LULA PRESO POLÍTICO

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quinta-feira, 4 de setembro de 2014

A turma do medo está do lado de lá


PoValter Pomar, encontrei no Contexto Livre

FHC de saias?
Collor de saias?
Jânio de saias?

Cada uma das frases acima vem sendo utilizada, por diferentes interlocutores e as vezes pelos mesmos, para tentar classificar a candidata Marina Silva.

Entendo os motivos de quem faz tais comparações. Mas seria bom refletir um pouco mais, antes de transformar este tipo de frase em base para programas de televisão.

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Quem fala que Marina é um FHC de saias, evidentemente quer apontar as semelhanças entre o programa da candidata e o programa tucano.

Se fosse apenas isto, estaria tudo fácil. Acontece que Marina não é apenas isto, não é apenas Neca Setúbal, Eduardo Gianetti e André Lara Resende.

Marina expressa, também, um setor que esteve conosco contra FHC; e que agora é aliado de FHC contra nós.

No caso da pessoa física Marina Silva, ela converteu-se: começou lutando contra o neoliberalismo, depois passou a fazer concessões ao neoliberalismo, depois passou a enxergar virtudes no neoliberalismo e agora assumiu a defesa explícita de políticas neoliberais.

Acontece que a fase final desta conversão foi feita depois que Marina saiu do governo Lula. Portanto, sua face abertamente neoliberal ainda é desconhecida por uma parte do eleitorado.

Com um agravante: há uma parcela do eleitorado que não viveu o governo FHC. Para esta parcela, a comparação de Marina com FHC tem baixa eficácia eleitoral.

Muito mais eficaz — seja para recuperar o eleitorado que votou em nós e agora pensa em votar em Marina, seja para conquistar eleitores populares que nunca votaram em ninguém e agora pensam em votar nela — é priorizar o debate sobre nossas ações futuras, sobre o programa de Dilma 2015-2018, obrigando Marina a sair da zona de conforto.

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Quem fala que Marina é um Collor de saias, talvez queira destacar certas "afinidades eletivas" entre a candidata e o ex-presidente.

Estas afinidades realmente existem. Assim como existem afinidades semelhantes entre Marina e Jânio.

Nos três casos, um setor da elite apoia candidaturas demagógicas e autoritárias, para ganhar o apoio de setores despolitizados dos trabalhadores e da pequena burguesia contra candidaturas à esquerda no respectivo espectro político.

A demagogia é um recurso indispensável, porque as candidaturas da elite não podem assumir pública e abertamente o que farão, uma vez no governo.

Aliás, se falassem a verdade e assumissem que seus programas de governo resultam em desemprego e dependência, Aécio e Marina não passariam de 0,1% dos votos.

É por isto que as candidaturas de direita berram tanto sobre outros assuntos: contra os que ofendem a moral e os bons costumes, contra a corrupção, contra os políticos e contra a política, contra o "aparelhamento do Estado" etc.

Isto quando não reclamam dos juros e da inflação causados, em última análise, pelos especuladores que estão por detrás de suas campanhas.

E o autoritarismo? Este constitui, em certa medida, uma decorrência lógica da demagogia: quem constrói seu discurso criticando os políticos e a política em geral, projeta um governo acima do bem e do mal, baseado no poder discricionário individual do ungido.

Claro que cada personagem é autoritário a seu jeito. E isto, como sabemos, contém riscos para a chamada "institucionalidade": Jânio renunciou, Collor foi impedido. Mas ambos foram úteis para derrotar a esquerda e preparar o terreno, no primeiro caso para o golpe militar de 1964, no segundo caso para o neoliberalismo tucano.

Marina é demagógica? Marina é autoritária? Certamente.

Mas a comparação com Jânio e com Collor ajuda a perceber isto? Mais exatamente: a comparação ajuda a esclarecer e libertar as camadas populares que são vítimas desta demagogia?

No horário eleitoral gratuito, não ajuda. Jânio foi eleito presidente em 1960 e prefeito de São Paulo capital em 1985. Morreu há anos. Collor foi eleito presidente em 1989. Hoje é senador e sempre haverá quem lembre que ele faz parte da "base de apoio" do governo.

Mostrar as afinidades de Marina com Jânio & Collor dentro de uma sala de aula, num texto didático ou numa longa conversa, pode resultar. Mas fazer isto num programa de TV, que será assistido brevemente por milhões de pessoas, corre o risco de não ser compreendido ou, pior, virar bumerangue.

Quando falo em bumerangue, não estou me referindo ao fato de Jânio e Collor, demagógicos e autoritários, terem sido eleitos.

Quando falo em bumerangue, também não estou me referindo ao equívoco de achar que a governabilidade depende principal ou exclusivamente do número de parlamentares eleitos pelo "partido presidencial" ou da "base de apoio".

Quando falo em bumerangue, estou me referindo a algo mais simples e simbólico.

Dilma é a candidata da verdade que vai vencer a mentira.

Dilma é a candidata do coração valente, da esperança que novamente vai vencer o medo.

A turma do medo, do atraso, do conservadorismo, está do lado de lá.

Mas a depender de como digamos isto, pode parecer que somos nós que estamos com medo.

Ou, pior ainda, pode parecer que estamos mais preocupados em "alertar" as elites de que elas estão apoiando uma aventureira. Como se as elites deste país não soubessem o que fazem. E como se não estivessem dispostas a pagar qualquer preço e a fazer qualquer coisa para derrotar o PT.

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Por isto: política no comando. Vamos mostrar que Marina é a candidata do capital financeiro e do conservadorismo político.

Vamos apresentar o que eles fizeram, o que nós fizemos e principalmente o que nós vamos fazer. E vamos derrotar a ela e a Aécio, com argumentos compreensíveis e pela esquerda.

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P.S. A quem quer que tenha formulado a frase "sonhar é bom, mas eleição é hora de botar pé no chão e voltar à realidade", eu recomendo 60 dias de reflexão acerca de outra frase, a saber: "é preciso sonhar, mas com a condição de crer em nosso sonho, de observar com atenção a vida real, de confrontar a observação com nosso sonho, de realizar escrupulosamente nossas fantasias". O autor desta segunda frase (mais exatamente de algo parecido com ela) deu muito, mas muito trabalho para o capitalismo e para a direita no primeiro quartel do século XX. Entre outros motivos porque soube extrair esperança da realidade e com isso transformar a realidade, sem abrir mão da esperança e no rumo da esperança.
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