LULA PRESO POLÍTICO

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domingo, 10 de maio de 2015

HOMENAGEM A COMPANHEIROS MORTOS E DISCURSO DE SUBCOMANDANTE ABREM ENCONTRO ZAPATISTA NO MÉXICO


No último sábado, 2 de maio, o Caracol Zapatista de Oventik abriu suas portas para receber cerca de 3 mil pessoas, entre militantes zapatistas e visitantes de outras partes do México e do mundo, para a homenagem póstuma a dois companheiros do movimento: o filósofo catalão Luis Villoro Toranzo, e o maestro da Escuelita Zapatista José Luis Solis López, de codinome Galeano. A homenagem conjunta pode ser entendida como resultado da conjuntura enfrentada pel@s zapatistas: Villoro, falecido em março de 2014, teve sua homenagem póstuma, originalmente marcada para dois meses após seu falecimento, adiada em razão do assassinato de Galeano, ocorrido justo às vésperas do evento.
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O maestro, que era membro do EZLN desde o período da clandestinidade na década de 1980, foi assassinado por integrantes da Central Independiente de Obreros Agrícolas y Campesinos – Histórica (CIOAC-H), organização que se opõe às comunidades zapatistas. O episódio teve requintes de crueldade: Galeano foi sequestrado e, em seguida, torturado e espancado até a morte.
O evento, carregado de emoção, teve dois momentos distintos. Num primeiro, as homenagens ficaram centradas na figura de Villoro, nascido na Catalunha mas radicado no México desde os 17 anos de idade, exemplo de intelectual comprometido não apenas com o zapatismo, mas com a causa dos povos originários como um todo. A presença e os depoimentos de Fernanda Navarro, companheira, e de Juan Villoro, filho, enalteceram a imagem do filósofo como homem de apurada sensibilidade.
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Na sequência, o Subcomandante Insurgente Galeano, anteriormente conhecido como Marcos, trouxe um relato afetivo de quando Villoro solicitou ingresso nas frentes zapatistas. O tom das falas era, até aí, bastante emotivo, em uma homenagem a um companheiro falecido por causas naturais. Encerrada sua primeira participação no evento com extensos abraços nos familiares de Villoro, o Subcomandante retornou ao microfone para um segundo depoimento, agora dirigido ao maestro zapatista assassinado.
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As falas, até então ternas, ganharam contornos de digna rabia. A brutalidade do assassinato de Galeano expôs a complexidade dos obstáculos – e dos inimigos – enfrentados pelos zapatistas. A CIOAC-H, cujos integrantes foram os responsáveis pelo crime, é uma organização com estreitos laços com forças partidárias e governamentais. A estratégia conjunta dessas forças é, ao fim e ao cabo, eliminar a experiência zapatista. Para isso, a CIOAC-H conta com as verbas distribuídas por programas governamentais de apoio à pequena agricultura, verbas essas firmemente recusadas pel@s zapatistas em prol de sua autonomia. Quando a cooptação por meio dos recursos financeiros não dá resultados, a CIOAC-H recorre à violência direta, devidamente acobertada pelas forças de segurança e pela justiça do Estado, como no assassinato de Galeano.
A fala do Subcomandante não ocultou a denúncia daqueles que se opõem ao zapatismo: da presidência aos partidos, passando pela mídia corporativa e sua propagação de mentiras a respeito do fato e do movimento, a fala do (agora) Subcomandante Galeano teve a contundência de quem sabe o quanto a autonomia vivida naquelas comunidades é indesejada pelos poderes instituídos.
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A presença e participação de um filho e uma filha do maestro assassinado retomaram o tom emotivo, ao recordar o homem que acima de tudo manteve-se fiel aos princípios adotados quando de sua entrada nas fileiras zapatistas, mesmo sabedor de que isso poderia lhe encurtar a vida, como testemunharam seus escritos, lidos no ato.
A homenagem aos dois companheiros foi o momento inicial do seminário “El pensamiento crítico frente a la hidra capitalista” que acontece no CIDECI-Unitierra, em San Cristobal de las Casas, entre os dia 03 e 09 de maio. Abertura, reconheça-se, oportuna, pois reforçou, em cada um dos presentes no ato, a importância da experiência zapatista, não como modelo, mas como inspiração em tempos de acirramento do conflito social.
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