LULA PRESO POLÍTICO

LULA PRESO POLÍTICO

quarta-feira, 8 de abril de 2015

LOLA ARONOVICH: CALÚNIAS NA PÁSCOA

Minha cara de perplexidade ao voltar do feriado

Por Lola Aronovich, em seu blog

E aí, pessoas queridas? Como foi a páscoa de vocês?
A minha foi assim: quinta, às 13 horas, depois de responder a uma entrevista sobre a lei que tipifica o feminicídio (quem sabe depois eu publique a entrevista aqui), e depois de acabar de preparar todos os posts, eu e o maridão pegamos a estrada para ir para Beberibe, a uns 80 km de Fortaleza.
A gente não conhecia a Praia das Fontes, apenas a de Morro Branco. Aproveitamos uma promoção de última hora (uns dez dias atrás) que vimos no site Barato Coletivo e fomos passar a Semana Santa no Hotel Bouganville, este lindo hotel aqui.

Foi tudo lindo e maravilhoso. Eu precisava mesmo descansar, após um mês tão corrido como março, em que viajei direto para palestras (só em março, falei na Faap, Sesc Santana, USP, Unesp, Seminário sobre Parto e Nascimento, em Maceió, UFF, UFC, e fui à uma discussão sobre aborto, em Brasília), dei montes de aulas, participei de bancas e de incontáveis reuniões na faculdade. E tudo isso sem parar com o blog.

Bom, como eu dizia, a Praia das Fontes é deslumbrante, com suas belas falésias. E o hotel é espetacular (as três diárias saíram por R$ 690). Comemos muitíssimo bem, no próprio restaurante do hotel, descansamos, jogamos gamão, nadamos. Até alimentei uns passarinhos fofos no café da manhã.

O maridão tirou centenas de fotos fantásticas, como vocês estão vendo. 
Choveu bastante; a gente mal saiu do hotel. Só no sábado é que fomos até a Praia do Diogo, mas voltamos logo, porque não vi diferença com a praia em que já estávamos.
Houve apenas um porém, que nem chegou a atrapalhar: o hotel ficou sem internet já na quinta à noite. Eles não sabem o que aconteceu, mas o wi-fi não funcionava. E, durante o feriado, ninguém viria consertá-la.
Eu não fiquei muito incomodada com a falta de internet, porque queria sossego mesmo. Já tinha deixado os posts agendados e pedido pra incrível Samantha deletar os comentários mais agressivos. Estava tranquila, curtindo a praia.

O maridão precisava da internet, porque queria conferir como dois de seus alunos particulares, crianças, estavam indo num torneio nacional de xadrez, que acontecia em SP. Eu dizia pra ele: calma, a gente volta pra Fortaleza no domingo, chegando em casa você vê o desempenho (brilhante!) dos seus aluninhos.

Detalhe: não temos telefone celular. Pois é, devemos ser dois dos vinte brasileiros sem celular. Logo, não temos 3G, 4G, sei lá como vocês chamam essas coisas. O único meio da gente acessar a internet é através de um computador. Na viagem, levamos meu laptop, mas, sem internet, ele serviu apenas pra gente ver cinco episódios de The Good Wife, que tínhamos gravado, e um de Better Call Saul

Domingo chegamos em casa lá pelas duas da tarde. A primeira coisa que minha mãe me diz é: "Seu irmão está preocupado com as ameaças que você está recebendo". Ué, que ameaças?Recebo ameaças de estupro, tortura e morte há quatro anos. Por que ele estaria preocupado agora? Além do mais, meu irmão mora em SP e não me lê. Sinal de que o negócio estava feio mesmo.

Minha mãe nem sabia do que se tratava, porque ela não tem Twitter. Ela disse que era alguma coisa que eu havia escrito sobre o Alckmin. Eu falei que não escrevi uma linha na internet desde quinta.
Mas imaginei do que se tratava. Afinal, não é a primeira vez que escrevem tuítes em meu nome. Meus inimigos fazem isso com certa frequência. Geralmente, eles escrevem RT antes do meu nome, e falam as piores sandices. Uns dias atrás eu até avisei uma moça que escreveu um post na sua página no FB me criticando, baseando-se num tuíte que nunca escrevi.
Clique em qualquer imagem para ampliá-la
Enfim. Domingo cheguei no meu computador, acessei o Twitter pela primeira vez desde quinta, e o que encontro? Mil tuítes. Não é exagero. 996, pra ser mais exata. A maioria me xingando. Alguns me ameaçando, como este de um "homem em paz":

Pouco a pouco, encontrei os principais culpados. Quem fez a montagem incluindo dois tuítes fakes no meu perfil foi uma página asquerosa chamada "Esquerdismo é doença mental". 

Esta página, além de ser misógina, racista e homofóbica, defende estupro corretivo para lésbicas. Algo bem parecido com o que o site de ódio dos mascus sanctos (que fez com que dois deles, Marcelo e Emerson, fossem presos, em 2012) pregava. A página do FB é dos mascus sanctos! Essa gente boaque me ameaça de morte e jura que vai acabar com minha reputação!

