional (NOEI), como se chamava ambiciosamente, representava uma fuga às contradições do desenvolvimentismo da época, que esbarrava na industrialização dependente e na crise agrária. Ademais, os ânimos revolucionários estavam em plena ascensão. A NOEI chegou a ser vista como tentativa de “negociar” com o imperialismo uma saída à crise do desenvolvimentismo.
Aquela NOEI não vingou. Não resistiu ao contra-ataque do novo capitalismo monopolista-financeiro, em vias de consolidação. Em meio à crise geral dos anos 1970, aproveitou-se das ilusões desenvolvimentistas e dívidas acumuladas dos países do Sul – contraídas em dólares e ampliadas dramaticamente pelo preço do petróleo obtido pela OPEP – para impor um novo padrão de acumulação em escala mundial, inédito em seu grau de financeirização e lógica especulativa.
O Sul outrora emergente foi, dessa maneira, recolocado em seu lugar. A âncora da nova economia internacional, dali em diante, se constituiu a partir de um conjunto de poderes: o dólar fiduciário, administrado pelos EUA, mediante negociações ad hoc com os seus parceiros júniores na Europa e no Leste Asiático; um mercado financeiro internacional, sediado em Wall Street e capaz de apoderar-se de grande parte das poupanças do mundo; um sistema de megaempresas monopolistas, lideradas pelas norteamericanas, em acelerado processo de fusões e aquisições em escala global; e a capacidade bélica única dos EUA, apoiada nas vantagens deste sistema econômico, sobressaindo definitivamente da URSS no fim do século.
Mas não foi esse o fim da história e não foram os EUA os vencedores definitivos dessa Guerra Fria. A âncora do novo sistema foi se arrasando à medida que o novo capitalismo realizava a sua obra especulativa e terceirizava a sua produção industrial. Chegou a procurar a sua salvação na China, país de peso com trajetória revolucionária e autonomia estratégica.
Agora a âncora parece estar se soltando de vez. Pois a proposta do BRICS, liderada pela China, é de circular as suas poupanças à periferia do sistema por meio de um Novo Banco de Desenvolvimento e de um Arranjo Contingente de Reservas, sem intermediação do dólar e de Wall Street, criando-se assim a possibilidade de deslocar os EUA da sua supremacia mundial.
Pode-se ter certeza que a âncora estadunidense irá se arrastar e pesar na transição sistêmica, por um bom tempo. O poder bélico dos EUA permanece fundamental, junto às suas megaempresas monopolistas. De fato, o seu poder bélico vem sendo acionado sistematicamente no pós - Guerra Fria para preservar as vantagens monopolistas de suas empresas em mercados estratégicos, principalmente de commodities, e especialmente do petróleo, cujas trocas internacionais permanecem vinculadas largamente ao dólar e a bolsas localizadas nos próprios EUA. A tentativa de avançar contra esse arranjo constitui a ameaça definitiva à “segurança nacional” dos EUA.
A primeira grande questão é se os EUA e seus parceiros juniores promoverão uma guerra sistêmica, tão típica em conjunturas com esta, para resguardar a sua posição. São plenamente capazes disso. A ideologia do capitalismo continua essencialmente a mesma: a da supremacia europeia e do direito divino dos civilizados de proteger os bárbaros de si mesmos.
Não é de surpreender que haja deliberações em curso em Washington acerca das recentes recomendações do Painel de Defesa Nacional, publicadas dias após a VI Cúpula do BRICS, no sentido de modificar a doutrina militar do país para capacitá-lo de travar grandes guerras simultâneas em nada menos de seis frentes ao redor do mundo – muito além das duas frentes atualmente previstas – inclusive contra outras potências nucleares, em particular a Rússia e a China.
A segunda questão é se o BRICS conseguirá sementar um processo de desenvolvimento autônomo na periferia, ao nível dos desafios do século XXI, que sirva para agregar forças e dar coerência política às relações Sul-Sul nesta fase de transição sistêmica. O fato de a âncora estadunidense estar solta não garante tal resultado. O que podemos esperar, sim, é que se abra um espaço de manobra para os corajosos e talentosos barganharem melhor e resistirem ao chumbo estadunidense.
Mas quem está no comando do BRICS são outras megaempresas monopolistas, substantivamente integradas aos monopólios globais existentes, embora em graus diferentes, que buscam, sobretudo, uma ampliação de seu espaço de acumulação. Não se pode depositar confiança em iniciativas associadas a elas, se o que se almeja realmente é um avanço substantivo em nosso tempo. O BRICS, deixado à sua principal lógica, promete ser outra fuga para frente, desta vez “neodesenvolvimentista”, pós-agrária, pós-industrial, pós-ambiental e pós-racial, cujas clivagens o imperialismo manipulará.
Paris Yeros é professor de Economia Internacional na UFABC.
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