LULA PRESO POLÍTICO

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quinta-feira, 16 de abril de 2015

O que as Crianças da Ditadura Acham dos Pedidos de Intervenção Militar

A pedagoga Ñasaindy Barret de Araújo hoje e durante a infância em Cuba. Foto: Felipe Larozza
Por Débora Lopes, via VICE

As propaladas manifestações recentemente convocadas pela direita brasileira deram margem aos entusiastas da intervenção militar. Camuflados em meio a uma multidão que se esgana pelo impeachment da presidente Dilma Rousseff e pelo fim da corrupção, eles pedem que as forças armadas voltem a intervir no cenário político nacional. Entrevistados que vivenciaram a ditadura enquanto crianças falam à VICE sobre fichamento, exílio político, pais torturados e mortos, além do estranho desejo de quem clama pelo retorno dos militares ao poder.
Fruto de um relacionamento entre dois guerrilheiros que se encontraram durante o exílio em Cuba, a pedagoga Ñasaindy Barret de Araújo tinha menos de dois anos quando o pai voltou para a luta armada no Brasil. Era 1970. Meses depois, a mãe também retornou. Integrantes da Vanguarda Popular Revolucionária (VPR), ambos foram mortos. Sozinha no Estado cubano, a garota ficou sob a tutela da também exilada Damaris Oliveira Lucena, recém-chegada ao país ao lado de seus três filhos. Na maioria das fotos da infância, Ñasaindy não esboça muitos sorrisos. "Meus seis primeiros anos de vida foram tristes. Todo mundo diz que eu chorava muito", relata.
Ñasaindy Barret de Araújo durante a infância em Cuba. Foto: Felipe Larozza
Entender como os pais puderam deixar um bebê sozinho em outro país para voltar à militância no Brasil foi um processo doloroso. "Não tem como dizer que não houve dor ou sofrimento. É aquela velha história: você está no mundo sem pai nem mãe." Os atuais clamores por intervenção militar e o temor por um golpe de Estado a fizeram refletir e compreender melhor os motivos dos progenitores. "Foi a primeira vez que me perguntei isso: eu entraria em uma luta armada? A possibilidade de um golpe, hoje, seria um retrocesso. Não conseguiríamos só ficar olhando. Tentaríamos dar um jeito. Foi a primeira vez que percebi a importância. Agora, consigo entender minha mãe e meu pai."
Zuleide Aparecida do Nascimento fichada pelo Dops aos quatro anos de idade. Foto: Reprodução
Fichada pelo Departamento de Ordem Política e Social (Dops) aos quatro anos de idade, Zuleide Aparecida do Nascimento é uma das crianças presentes na famosa imagem que mostra 40 presos políticos trocados em 1969 pelo embaixador alemão Charles Burke Elbrick. Junto da avó e dos irmãos, Zuleide foi banida do país e enviada a Cuba, onde viveu por 16 anos. "Aqui, no Brasil, não vivíamos uma vida de criança. Tínhamos a mesma preocupação que os adultos: não sermos mortos."
Na foto, os 40 presos políticos que, em 1969, foram liberados em troca da soltura do embaixador alemão. Zuleide Aparecida do Nascimento é a criança dentro da marcação em vermelho. Foto: Reprodução
O tio e a avó de Zuleide eram militantes do movimento sindical metalúrgico. Os fios grisalhos e a idade avançada de Tercina Dias de Oliveira, conhecida como "Tia", colaboravam para manter a fachada dos aparelhos [nome dado às casas onde perseguidos viviam de maneira clandestina]. "Ela costurava e preparava refeições pro pessoal que ia ao treinamento de guerrilha no meio do mato", conta.
Zuleide Aparecida do Nascimento posa para a VICE no centro de São Paulo. Foto: Felipe Larozza
"Meus irmãos relatam que, quando alguém batia na porta, eu pegava um pau e ficava na espreita. A gente não saía, não brincava." A identidade das crianças também era protegida. "Eu tinha um nome frio. Se me chamassem por esse nome, eu tinha de responder." Ao falar sobre a marcha de 15 de março, amplamente divulgada pela imprensa e aplaudida por boa parte dos formadores de opinião do país, Zuleide frisa ter "nojo só de lembrar". Para ela, as pautas da classe média estão à frente dos reais interesses políticos em prol da população. "O que eles querem reivindicar? O carro do ano? Uma viagem não sei pra onde? Que o filho da empregada não frequente a mesma faculdade que os filhos deles? Que a empregada não use o perfume que eles usam?", indaga. "Eu concordo que as pessoas saiam às ruas para se manifestar contra a corrupção, porque está demais. Agora, discordo quando elas vão às ruas sem o mínimo de esclarecimento. E a direita se usa disso, desse povo que não tem esclarecimento pra fazer o que fizeram na primeira manifestação: criar massa de manobra."
Ernesto Dias do Nascimento fichado pelo Dops aos dois anos de idade. Foto: Reprodução
Durante os anos de chumbo, Ernesto Dias do Nascimento passou pelo mesmo terror e, durante a vivida em Cuba, chegou a morar com Ñasaindy e Zuleide (a quem chama de "prima"). Aos dois anos de idade, o menino, então apelidado de "Chezinho" – em alusão à Che Guevara –, presenciou o pai, militante sindicalista, sendo torturado na Oban (Operação Bandeirantes). Para fazer com que o adulto fornecesse informações, os militares simulavam torturar o filho na sala ao lado. "Tive muito trauma minha vida toda. Eu não falava nada, não conversava. Aprendi espanhol só ouvindo." O medo se estendia para fora de casa. "Eu tinha pavor de policial, tinha medo de sair na rua", relata.
Ernesto Dias do Nascimento em sua casa. Foto: Felipe Larozza
Fichado pelo Dops, assim como Zuleide, Ernesto – cujos pais são vivos até hoje – se considera um preso político. "Eu não sou filho de opositor, de perseguido político. Eu fui preso político. Tá aqui. Fui fichado como 'elemento menor subversivo' pelo Dops. Eu tinha dois anos de idade."
Apesar de reconhecer que as pessoas favoráveis à intervenção militar integram uma minoria, Ernesto enxerga "um movimento de ódio, fascismo; um movimento discriminatório".
Manifestantes pedindo intervenção militar na Marcha da Família com Deus pela Liberdade, em 2014. Foto: Alice Martins
Apesar de adjetivos como "minoria" ou até mesmo "lunáticos" serem atribuídos aos intervencionistas, eles parecem não ligar e continuam propagando sua mensagem através das marchas direitistas. No último ato em São Paulo (12), a reportagem da VICE apurou pelo menos quatro carros de som pedindo intervenção. Zuleide, que até hoje carrega as marcas de uma infância repleta de medo e perseguição, teme os próximos passos. "Foi assim que aconteceu o golpe de 64, que eles chamam de 'revolução'. Foi assim que aconteceu."
*As fontes desta reportagem foram retiradas do livro Infância Roubada – Crianças Atingidas pela Ditadura Militar no Brasil, publicado pela Comissão da Verdade.
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