LULA PRESO POLÍTICO

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sábado, 10 de janeiro de 2015

KOBANÊ É A STALINGRADO DOS CURDOS

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Por Bruno Lima Rocha*, via Jornalismo B
Durante o fatídico ano de 1982, na segunda invasão das Forças de “Defesa” de Israel ao Líbano, foi cunhado um lema que marcou a revolução palestina e o pan-arabismo. Na Beirute Ocidental sitiada por forças israelenses aliadas das falanges cristãs (Kataeb e Tigres de Gemayel), na zona controlada pela Frente Palestino-Muçulmana-Progressista, as paredes diziam: “Beirute é a Stalingrado dos árabes”. Em 2014, a cidade de Kobanê, sitiada no território sírio pelas bem equipadas forças do Daesh (ou Estado Islâmico, ou ISIS), é a Stalingrado dos curdos, armênios, chechenos, alevis (uma versão de sufismo), yázidis, assírios, árabes (xiitas, sunitas e cristãos), além de turcos de esquerda e uma leva crescente de voluntários internacionais.
Esta cidade sofre também com a pressão das tropas da Turquia, governada pelo partido islâmico AKP, e um Estado a trabalhar pela derrubada do regime do clã Assad. O governo de Ankara está de fato permitindo o livre trânsito de jihadistas, boa parte destes oriundos de comunidades islamizadas de países europeus. Além do passaporte da União Europeia, uma leva considerável dos combatentes do integrismo sunita provém de países membros da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN). Nesta aliança militar, dentre os 28 países membros, apenas a Turquia é de maioria e religião oficial islâmica.
O Estado turco tem autonomia decisória, excedentes de poder e executa uma estratégica realista que leva a um temível jogo duplo. Publicamente, coordena com os EUA para formar uma coalizão contra o ISIS. No dia a dia da frente de combate, relutou em liberar seu território para os reforços de 150 pershmerga (leões do Curdistão, combatentes curdos leais ao Governo Regional Curdo em território iraquiano), que vindos do cantão de Cizîre (dupla fronteira com Iraque sob controle curdo e a Turquia), ajudaram a resistência de Kobanê. Nos bastidores, autoriza a passagem do terror islâmico para atacar as posições da esquerda pela retaguarda.
Duas são as facções islamistas combatendo a revolução curda. Uma é o ISIS, liderado pelo auto-proclamado califa Al-Baghdadi, uma organização religiosa-militar que conta no teatro de operações da Síria com mais de 18.000 combatentes provindos de mais de 90 países. É revoltante o papel da Turquia na luta contra Rojava. Outra é o braço oficial da Al-Qaeda na região, a Frente Al Nusra. Para Erdogan e seus correligionários, é preferível manobrar o terror sunita a tolerar a autonomia de Rojava e sua constituição pluriétnica e com experimentos de democracia direta e semidireta. Como o Exército Livre da Síria (FSA) assinou uma trégua com o YPG/YPJ (forças de autodefesa de Rojava), logo o antigo braço satélite de Ankara diminuiu sua capacidade de operar como satélite do gabinete de Erdogan. Assim, o islamismo moderado do AKP, tolerante com o Ocidente, pode reforçar o Islã integrista e totalitário do ISIS. Sua meta é combater a esquerda curda e seus aliados multiconfessionais.
*Professor de relações internacionais e de ciência política – estrategiaeanalise.com.br
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