LULA PRESO POLÍTICO

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quarta-feira, 25 de março de 2015

Fernando Castilho – O Quarto Reich Tupiniquim

Nazismo

Por Fernando Castilho, via QTMD?

É lógico que não me preocupo aqui, neste texto, em sequer insinuar que, do jeito que as coisas vão, algo tão grotesco poderá vir a acontecer ao Brasil.

Porém, no ano passado, quando se completaram 50 anos do golpe militar, alguns colunistas de jornais flertaram com novo golpe ao publicarem comentários e até uma pesquisa de opinião, lembram-se?

As pessoas que na época se manifestaram a favor da volta do regime militar não conseguiriam lotar uma Kombi, e acabamos por rir muito.

No dia 15 de março, o número dos que querem a ditadura subiu muito, mas continuamos a rir muito, não sem motivo, dada a ausência do mínimo de sanidade.

Porém, até quando riremos?

Embora não haja como dialogar, argumentar com quem não consegue articular seu discurso com racionalidade, devemos nos lembrar que também não se discute com tsunamis.
 
Todos sabemos como se deu a ascensão de Hitler ao poder na Alemanha, de Mussolini na Itália, de Franco na Espanha (golpe militar), de Salazar em Portugal.

Embora haja diferenças entre elas, todas tem em comum o fascismo (no caso de Hitler, nazismo), o autoritarismo, censura, repressão, torturas, assassinatos, etc..

No Brasil Getúlio Vargas, através de golpe militar, comandou o país seguindo a mesma cartilha com seu Estado Novo, governando com mão de ferro de 1930 a 1945 quando foi deposto por outro golpe.

Em 1964 chegou a vez dos militares derrubarem Jango, dando início aos chamados 21 anos de chumbo, de triste memória.

Todos sabemos também, através dos livros de História e de filmes que, embora costumem retratar somente os heróis americanos comandando os aliados contra os alemães, que a subida de Hitler ao poder se deu em meio à uma enorme inflação e a uma carestia e desemprego sem tamanho, herança ainda da crise mundial de 1929.

Para que Hitler subisse ao poder, a imprensa teve um papel muito importante, destacando-o como a grande salvação da pátria.
Após ter assegurado o poder político sem ter ganho o apoio da maioria dos alemães, Hitler tratou de o conseguir, e na verdade, permaneceu fortemente popular até ao fim do seu regime. Com a sua oratória e com todos os meios de comunicação alemães sob o controle do seu chefe de propaganda, Joseph Goebbels, ele conseguiu convencer a maioria dos alemães de que era seu salvador.

Para todos aqueles que não ficaram convencidos, a SS e a Gestapo davam um jeito, colocando-os em campos de concentração.

Para isso não faltaram delatores.

Vizinhos e amigos que não compactuavam com o regime eram denunciados.
Filhos entregavam pais, irmãos entregavam irmãos.

O desfecho todo mundo sabe.

Um milhão de pessoas mortas, fora as torturadas e mutiladas. Judeus, homossexuais, ciganos, mestiços, negros e…comunistas.

Mas por que Hitler foi apoiado pela grande maioria da população, excetuando-se operários de Berlim e de outras cidades grandes, que resistiram bravamente até onde puderam?

O que fez homens, donas de casa, meninos e meninas, pessoas comuns amarem tanto o fuhrer?

Há anos atrás conheci um alemão que veio pela Ford alemã, trabalhar em sua unidade de Camaçari, Bahia.

Lá, Joseph conheceu e se casou com uma baiana, o que fez-lhe valer um diferente sotaque alemão.

Em conversa com amigos brasileiros, alguém lhe perguntou sobre o que levou o povo alemão, notadamente a classe média a apoiar tão fortemente Hitler.

Joseph fechou a cara. Nós outros pedimos para ele deixar pra lá, mas o alemão, recomposto, resolveu falar.

Disse que a geração de seus pais, filha dos que fizeram a guerra, viveu sua vida nas sombras, com um sentimento de culpa tão forte que ele não se lembra de alegria em sua casa.

Joseph não conversava com seus pais, não era levado à festas ou comemorações. Assim também era com seus amiguinhos de infância.

Sua cidade era cinzenta, triste, soturna.

Mas arrematou em seguida que ele e seus contemporâneos não tinham nada a ver com o que seus avós fizeram, portanto não carregavam esse sentimento de culpa.

Sua cidade agora era alegre, colorida e festeira com muita música, dança e cerveja.

Assegurou que aquele pesadelo não iria mais se repetir pois o repúdio da população ainda é muito forte.

O nazismo é proibido por lei na Alemanha, embora ainda existam pequenos grupos neo-nazistas.

O nazismo não pode ser comparado à ditadura militar que o Brasil viveu a partir de 1964. Ou pode?

Tiremos a matança de judeus e minorias. Substituemo-las por quem discordava do regime, inclusive os comunistas e socialistas.

Tiremos a matança de homossexuais. Substituemo-la pela pregação homofóbica que tem causado a morte de tantos jovens Brasil afora.

Hitler subiu ao poder com apoio maciço da imprensa.

Por aqui os jornais O Globo, Folha de São Paulo, Estadão, O Dia, Correio da Manhã e Jornal do Brasil apoiaram a ditadura, sendo responsáveis diretos pela mobilização em torno da derrubada de Jango.

Enquanto na Alemanha era fomentado o ódio, indispensável para chocar o ovo da serpente, por aqui não foi diferente em 1964.

Dominar o mundo também não estava nos planos dos generais brasileiros, uma vez que para eles o Brasil já tinha dono, os Estados Unidos, que fomentaram o golpe.

15 de março foi o dia em que os defensores da democracia ficaram horrorizados.

Claro que a grande maioria dos que compareceram aos protestos quer a saída de Dilma Rousseff e o fim do PT, não por motivo de corrupção, nem por crise econômica. Apenas, correndo o risco de generalizar, luta de classes.

Embora haja muita falta de informação e muitos grupos com ideias as mais diversas, há que se considerar que a discordância é elemento próprio da democracia. Isso não se discute.

Mas, ao contrário dos primeiros protestos pedindo impeachment da presidenta, já em janeiro, desta vez o número de pessoas exigindo a volta da ditadura militar, inclusive com suásticas, foi considerável.

Isso é muito preocupante.

Em comum com a Alemanha de 1933 e o Brasil de 1964, o ódio e a histeria coletiva, o firme apoio da Rede Globo e de outras mídias, e a quase ausência de negros e pobres, mesmo em Salvador, onde eles são 80¨% da população.

A diferença com a Alemanha fica por conta da situação econômica do Brasil de hoje, que não pode ser comparada à daquele país na época.

Enquanto no país europeu, passados 70 anos, ainda há repúdio ao nazismo, no Brasil, após somente 30 anos, já tem gente sentindo saudades do regime militar.

Na Alemanha o nazismo é criminalizado, enquanto um atentado à democracia. No Brasil, quem defende a ditadura sai cantando como passarinho, embora a Constituição o proíba.

Tanto os regimes da Alemanha, quanto da Espanha, Itália e Portugal presenciaram o surgimento de um líder que os levou à ascensão e à queda. No Brasil esses grupos ainda estão difusos. Vale lembrar que Jair Bolsonaro, o mais cotado, foi vaiado.

Outra diferença são as faixas em inglês.

*Fernando Castilho é arquiteto urbanista, formado pela USP. Professor e blogueiro, mora no Japão e mantém no QTMD? a coluna “Em memória de Getúlio”.
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