LULA PRESO POLÍTICO

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sábado, 14 de março de 2015

«Dizia-se que os EUA são um Estado de um só partido (o Partido dos Negócios) com duas facções (Democratas e Republicanos)»

Noam Chomsky

Por Miguel Mora, via O Diario.info

Esta entrevista de Chomsky tem reflexões de muito interesse, em particular sobre os actuais EUA. Só é pena que o fundo anarquista do seu pensamento o leve a produzir apreciações sobre a União Soviética e sobre o socialismo que não estão à altura da postura progressista que em tantos outros campos tem manifestado ao longo da vida.

Caiu o nevão do século em Boston, o termómetro marca 15 abaixo de zero, os autocarros não circulam e os automóveis patinam. Às onze da manhã, como um relógio, o professor emérito Noam Chomsky, linguista e filósofo, de 86 anos, está já no seu posto, dando uma entrevista a um jornalista francês no seu gabinete do departamento de Linguística do Massachusetts Institute of Technology (MIT).

Estamos no lendário Stata Center, construído por Frank Gehry em aço e tijolo. A faculdade de Ciências da Informação, Inteligência e Informática está abarrotada de estudantes, com esmagadora maioria asiática. No oitavo piso, junto a um ascensor, a guarida de Chomsky e seus sequazes cheira a café acabado de fazer, e respira-se calma e camaradagem.

Num gabinete contiguo ao de Chomsky está o nonagenário Morris Halle, um diminuto barbudo de olhos vivos, com o casaco cheio de migalhas e pinta de ter compartilhado vodka e revoluções com Bakunine. The New Yorker comparou o par de linguistas com Dante e Virgílio, com Sherlock Holmes e Watson. Halle, um linguista egrégio, foi quem trouxe Chomsky para o MIT em 1955, quando ninguém se atrevia a contratar a aquele jovem judeu, brilhante e colérico recém-doutorado em Harvard. Em 1968, os dois escreveram a quatro mãos o livro mais importante da historia da Linguística, The Sound Pattern of English, que fez pela fonologia – o estudo do som das palavras - o que Chomsky tinha feito antes – aos 29 anos - pela sintaxe: deu-lhe forma e converteu-a numa ciência.

Outro personagem chave na vida de Chomsky é a sua secretaria, Bev Stohl, uma mulher encantadora que em aparte troça dos veneráveis mestres: “Aí os tens, entre os dois somam mais de 200 anos”. O gabinete de Chomsky, forrado de livros sobre anarquia, guerra, historia e linguística, é luminoso e amplo, é presidido por duas grandes fotos de Bertrand Russell, ídolo e referência do pensador ateu e pacifista. Chomsky vem receber o segundo entrevistador do dia com atitude afável e sorridente. Nota-se de imediato que perdeu energia e ouvido e que tem a voz velada. Mas escutá-lo continua sendo uma experiência: depois de abraçar todas as causas justas e perdidas, o velho açoite do imperialismo ianque continua a ser um Quixote incurável e um analista implacável. Guarda memória prodigiosa de datas, factos, livros e discursos, não perde nunca o fio à meada e mantém a cabeça clara, ágil e potente.

Para além de dar as suas aulas, escrever os seus artigos e atender os seus alunos, Chomsky profere conferências por toda a parte para onde é convidado –“tenho a agenda cheia até 2016”, diz – e responde pessoalmente às dezenas de mensagens e cartas que recebe cada dia. Segundo a sua secretaria, “o homem nunca diz que não, simplesmente não sabe fazê-lo”. A prova chega no final dos 45 minutos de entrevista, quando o jornalista o convida a ser presidente de honra do comité editorial de CTXT. Chomsky responde: “Bom, não participo em comités… ¡Mas se é honorário, poderia!”.

- Vejo-o sorridente. ¿Todavia encontra razões para ser optimista?
-Bom, algumas há. Embora não faltem igualmente para ser pessimista. A Humanidade terá que decidir, e não tardará muito, se quer sobreviver ou esquecer duas enormes e iminentes ameaças: uma é as catástrofes meio-ambientais, a outra é a guerra nuclear. O Boletín dos Cientistas Atómicos, que foi o principal monitor de questões nucleares e estratégicas durante muitos anos, publica um famoso relógio do “Juízo Final”. Determina a distância a que os ponteiros do relógio deveriam estar da meia-noite. E acabam de o adiantar para três minutos do final. É o mais próximo que estivemos desde a Crise dos Mísseis de Cuba. A ameaça nuclear continua a aumentar; sempre foi significativa, e é quase um milagre que lhe tenhamos escapado. Neste momento, os EUA estão dedicando um milhar de milhões de dólares a modernizar e actualizar o seu arsenal nuclear. O Tratado de Não Proliferação Nuclear obriga-nos a comprometer-nos a eliminar estas armas, a dar sinal de querer eliminá-las. Não há nada disso. A Rússia prossegue a sua corrida, e algumas potências menores também.


