LULA PRESO POLÍTICO

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quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

Alimentar-se, ato desumano?

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Há algo muito errado com sociedades incapazes de enxergar como se produz sua comida. Existem alternativas — inclusive para não-vegetarianos…

Por George Monbiot | Tradução: Inês Castilho
O que dizer de uma sociedade cuja produção de alimentos precisa ser ocultada das vistas do público? Em que as fazendas industriais e matadouros que abastecem o grosso da nossa dieta precisam ser vigiados como arsenais, para evitar que vejamos o que acontece ali?
Somos cúmplices dessa ocultação: não queremos enxergar. Nós nos enganamos tão efetivamente que, na maior parte do tempo, quase nem notamos que estamos comendo animais — mesmo durante aquelas que já foram festas raras, tais como Natal, e que agora mal se distinguem do resto do ano.
A começar pelas histórias que contamos. Muitos livros escritos para crianças bem pequenas são sobre fazendas; mas esses lugares alegres, em que os animais andam livremente como se pertencessem à família do fazendeiro, não guardam qualquer relação com a realidade da produção. As fazendas meigas que mostramos a nossas crianças são reificações dessa fantasia. Este é apenas um exemplo de esterilização da infância, em que nenhum dos três porquinhos é comido e João faz as pazes com o gigante — mas isso tem consequências.
A rotulagem reforça o engano. Como Philip Lymbery aponta em seu livro Farmageddon(1), na União Europeia o método de produção deve ser informado nas caixas de ovos — mas não há tais exigências com a carne e o leite. Rótulos sem sentido como “natural” e “direto da fazenda”; e símbolos sem valor, como um pequeno trator vermelho, nos distraem da realidade da criação intensiva de frangos e porcos para corte. Talvez o desvio mais flagrante seja: “alimentado com milho”. Pois a maioria das galinhas e perus come milho, e isso é uma coisa ruim – não boa.
A velocidade da criação de frangos de corte quadruplicou, em 50 anos: eles agora são mortos com sete semanas (2). Frequentemente estão, a esta altura, aleijados por seu próprio peso. Animais selecionados pela obesidade causam obesidade. Criadas para inchar, mal podendo se mover, superalimentadas, as galinhas de viveiros industriais, contêm hoje quase três vezes mais gordura que as galinhas em 1970, e apenas dois terços da proteína (3). Porcos parados e gado confinado passaram por transformação semelhante. Produção de carne? Não, isso é produção de gordura.
Manter animais insalubres em currais lotados requer montes de antibióticos. Essas drogas também promovem o crescimento – um uso que continua legal nos Estados Unidos e é generalizado na União Europeia [e no Brasil], sob o disfarce de controle sanitário. Em 1953, observa Lymbery, parlamentares alertaram a Câmara dos Comuns do Reino Unido de que isso poderia levar ao surgimento de doenças resistentes a agentes patogênicos. (4) Foram abafados por risadas. Mas estavam certos.
Esse sistema é também devastador para a terra e o mar. Animais de fazendas industriais consomem um terço da produção global de cereais, 90% do farelo de soja e 30% dos peixes capturados. Se os grãos que hoje alimentam animais fossem destinados, em vez disso, às pessoas, mais 1,3 bilhão de indivíduos poderiam ser alimentados. (5) Carne para os ricos significa fome para os pobres.
O que sai é tão ruim quanto o que entra. O estrume das fazendas industriais é espalhado ostensivamente como adubo, muitas vezes em volumes superiores aos que as culturas podem absorver: terra arável é usada como entulho. Cria barragens em rios e no mar, gerando zonas mortas com centenas de quilômetros de largura, às vezes (6). As praias de Brittany (no Noroeste da França), relata Lymbery, onde há 14 milhões de porcos, têm sido sufocadas por tantas algas – cujo crescimento é promovido pelo esterco – que tiveram de ser fechadas pelo risco letal: um trabalhador morreu ao raspá-las ao largo da costa, aparentemente de intoxicação por ácido sulfídrico, causado pelo apodrecimento da planta.
