LULA PRESO POLÍTICO

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sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

Timbuctu, de Abderrahmane Sissako - o grito de dor da África. O recado de Sissako em seu filme, que ganhou na última semana nada menos que sete prêmio Cesar, é um recado direto.

Reprodução


Por Léa Maria Aarão Reis, via Carta Maior

Dois filmes foram retirados de cartaz de cinemas da França, em janeiro passado, e tiveram, por algumas semanas, a carreira interrompida. Um deles, Timbuctu, ganhou na última semana nada menos que sete prêmios Cesar, o mais importante do cinema francês. Indicado para o Oscar de Melhor Estrangeiro e considerado pela crítica internacional um dos grandes filmes do ano. 

O segundo, L’Apôtre (O apóstolo),  saiu de cartaz há cerca de um mês, em Nantes. Os proprietários do cinema foram alertados pelo Ministério do Interior que, por causa do seu tema – a conversão de uma jovem muçulmana ao catolicismo - a história poderia ser vista como provocação religiosa e haver retaliações.

Na França, depois de retornar ao cartaz, o filme de Abderrahmane Sissako – produção da República Islâmica da Mauritânia, seu país de origem, de 2014 - foi visto por 730 mil espectadores. Em São Paulo vendeu mais de 8 000 ingressos em duas semanas.

Timbuctu, azarão para o Oscar de filme estrangeiro, concorreu com o excepcional argentino Relatos Selvagens e perdeu para o polonês Ida, filme católico hostil aos soviéticos, que potencializa a guerra contra a Rússia iniciada na Ucrânia pelos EUA. 

Em seu discurso, ao receber as sete estatuetas Cesar a que fez jus, o diretor Sissako lembrou: "não existe um choque de civilizações hoje; o que há é um reencontro de civilizações".

Mas a que preço.

O recado de Sissako em seu filme (com extraordinária fotografia de Sofian El Fani, o mesmo de Azul é a cor mais quente) é um recado direto. Ele o dá ao espectador no próprio título, Timbuctu. No passado remoto, a cidade fundada no ano mil, foi um nicho de tolerância e de harmoniosa convivência entre mercadores tuaregs, árabes muçulmanos e cristãos. 

Muito depois, nos anos 60, foi meca para hippies e turistas que visitavam, aos milhares, a fascinante cidade nas franjas do Saara, declarada pela Unesco Patrimônio da Humanidade em Perigo, em 1990. Tumbuktu vai sendo tragada pelas tempestades de areias do deserto trazidas pelo vento do harmattan que já destruíram muitas das suas estruturas históricas. 

No prólogo do filme, fundamentalistas islâmicos praticam tiro ao alvo em animais que correm livres pelas dunas e em preciosas estatuetas do Magreb e nas máscaras africanas milenares, estraçalhadas. É uma extensão, um corolário do recado do diretor Sissako: a África está morrendo.

"É um grito do coração", exalta o jornal The Guardian. Um grito do coração e um grito de dor lançado nos três idiomas da produção – berbere (tuareg), árabe e francês. 

Não há clichês nessa narrativa simples, calma, serena, que conta a devastação humana e cultural de uma comunidade na ex-colônia francesa, com a ocupação da nova ordem jihadista extremista a partir da guerra de Azawad, em 2012. 

A trama do filme se passa nesse ano. Nas redondezas de pequena cidade invadida e sitiada por extremistas religiosos, uma pequena família tuareg vive em paz, na sua tenda, entre as dunas. Mas sua vida é alterada quando um pescador mata uma de suas vacas. Ao tirar satisfação sobre o ocorrido, Kidane (ator Ibrahim Ahmed) acaba matando o pescador e se torna alvo do grupo fundamentalista.

Há diversos momentos extraordinários no filme. A sequência já famosa da comovente partida de futebol disputada pelas crianças, sem bola, porque entre as restrições da sharia o futebol é proibido. O grupo de jovens amigos reunidos em casa, à noite, para cantar e fazer música e que são penalizados brutalmente porque música também é proibido. O homem desafiador que reza a oração voltado na direção da sua família e não de Meca. A mulher que vende peixes no mercado e se recusa a usar luvas como ordena um fundamentalista. 

“Então, corte minhas mãos”, ela diz, lhe estendendo um facão. A menina e a mulher, num alto de duna, braço levantado, se esforçando para captar sinal para o seu celular e falar com Kidane que está preso na cidade.

“O Islã usa a cabeça e não as armas,” numa conversa, o imã da cidade procura ensinar o que é o islã aos ocupantes. “Onde está Allah em tudo isto que vocês fazem?”

Ai de ti, África. É como se Sissako parodiasse Rubem Braga no grito de dor da personagem da garota, no final do seu belíssimo filme. Continente explorado pelos antigos e pelos atuais colonizadores e tragado não pela areia, mas pelo caos, cobiça, miséria,  pelo sangue e terror religioso. 

Ai de ti, Tumbuktu. Que fim levará suas três fabulosas mesquitas de barro? A célebre universidade corânica de Sankoré, dos 50 mil sábios muçulmanos do século 16? E sua coleção de 20 mil manuscritos com um milênio de conhecimento científico árabe guardados no seu Instituto Ahmed Baba? Ai de ti é o que diz Sissako em Timbuctu.
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