LULA PRESO POLÍTICO

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segunda-feira, 10 de novembro de 2014

Jornalismo Wando WandNews - 63ª edição



E é com inenarrável prazer que anuncio a chegada da sua WandNews, a coluninha de sexta-feira que vem recheada com os melhores e os piores momentos da semana.
Hoje temos o choruminho erudito do intelectual, o beijo no coração da ex-tucana arrependida, a dessacralização dos juízes brasileiros e um Wando Responde para um cidadão de bem confuso.

CHORUMINHO
Durante a eleição, muita gente graduada apareceu pra pisar na cabeça daqueles que não tiveram as mesmas oportunidades de escolarização. O curioso é que, como vocês já viram aqui, muitos deles sobem no pedestal e enchem a boca pra criticar os menos escolarizados, acusando-nos de aceitarem o “pão em círculo” e servirem de “marcha de manobra”.
Quando esse tipo de escolarizado orgulhoso despreza a grandeza da sabedoria popular, a gente compreende e até acha engraçado. Mas quando a coisa parte de um intelectual, de um professor universitário, a coisa fica um pouco mais grave. Estou falando do professor de economia Manoel Luiz Malaguti, que proferiu a seguinte frase diante de uma turma de Ciências Sociais da UFES:
"Estudantes cotistas diminuem a qualidade da universidade. Eu detestaria ser atendido por um médico ou advogado negro."
“Se eu puder escolher, escolheria um branco”
Um chorume tão denso, que não dá pra acreditar que foi produzido por um professor de uma universidade federal. Ainda mais numa aula de Ciências Sociais, com vários alunos negros presentes na sala.
Mas aí eu pensei: não é possível! Não deve ter sido exatamente isso o que o professor quis dizer.  Foi aí,  então, que ele apareceu numa entrevista e confirmou absolutamente tudo. Pior: tentou escamotear seu preconceito através de uma análise estúpida, narrada com uma linguagem prolixa. Percebam como não estou mentindo:


Com ares de tratado sociológico, o economista não explicou nada, apenas reforçou suas ideias preconceituosas.
Destacamos os piores momentos da entrevista desse fenômeno da academia brasileira:
"No meio de uma discussão sobre cotas, eu coloquei que se eu tivesse que escolher entre um médico branco e um negro, COM O MESMO CURRÍCULO, eu escolheria o branco.”
Você não é racista, não, professor. Isso é maldade dessa gente que vê racismo em tudo. Duas pessoas são aprovadas pela mesma universidade, passam pelos mesmos processos de avaliação, recebem o mesmo diploma, mas se pudesse escolher, você escolheria o profissional branco. Não é racismo, é liberdade de expressão, não é, professor?
Continue, desabafe, ponha toda essa intelectualidade reprimida pela "ditadura do politicamente correto” pra fora:
"Os negros, em média, vêm de sociedades….sociedades mesmo, ás vezes, né…comunidades menos privilegiadas, pra gente não usar um termo mais forte"
Nota-se que o senhor tem sérias dificuldades com os conceitos sociedade/comunidade, o que é bastante complicado pra quem está dando aula pra uma turma de Ciências Sociais. Mas, tudo bem, prossigamos com o enrolation:
"Eles não têm uma socialização primária, na família, que os torne receptivos aos trâmites da universidade. Eles têm muito mais dificuldades pra acompanhar determinadas exposições. Não acho que é uma visão preconceituosa. É uma visão bastante realista"
Malaguti acha que a falta berço cultural e intelectual pros mais pobres que ingressaram na universidade. O problema dele não é só com os negros cotistas, mas com todos os pobres que não tiveram “uma primeira infância privilegiada”. Segundo ele, esses jovens não teriam condições de acompanhar as aulas da graduação. 
Mas, como a vida às vezes sabe ser ironicamente deliciosa, no mesmo dia em que o professor deu a entrevista uma notícia brilhou no site do Estadão:
image

E agora, Manoel? O que que você vai dizer lá em casa? Os alunos de origem mais pobre são os que têm o melhor desempenho nas universidades. Os fatos concretos parecem não estar em sintonia com a sua genialidade abstrata. Acho que o senhor terá que criar uma nova tese para abarcar seus preconceitos.
A reportagem parece até que foi especialmente escrita para constranger o professor:
Na sala de Fabio Souza, de 20 anos, do 3.º ano do curso de Relações Internacionais da Universidade Anhembi Morumbi, em São Paulo, as maiores médias são sempre dos três bolsistas do ProUni. “Vim de uma família pobre, tenho de me esforçar. Seja para garantir minha bolsa ou para ter um bom emprego”, diz.
Você está acompanhando, professor? Tem mais:
Ex-balconista de supermercado, o estudante Renan Muralho, de 25 anos, está a um mês da formatura em Medicina - o curso foi financiado com o ProUni na Anhembi Morumbi. “Você começa a ter bom desempenho e reconhecimento dos professores e isso apaga qualquer preconceito.”
Ou seja, os delírios intelectuais de Malaguti não encontram absolutamente nenhum respaldo na realidade. Segundo o estudo, o que acontece é exatamente o contrário. Universitários oriundos das camadas mais pobres da população são justamente aqueles que mais se esforçam e obtêm os melhores resultados em sala de aula. 
O professor foi afastado e será investigado pelo Ministério Público por crime de injúria racial. Diante da polêmica, Malaguti pediu desculpas:
Não quis de forma alguma ofender ninguém. Lamento se coloquei alguma palavra cuja interpretação tenha gerado ofensa”
Malaguti não assumiu o preconceito embutido nas suas ideias. Apenas lamentou e culpou a interpretação falha dos que não tiveram um berço cultural tão elevado quanto o seu.
Ressuscita, Paulo Freire!
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