LULA PRESO POLÍTICO

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sábado, 25 de outubro de 2014

Quando um motorista de ônibus pega a bandeira da História

Quando um motorista de ônibus pega a bandeira da História. Foto: Filipe Mendes
O motorista e as bandeiras. Foto: Filipe Mendes

Por Ana Helena Tavares *, via QTMD?

Um ônibus foi parado pela multidão durante comício com a presença de Dilma e Lula, realizado na cidade de Recife, em Pernambuco, na noite de terça-feira, 22 de outubro de 2014. O motorista poderia ter reagido com agressividade. Em vez disso, saiu do ônibus e pegou uma bandeira com o nome de Dilma. Depois subiu no teto do veículo e começou a tremulá-la gritando que faz faculdade graças ao PROUNI. O que isso tem a dizer sobre o Brasil de hoje?
O que está em jogo no Brasil, enquanto ninguém se empenha numa reforma política? É a guerra para descobrirmos quem é mais corrupto ou a guerra para manter aquele motorista no teto do ônibus? Devemos ficar sempre medindo o tamanho do mar de lama de cada candidato a cargos públicos ou devemos deixar isso a cargo da polícia e nos concentrarmos em qual deles tira e qual coloca as pessoas na lama?
Embora muitos façam vista grossa e outros tantos nem tenham tido oportunidade de tomar conhecimento, é fato, corroborado pela ONU, que o Brasil saiu do mapa relativo a países que têm a fome como problema estrutural. Não que ela tenha sumido de vez, mas concentra-se agora em casos isolados. Só por isso Betinho e Josué de Castro, dois grandes brasileiros que dedicaram sua vida à luta contra a fome, já devem estar tremulando bandeiras no céu.
Como levantar uma bandeira se você não tiver força nos braços? Tremulá-la então nem pensar. É isso o que está em jogo no Brasil. É isso o que diferencia o país de hoje do país da década de 90. Certa vez, em um de seus inflamados discursos, Lula disse: “Democracia não é apenas ter o direito de gritar que está com fome. Democracia é comer”! Como negar isso? Afinal, se você não come, de que adianta ter uma democracia que te dá o direito de gritar se você não terá forças para gritar?
Outro dia, alguém fez um comentário em meu Facebook defendendo a eleição de Aécio Neves com o argumento da “alternância de poder” e dizendo que é preciso fazer “experiências”. Exausta desta história, ironizei: “Experimentemos, então, colocar os descendentes de Hitler para governar o mundo”. Escandalizado, ele disse: “Não exagere! Os tucanos nunca metralharam ninguém”. Na hora, rebati de pronto: “Talvez algumas pessoas preferissem morrer metralhadas do que de fome”, eu disse. Afinal, não é só metralhando que se mata. Por isso, o medo que a elite tem de perder privilégios não pode vencer a felicidade de ver todos comendo.
Não sei o nome do motorista, mas, vença quem vencer, a imagem dele ficará marcada na minha memória como um símbolo destes “tempos interessantes”, em que classes historicamente excluídas podem tomar as rédeas de suas próprias bandeiras. Na China, desejar a alguém que “viva tempos interessantes” é uma maldição. No Brasil, se conseguirmos que estes tempos perdurem será o maior grito de independência que poderemos dar.

* Jornalista, editora do QTMD? e colunista do “novo Direto da Redação”.
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