É loucura, e não se prevê um fim para isso. A demanda global por carne deve subir 70% até 2050 (7).
Há quatro anos, relativizei minha posição sobre comer carne (8), após a leitura do livro de Simon Fairlie, Meat: a benign extravagance [“Carne, extravagância benigna”] (9). Fairlie apontava que cerca de metade do estoque global de carne não causa nenhum prejuízo para a nutrição humana. Na verdade ela oferece um ganho líquido, por ser de animais que comem grama e resíduos de culturas que as pessoas não podem consumir.
Desde então, duas coisas me persuadiram de que mudar de ideia foi um erro. A primeira é que meu artigo foi usado por fazendeiros industriais para justificar suas práticas monstruosas. As distinções sutis que Fairlie e eu tentamos fazer mostraram-se vulneráveis ao mau entendimento. A segunda é que, no trabalho de pesquisa para um de meus livros, Feral, pude ver que nossa percepção sobre a cadeia alternativa da carne também foi higienizada. (10) As colinas da Grã-Bretanha foram privadas de suas criações de ovelhas. Despojadas de sua vegetação, esvaziadas de animais selvagens, desprovidas da sua capacidade de reter água e carvão; tudo por causa de uma produtividade insignificante. Difícil pensar em qualquer outra indústria, exceto a dragagem de moluscos, com maior proporção de destruição para a produção. Perdulária e destrutiva como a alimentação de grãos para o gado, a pecuária pode ser ainda pior. A carne é má notícia, em quase todas as circunstâncias.
Por que então não paramos? Porque não sabemos, e ainda que saibamos achamos difícil. Estudo do Humane Research Council descobriu que apenas 2% dos norte-americanos são vegetarianos ou veganos (11) e mais da metade desiste no primeiro ano. Mais cedo ou mais tarde, 84% desistem. Uma das razões principais, revela o estudo, é que as pessoas necessitam encaixar-se. Podemos saber que está errado, mas bloqueamos nossos ouvidos e seguimos em frente.
Acredito que um dia a carne artificial poderá tornar-se viável comercialmente (12), e as normas sociais mudarão. Quanto tornar-se possível comer carne sem matar, criar gado para abate será visto como algo inaceitável. Mas para isso, ainda há um longo caminho. Até lá, talvez a melhor estratégia seja encorajar as pessoas a comer como nossos ancestrais. Ao invés de consumir carne a cada refeição, desmesuradamente, poderíamos pensar nela como uma dádiva extraordinária, não um direito. Podíamos reservar a carne para algumas ocasiões especiais, como o Natal, ou comê-la não mais que uma vez por mês.
Todas as crianças deveriam ser levadas por suas escolas a visitar uma criação industrial de porcos ou frangos; e um matadouro, onde deveriam poder testemunhar cada fase do abate e do corte. Acha essa sugestão revoltante? Se acha, pergunte a si mesmo qual é sua objeção: a escolha informada ou o que ela revela? Se não toleramos enxergar o que comemos, o que está errado não é o fato — é o de comer.
Referências
1. Philip Lymbery e Isabel Oakeshott, 2014. Farmageddon: the true cost of cheap meat. Bloomsbury, Londres.
2. Idem
3. Idem
4. http://hansard.millbanksystems.com/commons/1953/may/13/therapeutic-substances-prevention-of
5. Simon Fairlie, 2010. Meat: a Benign Extravagance. Permanent Publications, Hampshire.
6. http://water.epa.gov/type/watersheds/named/msbasin/zone.cfm
7. http://www.fao.org/livestock-environment/en/
8. http://www.monbiot.com/2010/09/07/strong-meat/
9. Simon Fairlie, 2010. Meat: a Benign Extravagance. Permanent Publications, Hampshire.
10. George Monbiot, 2013. Feral: searching for enchantment on the frontiers of rewilding. Allen Lane, London.
11. http://spot.humaneresearch.org/content/how-many-former-vegetarians-are-there
12. http://www.popsci.com/article/science/can-artificial-meat-save-world
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