Como que eu sei que a página é deles? Bom, primeiro porque eles admitiram isso, no chan deles. Estão lá comemorando. 
Segundo porque a página no FB está divulgando uns quadrinhos que foram criados naquele chan. Quadrinhos sobre um de seus heróis, "Guerrinha" (Gustavo Guerra é um mascu sancto e neonazista de Caxias do Sul, responsável pela página "Eu não mereço mulher preta", já derrubada). 
Mas quem poderia levar a sério algo publicado numa página dessas? Quem poderia divulgar uma calúnia desse naipe tendo como única referência uma página de ódio? Entra em cena um reaça que anda escrevendo vários posts contra a minha pessoinha.

Este Luciano Ayan (não sei se é seu nome verdadeiro, creio que não) é um velho conhecido da blogosfera ateia. Hoje ele é um ex-ateu. É um libertário que só tem alguma credibilidade entre os reaças da internet. Nos últimos dias ele vem se empenhando em perder essa credibilidade. Pra me atacar, ele entrevistou Emerson, um dos mascus sanctos que foi condenado pelo site de ódio. Emerson inventou uma história que ninguém além deLuciano acreditou.

Depois, Luciano escreveu outro post, comparando feministas a terroristas, pelo que entendi. O post abria com uma foto minha. É tanta besteira num só texto que não sei o que destacar. O que me fez rir alto mesmo foi Lu dizer que uma feminista jamais faz juízo de valor negativo sobre outra feminista. Sabe tudo de feministas, esse rapaz!

O post de sexta, me acusando de ter escrito tuítes que nunca escrevi, rendeu 164 comentários. Deste quilate pra baixo:

Algumas pessoas o avisaram que os tuítes eram fake. Um dos motivos (tirando o óbvio, que é que eu jamais escreveria algo assim, ainda mais num momento trágico em que alguém perde um filho) é que a falsificação é grosseira. Aparece um 0 (zero) antes do RT, e isso não existe. Se ninguém dá RT ou favorita um tuíte, não aparece número nenhum. 

Luciano foi então conferir com a sua fonte, a página dos mascus sanctos, que mostrou não ter grande afinidade com o Twitter. E que mais uma vez confirmou a mentira.

Enquanto isso, no Twitter, um tal de Edmilson, um reaça bastante conhecido por xingar seus desafetos e inventar e espalhar mentiras sobre eles, divulgou os tuítes fakes. Seu tuíte difamador teve 180 RTs. Não por acaso, quase todas as ofensas que chegaram até mim vieram de reaças. A maior parte desses perfis tem "Fora Dilma" ou "CorruPTos" ou "Odeio petralhas" na bio.
Teve muito reaça que não perdeu a oportunidade para, óbvio, atacar todo o feminismo.
Este tuíte é de um médico, professor da Unifesp. Mais tarde, apagou o tuíte. Não pediu desculpas

E atacar todos os professores, esses comunas que doutrinam os alunos nas faculdades esquerdopatas.

E voltar aos bons e velhos tempos da 4a série B.
Nem todos que me xingaram são reaças. Este é de esquerda, por exemplo.
Fui acusada também de deletar os tuítes fakes segundos depois de postá-los. Como se eu algum dia tivesse deletado algum tuíte meu sem avisar (e só porque tinha erro, tipo link errado)!
Quer dizer, falsificam tuítes, divulgam essas calúnias no meu nome, e EU tenho que provar que ELES estão mentindo! E os argumentos são do tipo "Se ela não se manifestou até agora, é porque realmente desejou a morte do governador".

Este sujeito inspirou seus seguidores no FB a deixar mensagens nobres:

Luciano, como pessoa ética que é, "retificou" seu post. Do jeitinho dele, claro. Não dizendo que os tuítes eram falsos, ou que a fonte que ele usou era uma página racista, misógina e homofóbica, mas que eu "alegava inocência":

Eu sei que tenho que processar esses seres do mal, gente. Mas dá uma preguiça... Custa dinheiro, leva tempo. E são tantos! 
Porque as ofensas continuaram, muitas horas depois de eu avisar que nunca havia escrito aquilo.

Felizmente, recebi muito apoio também. 

Mas é dose ter que se acostumar com esse nível de baixaria, com esse tanto de abuso. E eu sei que não é pessoal. É por eu ser feminista, de esquerda, uma guerreira que não se cala. Só que é uma droga ter que dedicar tanto tempo (que não tenho) com quem não vale nada.

Espero que a páscoa de vocês tenha sido mais feliz (pra piorar, domingo de páscoa é sempre uma data triste pra mim, porque meu amado pai morreu nesse dia, 22 anos atrás).
E os mesmos reaças que criaram tuítes falsos contra mim também fizeram este contra a Pitty, mas não chegaram a ser bem sucedidos na divulgação, talvez por não contarem com a ajuda de Lucianos e Edmilsons:
Postar um comentário