LULA PRESO POLÍTICO

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quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

Adiós Coppélia, Viva o McDonald’s! Um drama cubano depois do fim do embargo econômico

 

Por Laura Capriglione, em seu blog


Mais de meio século depois de decretado, o embargo econômico dos Estados Unidos a Cuba está com os dias contados. Pela primeira vez, depois de décadas, concessões de ambos os lados permitiram o restabelecimento de relações diplomáticas entre os dois países, separados entre si por meros 100 km de mar.

Agora, cabe ao Congresso americano decidir se o bloqueio econômico, comercial e financeiroimposto à ilha pelos Estados Unidos em 7 de fevereiro de 1962 será levantado totalmente ou apenas amenizado. Mas ninguém põe nem uma ficha sequer na manutenção do embargo tal como ele existe. Mesmo a hiper-anticastrista comunidade cubana exilada na Flórida já acha que a medida mais atrapalha do que ajuda.
É claro que a direita brasileira hidrófoba, démodée como ela só, aferrada aos velhos dogmas da Guerra Fria (enquanto defende o direito de malucos Bolsonaros ofenderem a dignidade das mulheres), só é capaz de ver no ato histórico a suposta rendição do Império Americano às idiossincrasias de uma ilha insignificante.
Não duvide se, em um dos atos contra Dilma, pela intervenção militar, aparecer uma turma pedindo o impeachment de Barack Obama. Por achar que Obama afrouxou o garrote em torno da ilha… Que ele mesmo é um frouxo… Oi?
Até já invocaram a blogueira anticomunista Yoanni Sánchez para protestar contra o fim anunciado do embargo. Para quem não se lembra, a viajada Yoanni Sánchez é aquela que, morando em Cuba, sempre denuncia o suposto totalitarismo cubano em suas idas e vindas internacionais.
A vida de Yoanni é tão “difícil” que, na volta à ilha, ela mora em um espaçoso apartamento estatal, onde dá entrevistas contra o governo. E ninguém mexe com ela, como eu mesma testemunhei… Pois bem, a sempre alerta Yoanni saiu a campo antes até do anúncio oficial do restabelecimento das relações diplomáticas EUA-Cuba, lamentando o que chamou de “vitória do castrismo”: “O castrismo venceu (…). No jogo da política, os totalitarismos sempre conseguem se impor sobre as democracias”, escreveu a blogueira dissidente no site “14 y medio”.
Sabe de nada, inocente!
É o velho mercado que venceu. O parque temático socialista (por acaso, vizinho da Flórida e da Disney) terá de passar por reformas drásticas. Talvez feche, provando mais uma vez que não é possível construir o socialismo num só parque temático.
Portanto, prepare-se já para zarpar, se quiser conhecer a Cuba que embalou os sonhos de boa parte da esquerda mundial. A aldeia irredutível que resistiu ao império todo poderoso mostra-se cansada da vida em isolamento. Os guerreiros envelheceram e o idílio utópico parece estar com os dias contados.
Prepare-se para o adeus provável aos imponentes e muito bem preservados Impalas e BelAirs bicolores dos anos 50 (motorizados com restos dos velhos automóveis Lada).
Serão substituídos por modernos carros que aguentam no máximo três anos sem problemas — obsolescência programada, afinal a roda da fortuna tem de girar.
Talvez nunca mais surja um país esquisito assim, que tem mais médico, poeta, músico, ator e físico nuclear do que agricultor, feirante ou excluído. Em que a saúde pública e gratuita é um direito de verdade. Que obteve os melhores resultados escolares em Linguagem, Matemática e Ciências Naturais nas provas organizadas em nível latino-americano pela Unesco.
Isso será corrigido com urgência.
Também deve ter fim aquela cantoria desnecessária de um povo que insiste em agir como se todos fossem sócios do Buena Vista Social Club.
Haverá iPhones e iPods para todos. E videogames, para liquidar essa mania extemporânea que os meninos cubanos tem pelos campeonatos de xadrez nas praças do país…
E o que dizer daquele programinha antiquado de todas as tardes em Havana? Aquele, que leva centenas a fazer filas para tomar um helado na Sorveteria Coppélia (nome de um balé clássico), pernas de bailarina gordinha à guisa de logotipo, que fica em um prédio de corte modernista com lindos vitrais coloridos.
A Coppélia provavelmente será comprada pelo McDonald’s.
Estará decretada a morte da TuCola, a “Tua Cola”, contrafação de Coca ou Pepsi. Confesso que achei a TuCola uma delícia.
Mas, agora, a tendência é a vitória das originais!
Cuba é desses lugares de sonho. Fascinou o menino Federico “verde que te quiero verde” García Lorca (1898-1936), que colecionava as tampas das caixas de charutos cubanos que chegavam a Granada, onde nasceu. As litogravuras coloridíssimas, carregadas de palmeiras, plantações, céus pintados de turquesa e medalhas de ouro faziam-no sonhar com uma Cuba distante e onírica.
Além disso, havia as famosas “habaneras”, o primeiro ritmo autenticamente cubano a ser exportado para a Europa (lembre-se da ópera Carmen, de Bizet) e que o garoto Lorca escutava nas vozes de uma tia e uma prima.
Cuba era a ilha do sol ardente, da sensualidade e do ritmo.
A essa iconografia, somou-se a do “realismo socialista”, revolução, Fidel, Ernest Hemingway e Che, com suas legiões de fãs espalhados pelo mundo todo.
Quais serão os próximos sonhos que a ilha irá embalar? É o povo cubano quem dirá. Se não virar Miami, a humanidade já estará no lucro.
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