LULA PRESO POLÍTICO

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sábado, 28 de fevereiro de 2015

O dia que a ditadura matou a Panair



Por Pedro Porfírio, em seu blog

No dia 10 de fevereiro de 1965, a ditadura militar cassou arbitrariamente a concessão da Panair, então a maior companhia aérea do Brasil, abrindo o caminho para a decretação da sua falência e sua dilapidação.

Para quem se empenhou de corpo e alma contra a destruição da VARIG, como eu, muito mais por sua corporação altamente preparada, lembrar a ignomínia que a ditadura militar perpetrou contra a Panair do Brasil, há exatos 50 anos, é mais do que um dever perante a história – é uma chamada à reflexão de todos os brasileiros, particularmente os profissionais da nossa aviação comercial sucateada.

Há que se registrar, a bem da verdade histórica, que são bem distintas as razões que levaram ao fim da concessão da Panair, em 1965,  então líder da aviação brasileira. Nesse gravíssimo crime de tantos outros daqueles idos abomináveis, foi o governo ditatorial que paralisou suas atividades por deliberada e ostensiva perseguição política. Isso por abuso típico de um regime que ainda tem imprudentes nostálgicos entre nós.

Seus principais acionistas e executivos faziam parte de um grupo de empresários progressistas, que atuavam em várias áreas, como a exportação de café, e à frente da mais charmosa estação de tv do país, a Excelsior, igualmente retirada do ar pela ditadura militar com as mesmas motivações.

A Panair era muito querida dos brasileiros pela qualidade dos serviços e uma identificação íntima com a nossa alma, mas a ditadura queria atingir seus executivos Celso da Rocha Miranda, Mario Wallace Simonsen e Paulo Sampaio. Por que entre todas que operavam em 1965, quando foi fechada "manu militari", era a que tinha melhor condição econômica e um grande prestígio internacional.

 No seu auge, na era dos modernos Constellation, dos Caravelle e dos jatos DC-8, ficou famoso o chamado “Padrão Panair”, visto como excelência em aviação, incluindo o atendimento a passageiros com talheres de prata e copos de cristais, no que foi seguida também pela VARIG, aliás, a grande beneficiária de sua desativação, juntamente com a Cruzeiro do Sul, esta sob a direção de Bento Ribeiro Dantas, um aliado incondicional da ditadura.

A companhia aérea foi ainda celebrada em canções, como a interpretada por Elis Regina em "Conversando no Bar" (Saudade dos Aviões da Panair), sucesso de Milton Nascimento e Fernando Brant (“A primeira Coca-Cola, foi, me lembro bem agora, nas asas da Panair...”). Ela também serviu de inspiração para o poema “Leilão do ar”, de Carlos Drummond de Andrade.

A Panair foi cassada pela ditadura e a aviação brasileira só não foi a pique então pelo elevado padrão de profissionalismo dos aeronautas e aeroviários, aos quais coube dar continuidade às suas linhas através da VARIG e da Cruzeiro do Sul, enquanto muitos dos seus colegas eram literalmente exilados em busca de outros ares. Mas estas também tiveram destinos trágicos, por motivos diferentes: no caso da VARIG, devido à incúria da Fundação Rubem Berta, formada por um grupo de funcionários, que a administrava de forma perdulária, e a própria crise mundial das aéreas desde o 11 de setembro de 2001. 

Mas nem por isso, embora não tivesse responsabilidade direta na sua falência, o governo Lula podia ter se omitido, até por que as associações de seus empregados tinham elaborado um plano que a manteria no ar com o mesmo padrão de segurança e conforto. Mas essa é outra história.

CLIQUE NA FOTO E VEJA O DOCUMENTÁRIO SOBRE A PANAIR
Se você tiver um tempinho, para entender o que de mais grave em matéria de perseguição política afetou a aviação comercial brasileira, vale a pena ver o documentário “Panair: uma história de amor com o Brasil”,do diretor e produtor Marco Altberg, acalentado durante 11 anos com a sua mulher, Maíza Figueira de Mello, neta de Celso da Rocha Miranda, o maior acionista da companhia quando foi fechada e dilapidada pelos militares.


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Leia também: 
Comissão da Verdade confirma que  Panair foi fechada por motivos políticos

Sem rodeios, a CNV confirma que a empresa — líder em seu setor entre as décadas de 1940 e 1960 — foi liquidada por motivos políticos e não financeiros, e que esse processo contou com a participação de agentes da União e instituições como o SNI (Serviço Nacional de Informações), beneficiando concorrentes.

“Alguns empresários não compactuaram com a conspiração e o golpe, defenderam a Constituição e foram perseguidos e punidos pelo regime ditatorial”, destaca o texto do relatório. “Um caso exemplar foi o de Mario Wallace Simonsen e Celso da Rocha Miranda, que juntos detinham o controle acionário da Panair do Brasil, a segunda maior empresa privada do país”. Mais adiante, a CNV aponta: “O estrangulamento econômico sofrido por Mario Wallace Simonsen e Celso da Rocha Miranda, mediante bem-urdidos Atos de Estado, é comprovado”.
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