- Mas quase ninguém fala disso.
- Não se fala muito, salvo alguns analistas estratégicos, peritos económicos e outras pessoas preocupadas com estas questões. Mas há ameaças muito sérias. Uma é o conflito na Ucrânia. Pode confiar-se em que as potencias se conterão, mas olhando para os antecedentes não é em absoluto seguro que tal suceda. Apenas um exemplo: a princípios dos anos 80, a Administração Reagan decidiu sondar as defesas russas. De modo que simularam ataques por terra e ar, incluindo armas nucleares. Não disseram aos russos o que estavam a fazer porque queriam provocar não um simulacro mas um alerta real. Foi um momento de extrema tensão. Reagan acabava de anunciar iniciativas estratégicas de defesa como a guerra das estrelas, mas os analistas de ambos os grupos interpretaram-na como uma arma de primeiro ataque. Não é um míssil defensivo, se em algum momento chega a funcionar, mas uma garantia para lançar o primeiro ataque. Agora, conforme os arquivos russos vão sendo tornados públicos, a Inteligência dos EUA reconheceu que a ameaça foi extremadamente séria. De facto, um relatório recente assegura que a guerra esteve prestes a rebentar.


- De modo que estamos vivos por milagre.
- Regresso à sua pergunta inicial… ¿Optimismo? É sempre a mesma história. Não importa como julgues o que se está a passar no mundo, tens sempre, basicamente, duas opções. Podes decidir ser pessimista, dizer que não há esperança e abandonar qualquer esforço, em cujo caso contribuis para assegurar que suceda o pior. Ou podes agarrar-te a qualquer esperança – há sempre alguma – e tentar fazer o que possas – e talvez assim sejas capaz de evitar um desastre ou, inclusivamente, de abrir caminho a um mundo melhor.


- Mudou a linguística quando tinha 29 anos, e depois disso tentou mudar o mundo. E assim continua. Imagino que o segundo tenha sido mais duro do que o primeiro. ¿Valeu a pena?
-¡Mudar a linguística também foi bastante duro! Tem um pouco de ciência, aspectos de filosofia contemporânea… Creio que estive no lado adequado, embora faça parte de uma pequena minoria.


-¿E diria que o balanço foi positivo?
- Houve êxitos, não só meus, mas da oposição popular à violência, à guerra, à desigualdade. O movimento pelos direitos civis – em que não fui uma figura de referência mas em que estive envolvido, como tantos outros –, conseguiu objectivos significativos, ainda que não todos os que se colocava, nem nada que se pareça. Se dermos ouvidos à retórica oficial, a luta de Martin Luther King acaba em 1963 com o seu famoso discurso Eu tenho um sonho, que levou à legislação dos direitos civis e a uma melhoria significativa dos direitos de voto e de outros direitos no Sul. Mas King não se deteve nesse ponto. Continuou lutando contra o racismo do Norte, e tentou também gerar um movimento pelos pobres, não apenas negros, mas os pobres em geral. King foi assassinado em Memphis (Tennessee) quando dava apoio a uma greve de funcionários. Depois disso, a sua mulher, sua viúva, liderou a Marcha pelo Sul, por todas as zonas onde tinha havido distúrbios, chegou a Washington e montou um acampamento, Resurrection City. Aquele era o Congresso mais liberal da história: permitiram-lhes ficar algum tempo, e depois mandaram de noite a policia, destruíram o acampamento e desalojaram toda a gente. Foi esse o final do movimento para conter a pobreza. Hoje sabemos que grande parte do problema não foi erradicado.


- A Europa vive também o período mais sombrio dos últimos 50 anos.
- Houve melhorias importantes, mas depararam com uma barreira. E essa barreira piorou com o assalto neoliberal contra a população mundial, que começou em finais dos anos 70 e acelerou com Reagan e Thatcher. A Europa é hoje uma das maiores vítimas dessas políticas económicas de loucos, que somam austeridade à recessão. Até o FMI diz que já não fazem sentido. Mas a verdade é que fazem sentido de um ponto de vista: estão a desmantelar o Estado de Bem-estar, debilitando os trabalhadores para aumentar o poder dos ricos e dos privilegiados. Visto assim, é um êxito; o resultado é destruir as sociedades, mas isso é uma espécie de nota de rodapé a que não dás importância se estás sentado nos escritórios do Bundesbank.


