LULA PRESO POLÍTICO

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sábado, 27 de dezembro de 2014

A carta mais emocionante de todos os tempos!

Rainbow

“Dirce Pereira da Silva
Olá, pessoal. Meu nome é Dirce, 80 anos, professora aposentada. No aspecto “amor” minha vida pessoal não foi muito feliz: tornei-me noiva de um rapaz no ano de 1952 e tivemos de desfazer nosso noivado em 1954, quando ele me pediu em casamento e os pais dele me rejeitaram por eu ser negra e ele branco.
Tudo isso tem mais de 60 anos, eu sei, mas nosso amor nunca acabou: quando finalmente fomos reatar nossos laços, estando nós dois já maduros e com experiência de vida, ele descobriu que tinha câncer no fígado. Ele faleceu em 1987, aos 57 anos, mas meu amor nunca morreu. Por isso, se tiver de me “enquadrar” previamente em alguma categoria sou, em tese, heterossexual.
Há alguns anos escrevi uma carta ao Deputado Jean Wyllys enviando meu apoio ao projeto do casamento igualitário. Se vocês pensam que hoje o racismo é violento e forte, certamente se espantaria muito com o mundo que vivi – especialmente décadas de 1940 e 1950. Fui expulsa de comércio, bares, festas, boites (ainda se usa esse termo?) simplesmente por minha cor. Não havia lei para me proteger: mesmo eu sempre pagando e nada recebendo por graça ou caridade, eu não era desejada em público. Até mesmo para me tornar professora foi difícil, afinal… onde já se viu uma preta a liderar alunos e salas de aula? Para a época isto era inconcebível.
Passei minha vida solteira, mas adotei uma filha. Tenho também dois netos e um bisneto. E como EU fui uma vítima direta do preconceito da sociedade, recuso-me em aceitar qualquer tipo de discriminação.
Em meu tempo consideravam gays e lésbicas como “seres aberrantes”, e eles viviam sendo presos por contravenção de vadiagem. Lembro-me ainda de, quando criança, uma travesti ser presa por “uso de nome suposto”, já que se apresentava com nome feminino e, no registro civil, era pertencente ao “gênero” masculino.
Justamente por ter vivido o que vivi, e o preconceito arruinado minha vida, é que eu luto contra qualquer discriminação. Penso que homofobia, lesbofobia e transfobia encontram-se na atualidade como o grande alvo do preconceito da sociedade.
Mas nós temos carne. Nisso somos radicalmente iguais. E nessa carne sentimos dores que, por vezes, penetram de maneira muito profunda – e infelizmente inesquecível – nas nossas almas.
Aos 80 anos irei à Parada Gay pela primeira vez na vida. Faço o que for preciso – e até um pouco mais, se necessário – para combater preconceitos. Gostaria que todxs aqui me tivessem como uma espécie de… amiga mais velha (muito mais velha, risos).”
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