LULA PRESO POLÍTICO

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terça-feira, 2 de dezembro de 2014

Como Murdoch tornou-se o inspirador da mídia brasileira


Encontrei no Contexto Livre

Por , via Jornal GGN 

Foi simbólica a entrega do Prêmio Emmy por Rupert Murdoch a Roberto Irineu Marinho - representando as Organizações Globo.

Em um período em que a Internet e as redes sociais jogaram os grupos de mídia globais no maior desafio da história, Murdoch tornou-se o modelo, o campeão branco a fornecer a fórmula da sobrevivência aos grupos de mídia de todo mundo, especialmente aos brasileiros.

Em algum período escondido na memória, o jornalismo brasileiro inspirou-se na sofisticação doNew Journalism de Tom Wolfe, Gay Talese e Norman Mailer; nas reportagens-verdade de Truman Capote; e até no jornalismo gonzo, do repórter vivendo os riscos relatados na reportagem.

Mas nenhum estilo influenciou mais do que o do australiano Rupert Murdoch.


Ele surgiu no rastro da globalização. Valeu-se do mercado de capitais, promoveu uma série de aquisições nos diversos continentes, adquiriu uma rede social, a 21st Century Fox e, através da News Corporation, jornais em diversos países.

Mas, principalmente, pavimentou sua escalada com um estilo jornalístico que remetia às origens dos "barões da mídia".



Ressuscitou o mais abjeto estilo da história, continuador de William Randolph Hearst e outros "barões da mídia"; que transformaram o jornalismo em uma máquina de assassinar reputações, em um instrumento rude, truculento de participação no jogo político, sem nenhuma sofisticação a não ser a exibição permanente da força bruta, o jorrar intermitente do esgoto.

Coube a Roberto Civita, presidente da Editora Abril, captar o novo movimento e importá-lo para o Brasil.

A partir de 2005, tornou-se o padrão dos grupos de mídia brasileiro, inaugurado pela revistaVeja, imitado pela Folha e disseminado por diversos comentaristas da Globo.

Da noite para o dia, o cenário jornalístico brasileiro ficou coalhado de imitações de personagens funambulescos, tentando emular o estilo grosseiro da Fox.

O início do estilo Murdoch

O modelo Murdoch consiste nas seguintes características:

1. Buscar na extrema direita - no caso o Tea Party - o linguajar chulo e agressivo e o compêndio de preconceitos. Usa o preconceito como recurso jornalístico para conquistar a classe média.

2. Criar um inimigo externo, não mais a União Soviética, mas um novo fantasma. No caso, o Islã; por aqui, a Bolívia ou Venezuela.

Assim como a ultradireita brasileira, o Tea Party criou toda uma mitologia em torno da ameaça histórica do islamismo sobre a civilização cristã ocidental.


Não há mais o receio das bombas da Guerra Fria, mas de outros fantasmas imemoriais, as ideias que penetram subliminarmente no cérebro dos incautos levando-os para o reino das trevas.

Como diz Arnaldo Jabor, o comunismo explodiu e disseminou milhares de vírus pelo mundo todo, contaminando a cabeça de todos os democratas.

Essa versão dramatizada da “Guerra dos Mundos”, do “Monstro da Lagoa Negra”, da propaganda subliminar – consagrada no auge da Guerra Fria - acabou se constituindo no roteiro geral do grupo Fox e de seus emuladores brasileiros.

3. Valer-se do conceito de liberdade de imprensa para se blindar e promover uma ampla ofensiva de assassinatos de reputação contra adversários: jornalistas de outros veículos, políticos, empresários e intelectuais. E, por trás do macarthismo, montar jogadas comerciais de interesse do grupo.

4. Promover a ridicularização do cidadão comum – e dos críticos e adversários -, como maneira de ressaltar a superioridade intelectual do seu leitor.

O fenômeno Fox


O ponto central da disseminação desse modelo foi a Fox News.

Lançada em 1996, a  emissora conquistou uma audiência diária de 2 milhões de telespectadores, mais do que a soma da CNN e da MSNBC. Contratou diversos pré-candidatos republicanos à presidência, promoveu o Tea Party, contribuiu financeiramente com o Partido Republicano e grupos de ultra-direita  e foi relevante para a vitória republicana em 2010.

Disseminou teorias conspiratórias, falseou informações, espalhou boatos - como a de que Barack Obama era terrorista, ou que teria estudado em uma escola islâmica.

Em 2008, tentou ligar Obama com Bill Ayers - terrorista americano da década de 70, e a Louis Farraknan (líder da Nação islâmica nos EUA).

Memorando interno do grupo recomendava aos repórteres enfatizar que no livro “Sonhos de meu pai”, Obama divulgava ideias simpáticas ao marxismo.

Um e-mail que chegou a outros veículos de mídia explicitava melhor o espírito Murdoch. Ordenava aos repórteres que "evitem dizer que o planeta aqueceu (ou resfriou) em qualquer frase sem apontar em seguida que tais teorias são baseadas em dados que críticos questionam".

