LULA PRESO POLÍTICO

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segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

Voz dissonante no partido, Tarso defende uma guinada à esquerda

Tarso Genro e Lula, em novembro. / RICARDO STUCKERT/INSTITUTO LULA

Visto como uma voz dissonante no Partido dos Trabalhadores, o ex-ministro da Educação e da Justiça Tarso Genro é daqueles políticos que não teme dizer o que pensa. Derrotado na tentativa de se reeleger governador no Rio Grande do Sul, ele, ao contrário da maioria da legenda, já defendeu refundar o PT. A proposta foi apresentada em 2006, após o escândalo do mensalão, mas foi refutada. Agora, ele quer que o partido se vire, de fato, à esquerda e rompa com o PMDB.
Em entrevista ao EL PAÍS, Genro disse que, sem um cargo eletivo, o que lhe resta é voltar à atuação partidária.
Pergunta. Como o PT deve agir neste segundo mandato da Dilma?
Resposta. Precisamos agora mudar de atitude. É a hora de desenvolver políticas públicas de maior coesão social e de redução drástica das desigualdades sociais do país. O que mais emperra hoje o desenvolvimento do país é o bloqueio da desigualdade.
P. E no Congresso, na vida política, como seria?
R. O PT precisa ser um partido de sustentação permanente da presidenta Dilma [Rousseff] nos termos do programa que ela vai cumprir e dos programas que ela vai fazer, mas tem de se preparar para ser um partido proponente para um próximo período, já pensando nas mudanças que a economia, as relações de trabalho, os processos de produção, a restruturação das sociedades de classe do Brasil vai exigir para os próximos anos até 2018. Isso significa que o partido tem de mudar sua agenda. Tem de ser construção de um modelo não só inclusivo, mas de redução das desigualdades sociais.
P. E essas proposições já não ocorreram?
R. Nesses três governos [dois de Lula e um de Dilma] agiu corretamente. Foi um partido fiador das decisões presidenciais que apontavam para um modelo de desenvolvimento econômico, que efetivamente ocorreu. O que eu digo é que só isso é insuficiente para um próximo período. Temos de ter intervenção política na sociedade. E isso exige uma agenda muito clara, uma proposta clara de uma reforma tributária e de taxação das grandes fortunas, tem que desenhar com as forças aliadas num centro progressista de esquerda uma profunda reforma política e valorizar a participação da sociedade na elaboração de políticas públicas. E isso não se trata de influência para tirar poder do parlamento, pelo contrário.
P. Mas o Congresso Nacional não pensa assim.
R. O Congresso não pensava assim também quando fundamos o Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social. Depois compreendeu, rapidamente, que esse era um instrumento de elaboração de políticas públicas que seriam decididas pelo próprio Congresso. Como foi com o Prouni, que nasceu no conselho. Precisamos de mais democracia, mais participação, de reforma política e tributária para a redução da desigualdade social do país. É um novo ciclo político que o PT tem de compreender. Se ele não mudar sua agenda externa, os debates internos serão só de opiniões setoriais, até certo ponto processadas burocraticamente.
P. Como dialogar melhor com uma base de sustentação com partidos rachados, como por exemplo, o PMDB?
R. Essa é uma questão que está no centro da reforma política. O PMDB é um partido fundamental no país depois da abertura democrática e todo mundo governou com ele. Mas o PMDB está perdendo gradativamente sua autoridade política por conta da fragmentação que ele tem e pela forma que ele opera a sustentação dos governos, qualquer governo. O Partido dos Trabalhadores tem de procurar aliados parciais em bancadas do centro progressista e de esquerda e se preparar para que não dependa do PMDB para um novo governo de esquerda governar a partir de 2018.
P. E esse novo governo de esquerda poderia ser encabeçado por um candidato que não fosse do PT?
R. Sim, poderia ser. Acho que tem de ser constituído um programa com coesão política forte, que traga as legendas do campo da esquerda e aí se decide quem é o melhor candidato. Obviamente que se o presidente Lula quiser ser o candidato, vamos apresentar o nome dele. Se não, vamos buscar nas formações políticas  o melhor nome para manter o Brasil na democracia social, nas transformações necessárias do modelo econômico que já deram resultados positivos.
P. Por que a política nacional está tão carente de novos líderes?
R. Há uma degradação do projeto democrático brasileiro pela verdadeira estafa a que está submetida a esfera da política. O atraso do sistema político brasileiro, pelo financiamento empresarial da campanha, pelo afastamento dos partidos dos movimentos sociais. Esse sistema político que está aí vitimiza os partidos e as lideranças. Ele mantém uma estabilidade ancorada no passado. Acho que temos de buscar uma estabilidade ancorada no futuro. Qual é o momento de maior virtuosidade dos partidos? É nas eleições. E as eleições são um festival de mídia, que encarece campanhas, estabelece dependências e muitas vezes, por causa da estética das campanhas eleitorais, os candidatos têm seu conteúdo escondido. Esse sistema político está vencido.
P. O senhor é a favor do financiamento público das campanhas?
R. Sou a favor do financiamento combinado. Pode haver o público e o pago por pessoas físicas, com um limite bem baixo, para que se possa ser bastante controlado.
P. Qual liderança do PT é capaz de unir o partido hoje?
R. O Lula, o Fernando Haddad, o Aloizio Mercadante, o Jacques Wagner, o Fernando Pimentel, que têm muita expressão política no nosso partido. Ainda acho que o Lula é a mais credenciada.
P. Qual o destino de sua carreira política?
R. Eu nunca fiz carreira política. Eu sempre concorri a eleições de maneira intermitente. A minha vocação não é mais concorrer a eleições. Não excluo a possibilidade, mas o que eu quero é voltar para a direção nacional do partido e me articular na sociedade civil para promover as reformas que mencionei.
P. Se fosse convidado, voltaria ao Governo Dilma?
R. Não volto. Acho que nem devo voltar. Sou um governador que foi derrotado nas eleições e tenho de saber o tamanho da minha manguinha.
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