LULA PRESO POLÍTICO

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sexta-feira, 10 de abril de 2015

Uma manobra grega maior que a vitória de Maratona


Desde 490 antes de Cristo, quando da espetacular vitória de Maratona sobre os persas, que os gregos não tinham nada melhor a comemorar no plano internacional do que a singela apresentação à Alemanha  da conta de 278,7 bilhões de euros por conta de suas atrocidades no país durante a Segunda Guerra. É um golpe de mestre. Fora a jogada de Putin na Crimeia, nada melhor se apresentou aos contemporâneos em matéria de estratégia, numa Europa que parecia estar politicamente, e não apenas economicamente estagnada.

Vejam-se todas as implicações dessa cobrança de dívida de guerra. O ministro da Economia  da Alemanha, Sigmar Gabriel, teve uma reação típica de seus ancestrais de longas botas ao classificar como “estúpido” o pedido grego. Na verdade, ele, claramente, é um estúpido. A Grécia, onde foi fundada a política, fez um movimento de xadrez típico  que não dá muita margem ao adversário. Que dirá a Alemanha? Que não tem culpa? Que não tem dinheiro para pagar? Ou simplesmente que renega a dívida?

Bom, se estivermos diante da última hipótese, então estaremos realmente no meio de uma gravíssima crise financeira na Europa. É que os gregos invocarão total legitimidade por não pagar os créditos que a troika lhes impôs mais ou menos do mesmo valor que a conta apresentada: se alemães, que são “os” alemães, decidem não pagar uma dívida absolutamente legítima do ponto de vista grego, então por que os gregos, muito mais pobres, iriam pagar uma dívida mais duvidosa, contaminada pela consultoria da Goldman Sachs? Os alemães só tem uma saída: partir para uma arbitragem neutra. Para ser aceita pelos gregos, porém, não vale colocar no papel de juízes neutros os abutres que servem os interesses alemães. Os gregos certamente não aceitarão.

Em tese, a Alemanha poderia recorrer a seu expediente de 1939: militarmente muito mais forte que a Grécia, como o era em relação à Polônia e à Tchecoslováquia naquele ano, ela poderia com grande facilidade mandar alguns batalhões de tanques no sul da Europa para reafirmar sua soberania sobre a Grécia. Aparentemente o resto da Europa não concordaria com esse tipo de solução final. Contudo,  para salvar a estrutura financeira abutre da Europa, que associa interesses da maioria dos ricos do continente, não se descarta de forma absoluta a solução militar, dependendo do que pensem e atuem as potências nucleares europeia de segunda linha, França e Inglaterra.

A imprensa brasileira, que tem uma vocação imperturbável para saudar as realizações dos poderosos, está tratando a questão grega, agora transformada na cobrança de uma dívida de guerra, como um tema menor. Não sei se é algo inconsciente ou é proposital, fruto de incompetência. O Jornal Nacional deu um registro sumário na segunda-feira, e depois não voltou ao assunto. Quanto aos jornais, o único que deu destaque e um tratamento devido, a começar por uma manchete na primeira página, foi o Monitor Mercantil.                 

A Grécia cobrará da direita europeia cada lágrima rolada em seu padecer de um desemprego de mais de 25% desde o início da crise. Não se trata apenas da Alemanha, onde até mesmo os sociais democratas, aos quais pertence o ministro Gabriel, capitularam ao neoliberalismo militante que está destruindo não só a economia grega, mas a de Portugal, Espanha, Irlanda, e muito brevemente Itália. Na verdade, nem mesmo a França, que estagnou, não escapará do furor neoliberal que está destruindo a civilização europeia.

A iniciativa grega não deixará outro espaço de manobra para esses países, que a imprensa de direita havia chamado pejorativamente de PIGs (porcos), senão o recurso à renúncia de suas dívidas ou à debandada do euro. Em qualquer hipótese não restará pedra sobre pedra da arquitetura financeira especulativa da Europa. Gramsci dizia que você deve trazer o adversário para uma posição da qual ele só pode recuar com desonra. Os gregos trouxeram os alemães e a direita europeia para uma posição delicada. Acaso irão para uma derrocada sem honra?

J. Carlos de Assis - Economista, professor, doutor em Engenharia de Produção pela Coppe/UFRJ, autor de “A Razão de Deus”.
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