Seis meses após a invasão do Iraque, 67% do seus telespectadores acreditavam que Sadam Hussein tinha se associado à al-Qaeda, e 60% juravam que a maior parte dos cientistas garantia que não havia aquecimento global.

Políticos e jornalistas que ousassem criticar a Fox News tornavam-se alvos de seus ataques.

Apenas um jornalista ousou se erguer contra aquela máquina de assassinar reputações, Jon Stewart que, em seu "Daily Show", ironizava a paranoia da rede.

O restante dos jornalistas amarelou - da mesma maneira que no Brasil – mesmo sabendo que aquele estilo contaminava a todos indistintamente. E o principal fator foi o medo de ser emboscado por uma equipe de filmagem, atacado nos shows de televisão, ou ser acusado de esquerdista.

Mesmo após a vitória de Obama, a Fox continuou espalhando seu terror. Durante o debate sobre o aumento do teto da dívida pública, foi a Fox quem estimulou, através de seus comentaristas em rádio e televisão, o extremismo de muitos republicanos no Congresso (leia aqui reportagem de Michael Massing para The New York Review).

O tabloide News of The World

O escândalo maior foi com o tabloide News of The World, até então o jornal mais vendido aos domingos no Reino Unido.

Em 2005 foi alvo de uma série de denúncias, de contratar detetives particulares e policiais para grampear celebridades e membros da realeza.

Algum tempo depois, The Guardian denunciou o jornal por ter grampeado os atores Jude Law e Gwyneth Paltrow.

O auge do escândalo foi a descoberta de que chegou a grampear o celular da menina Milly Dowler, de 13 anos, sequestrada e morta. Na tragédia do atentado ao metrô de Londres, em 2005, o jornal interceptou mensagens dos celulares dos parentes.

Os abusos reiterados levaram à prisão do editor do jornal, Clive Goodman, e o detetive particular Glen Mulcaire. E ele nem chegou à ousadia da revista Veja, que se associou a uma organização criminosa – Carlinhos Cachoeira –, praticou grampos ilegais, manipulou notícias envolvendo no próprio STF (Supremo Tribunal Federal), sem ser incomodada pelo Ministério Público Federal e outros órgãos de controle.

Entre Pulitzer e Hearst

Na origem do moderno jornalismo empresarial, há duas figuras centrais, Joseph Pulitzer e William Randolph Hearst.

Pulitzer foi autor de máximas:

* “Para se tornar influente, um jornal tem que ter convicções, tem que algumas vezes corajosamente ir contra a opinião do público do qual ele depende”.

“Acima do conhecimento, acima das notícias, acima da inteligência, o coração e a alma do jornal reside em sua coragem, em sua integridade, sua humanidade, sua simpatia pelos oprimidos, sua independência, sua devoção ao bem estar público, sua ansiedade em servir à sociedade”.

E a mais conhecida delas:

“Com o tempo, uma imprensa cínica, mercenária, demagógica e corrupta formará um público tão vil como ela mesma”,

No lado oposto, Hearst e sua “imprensa marrom”, derrubando de vez os limites entre os fatos e a ficção. Os repórteres saiam das redações com a incumbência de trazer fatos que se adaptassem à pauta pré-definida. Se não encontrassem, que inventassem.

Nos anos 40, o império Hearst juntava 25 jornais diários, 24 revistas semanais, 12 estações de radio, 2 serviços de noticias mundiais, um serviço de notícias para filme.

Em 1948 colocou o pé na televisão, adquirindo a WBAL-TV em Baltimore, uma das primeiras emissoras dos EUA. Foi peça central no macarthismo que, nos anos 50, envergonhou o mundo civilizado.

Entre Pulitzer e Hearst-Murdoch, a mídia brasileira fez a sua escolha, jogou os escrúpulos às favas e caiu de cabeça no velho estilo que renascia do lixo da história. Abriu mão de qualquer veleidade de legitimar sua atuação, de justificar a liberdade de que dispõe, ou as concessões que recebeu.

Conservadores até a medula, Ruy Mesquita e seu irmão Júlio tinham rasgos de grandeza e a preocupação permanente em legitimar a atividade jornalística. No dia em que Fernão Mesquita, herdeiro dos Mesquita, colocou Roberto Civita no mesmo nível que seu pai, Ruy Mesquita, estava claro que a perda de rumo havia sido total.

E foram esses abusos, disseminados por vários países, em um momento em que as redes sociais davam voz a todos os setores, que transformaram a regulação da mídia em bandeira universal de direitos humanos.

Ontem, no Rio de Janeiro, a Comissão Estadual da Verdade discutiu uma série de recomendações para a ampliação da liberdade de expressão.

No mesmo dia, em Marrakech, o Fórum Social Mundial alçou o direito à informação ao mesmo patamar dos demais direitos fundamentais: à vida, à liberdade, à saúde e à educação.

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