- A sociedade começou a mover-se. ¿Crê que as coisas mudarão?
-Há uma resistência muito significativa contra o assalto neoliberal. A mais importante verifica-se na América do Sul, é espectacular. Durante 500 anos, a América do Sul sofreu a dominação das potencias imperiais ocidentais, a última das quais os EUA. Mas nos últimos 10 ou 15 anos começou a romper com isso. Isto tem muita relevância. A América Latina foi um dos sócios mais leais dos consensos de Washington, das políticas oficiais.


- O pátio traseiro…
- Mas deixou de o ser; não totalmente, mas pela primeira vez em meio milénio, os países estão a mover-se no sentido da integração, que é um requisito para a independência. Estiveram separados no passado, estão começando a unir-se. O símbolo disto é que os EUA perderam as suas bases militares na América Latina, a última foi encerrada no Equador. E outra ilustração apelativa é o que se está a passar nas conferencias continentais. Na última, que se celebrou na Colômbia, não puderam realizar uma declaração conjunta. O motivo é que houve dois países que se opuseram: EUA e Canadá. Isto era inimaginável no passado.


- Guantánamo continua. ¿Crê que Cuba tentará recuperar a base nas conversações de Havana?
-Estou seguro de que o tentarão, mas duvido que os EUA aceitem.


- Li um recente artigo seu em que dizia que Obama é um liberal conservador, um republicano moderado, e que a Administração de Nixon foi a mais à esquerda da história.
- Nixon era um bom tipo…; hoje os padrões mudaram. Agora Nixon parece um esquerdista, e Eisenhower um radical incendiário. Eisenhower, ao fim e ao cabo, disse que quem qualificasse de loucura a legislação do New Deal não podia fazer parte do sistema político americano. Agora, tudo isso desapareceu.


-¿Obama não é de esquerda?
- O termo esquerda nos EUA utiliza-se agora para os moderados de centro, porque o espectro deslocou-se. Uma velha piada dizia que os EUA são um Estado de um só partido (o Partido dos Negócios) com duas facções (Democratas e Republicanos); era bastante acertado. Agora já não serve. Continuam a ser um país de um só partido, mas há só uma facção: os republicanos moderados. É esse o único partido operativo. Chamam-se democratas, mas são similares ao que eram os republicanos moderados. O outro partido, o dos republicanos, saiu desse quadro. Abandonou qualquer pretensão de ser um partido parlamentar. E já o reconheceu. Um dos líderes de opinião conservadores mais respeitados, Norman Ornstein, descreveu os republicanos como uma insurgência radical que abandonou qualquer desejo de participar na política parlamentar.


-¿Para onde caminham os neocons?
- O partido mobilizou-se para alcançar dois objectivos: um, destruir o país e de modo que pareça culpa dos democratas, a fim de que eles possam voltar a governar. O seu outro objectivo é simplesmente servir o rico e o poderoso. Mas como não se pode fazer disto um programa político, fizeram uma coisa razoável: mobilizaram grandes sectores da população que sempre tinham estado presentes mas que não se tinham organizado como força política. Um destes colectivos é o dos cristãos evangélicos, que constituem uma enorme parte da população. E aí tens o novo responsável do Comité Meio-Ambiental do Senador, James Inhofe, que afirma: “É arrogante dizer que os humanos podem fazer alguma coisa contra a vontade de Deus, como as alterações climáticas”. Isto é antediluviano… Nem podes sequer chamá-lo Idade da Pedra, as tribos primitivas tinham mais discernimento. Mas é esta a essência da base republicana, extremista e cristã evangélica. O outro sector mobilizado são as pessoas aterrorizadas. A sociedade dos Estados Unidos é agora muito mestiça, mas a população branca está a converter-se em minoria. De forma que há um grande sector da população, e um grupo de políticos, que diz: “Estão a roubar-nos o país”. É uma forma de dizer que há demasiados rostos escuros. Hispanos, sobretudo.


-¿E muçulmanos?
-Também, mas os hispanos são agora a principal fonte de medo.


- O mito nacional funciona sempre contra a invasão de povos “inferiores”.
- E assim continua a ser. Pode ser que não tenha uma base histórica ou biológica, mas está na consciência colectiva. E agora estamos no ponto em que a nossa herança mitológica anglo-saxónica não só se vê ameaçada, como desalojada por esses estrangeiros que se estão apoderando do nosso país. Tudo isto é parte do que o ex. Partido Republicano - tenho que lhe chamar ex. - mobilizou como base dessa política que roça o delírio…


- A Europa vai por um caminho parecido…
- É delirante a forma como a Troika está tomando decisões na Europa. Pode qualificar-se de delirante se se têm em conta as consequências humanas, mas do ponto de vista dos que concebem essa política ela não é delirante, serve-lhes optimamente. São mais ricos e poderosos que nunca, e estão a acabar com o inimigo, que é a população em geral.


