LULA PRESO POLÍTICO

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segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

Obama e as torturas da CIA

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Por Luiz Eça, via Olhar o Mundo
Com a publicação do relatório da comissão do Senado sobre as torturas da CIA, houve quem esperasse que os culpados fossem punidos.
Alguns lembravam certas declarações de Barack Obama nas eleições primárias do Partido Democrata, em 2008: “Se eu descobrir que altas autoridades intencional e conscientemente quebraram leis existentes, engajando-se na cobertura desses crimes (de tortura), então eu penso que  um princípio básico da constituição é que ninguém está acima da lei.”
Embora de modo um tanto complicado, Obama não estava deixando dúvidas: se eleito, caso alguém tivesse torturado no governo Bush iria passar mal com ele.
Parece que não vai acontecer nada disso.
Logo no começo do seu primeiro mandato, Obama já disse que era melhor esquecer o passado.
Mas os grupos de direitos humanos não foram nessa: mesmo em 2009, fizeram denúncias envolvendo 101 casos. E as levaram a um membro do governo Obama, o secretário de Justiça, Eric Holder, que ordenou uma investigação pelo Departamento de Justiça.
Depois de três anos concluiu-se que as acusações não seriam levadas adiante.
E o Departamento de Justiça explicou: ”Nossa investigação foi limitada a determinar (apenas) se foram cometidos crimes suscetíveis de processamento…”
E mais, o  Departamento de Justiça explicou, sua investigação não objetivava levantar fatos sobre os autores das acusações examinadas.
É exatamente o que já estava fazendo a Comissão  de Inteligência do Senado.
Estaria contando com o apoio do presidente Obama?
Pelo contrário, segundo seu secretário de Defesa na época, Leon Panetta.
Em seu livro de memórias, Worthy Fights, Panetta conta que depois de ter topado colaborar com a Comissão de Inteligência foi convocado para uma reunião no Situation Room, com o primeiro chefe do staff do presidente Obama, Rahm Emanuel, que lhe disse: “O presidente quer saber quem c… autorizou você a falar isso ao comitê.” E Rahm, dando um soco na mesa, continuou: “Tenho um presidente com o cabelo pegando fogo e eu quero saber que m…você fez para f…a coisa tão mal!”
Dá para perceber que, a essas alturas, Obama não estava muito interessado em associar seu governo a uma investigação sobre torturas da CIA.
A CIA, que agora era sua.
O que ele fez foi procurar ajudar esta benemérita instituição, procurando atenuar as fúrias dos senadores.
Quando ele recebeu o resumo do relatório para censurar fatos que devessem permanecer secretos por envolverem a segurança nacional, passou esse trabalho para a própria CIA, réu na questão.
Dali o texto voltou a Casa Branca e foi finalmente entregue à comissão.
Os senadores ficaram indignados com os cortes.
Parecia que teriam sido feitos em função dos interesses da CIA, não da segurança nacional.
Devidamente recusado pela Comissão de Inteligência (dá pára entender porque), o texto voltou a Obama com sérias solicitações de reexame.
Ele ordenou que Dennis McDonough, sucessor de Rahm, participasse de inúmeras reuniões com os membros da comissão, para negociar uma redação final que não deixasse os agentes secretos muito mal. Particularmente a figura do atual diretor da CIA, John Brenan, elemento importante da agência na era Bush, precisaria ser poupada.
Depois de muitos meses de discussões, um texto resumido de 500 páginas foi aprovado e publicado.
As entidades de direitos humanos lamentam que o relatório original, com cerca de seis mil páginas, permanecesse secreto. Conteria muitos fatos extremamente desagradáveis para o próprio Bush.
Há agora uma forte pressão por parte de políticos e das organizações de direitos humanos para que Obama dê o passo seguinte: demitir John Brenan e os principais responsáveis pelas torturas da CIA, além de levá-los às barras da justiça.
Podem esquecer.
Na sua primeira entrevista após a divulgação do relatório senatorial, à Telemundo, Obama preocupou-se mais em defender os torturadores, pedir compreensão por sua situação diante do contexto da época.
“Ninguém poderia entender completamente o que era ser responsável pela segurança do povo americano depois do pior ataque em solo americano (às Torres Gêmeas). Quando nações eram ameaçadas, freqüentemente eles (os agentes da CIA) agiram com racionalidade através de modos que, olhando para trás, eram errados.”
Portanto, vamos esquecer as maldades da CIA e de seus agentes.
Limpar a agência dos torturadores e daqueles que deram as ordens ou mesmo cobriram suas ações não é para Obama.
Seria arriscado demais.
Ele quer a CIA viva e motivada, atuando através de suas centenas (talvez milhares) de agentes na defesa do projeto imperial americano.
É prerciso também levar em conta a forte a influência da comunidade de segurança sobre a Casa Branca.
Não quer dizer que a revelação do pacote de maldades da CIA dos tempos de Bush não teve efeitos positivos.
A imagem da agência nos EUA desceu a ladeira.
E o povo americano percebeu que seu país não era tão excepcional quanto Obama e outros líderes políticos garantiam.
O choque de realidade é sempre benéfico.
No resto do mundo, a divulgação do relatório estimulou investigações semelhantes em vários países que colaboraram com o programa de “rendições extraordinárias” da CIA.
E agora, sob nova direção, se dispõem a punir os responsáveis.
Além disso, graças às novas leis que permitem o processo de pessoas culpadas de crimes em outros países, os rapazes da CIA poderão ter problemas no exterior.
Gozar férias em Paris, Londres ou Roma talvez lhes renda desagradáveis processos criminais.
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