- Aki Kaurismäki, o cineasta finlandês, chama-lhe capitalismo sádico.
- É que o capitalismo é intrinsecamente sádico; efectivamente, Adam Smith reconheceu que quando se lhe dá rédea solta e fica liberto de constrangimentos externos, a sua natureza sádica manifesta-se porque é intrinsecamente selvagem. ¿Que é o capitalismo? Maximizar os teus lucros a expensas do resto do mundo. Um famoso prémio Nobel de Economia, James M. Buchanan, disse uma vez que o ideal de todo o ser humano é ser o amo e que o resto do mundo seja seu escravo. Do ponto de vista da economia neoclássica, por que não, é esse ideal.


-¿Um mundo sem direitos nem responsabilidades?
- Um mundo sem regras em que os poderosos fazem o que querem. E onde, milagrosamente, tudo funciona na perfeição. É interessante comprovar como Adam Smith colocou isto na famosa expressão “mão invisível”, que tanto se usa agora. (…) Agora vemos que, quando o capital carece de contrapesos, particularmente os mercados financeiros, tudo vai pelos ares. É com isso que a Europa se está hoje a confrontar.


- Surpreendentemente, 25 anos depois da queda do Muro de Berlim, Syriza, um partido de esquerda, ganhou umas eleições na Europa. É como se as políticas da Troika tivessem ressuscitado o inimigo…
- Não é assim que eu vejo… Pela simples razão de que há muitos mitos acerca do inimigo. A Rússia estava mais distante do socialismo do que o estão hoje os Estados Unidos; a revolução bolchevique foi um grande fracasso para o socialismo, provocou uma tirania autocrática na qual os trabalhadores eram aquilo a que Lenine chamou um exército proletário sob o controlo de um líder que não tinha nada que ver com o socialismo.


-¿Syriza não é então o pêndulo da Historia volvendo atrás?
-Para os patrões actuais, Syriza é um partido de esquerda, mas não o é pelo seu programa. É um partido anti-neoliberal. Não exigem que os trabalhadores controlem a industria…


- Não, claro, não são revolucionários.
-Nem socialistas tradicionais… E isto não é uma crítica, creio que é positivo. E o mesmo sucede com Podemos: são partidos que se levantam contra o assalto neoliberal que está estrangulando e destroçando os países periféricos.


- Falemos sobre a imprensa. Criticou duramente o The New York Times e The New Yorker em vários artigos recentes. ¿A decadência dos jornais tradicionais tem que ver com a sua proximidade com o poder ou, como asseguram os editores, é culpa da Internet?
-Escrevi sobre The New York Times e The New Yorker porque o que me interessa é esse tipo de limite liberal. Prefiro que outros denunciem a Fox, que é uma anedota. O interessante são os jornais intelectuais, porque estabelecem o limite exterior da crítica aceitável. São uma espécie de guardiões. Dizem: “Podes chegar até aqui, mas não mais longe”. E fazem-no por um interesse particular. De um ponto de vista doutrinal não creio que tenham mudado, protegem as estruturas do Estado desde há muito. O derrubamento da democracia na Guatemala recebeu um grande apoio dos media; o do sistema parlamentar iraniano em 1953 foi enormemente apoiado; a Guerra de Vietnam, a mesma coisa, grande apoio todo o tempo. De facto, a única crítica que foi feita à Guerra do Vietnam até ao momento é que foi um fracasso. Quando Obama era considerado um grande herói moral porque se opôs à invasão do Iraque, ¿que disse a imprensa? Disse que essa guerra tinha sido um erro rotundo, claro, porque não resultou. Se tivesse resultado, teria sido perfeita…


-¿Guardiões do poder, mas não da democracia?
- A imprensa vive um grave declive, mas creio que basicamente se deve ao funcionamento dos mercados publicitários. Os grandes media são grandes empresas, e vivem essencialmente da publicidade; agora as suas fontes de capital estão a dispersar-se, e estão em declive. Se vemos, por exemplo, The Boston Globe, era um bom jornal, um dos melhores do país, mas agora não tem noticias independentes de todo, funciona com agências, praticamente não tem correspondentes. O mesmo está a ocorrer no resto do país. Não se trata de uma atitude doutrinal, creio que está relacionado com o funcionamento da sociedade de mercado: se não ganhas suficiente dinheiro, cais.


-¿E não lhe parece estranho que esses media continuem a defender o modelo que os levou à ruína?
-De um ponto de vista doutrinal, simplesmente, de uma forma esmagadora, e não só nos Estados Unidos, os media defendem o poder. Nos Estados Unidos esse poder são os negócios e o Estado. Embora haja excepções. The Wall Street Journal, o principal jornal económico, publica muito boas historias de delitos empresariais. Por sorte, não estamos num Estado fascista.


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