LULA PRESO POLÍTICO

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terça-feira, 19 de maio de 2015

Sacco & Vanzetti e o significado da palavra ‘anarquista’

A poetisa americana Edna St. Vincent Millay
A poetisa americana Edna St. Vincent Millay

Via DCM
O texto original, da autoria de Maria Popova, foi publicado no site Brainpickings. A tradução é de Camila Nogueira.
Em 1921, os imigrantes italianos Nicola Sacco e Bartolomeo Vanzetti, de trinta e poucos anos, foram presos sob acusação assassinato de um guarda e de um contador durante um assalto em Massachusetts. A evidência balística utilizada para condená-los era altamente duvidosa e múltiplas testemunhas afirmaram ter visto Sacco em outra cidade no dia do suposto crime. O caso se arrastou por anos a fio, até que Sacco e Vanzetti foram condenados à morte em abril de 1927. Muitos, inclusive um grande número de intelectuais, acreditavam que a condenação era equivocada e que sua principal intenção era punir ambos os homens por suas histórias como ativistas sociais e anarquistas – e que, assim sendo, a sentença representava o fracasso não apenas da justiça – e sim da própria humanidade. Edna St. Vincent Millay constava entre os ultrajados – poetisa, amante da música, escritoras de cartas de amor apaixonadas e a terceira mulher a receber o Prêmio Pulitzer de Poesia.
No dia 22 de agosto de 1927, Millay, na época com trinta e cinco anos, enviou uma carta ao governador de Massachusetts, Alvan T. Fuller, na época um dos homens mais ricos da América. A carta pode ser encontrada na compilação The Letters of Edna St. Vincent Millay. Millay, que estava escrevendo um artigo sobre aquele caso, o havia entrevistado naquela mesma tarde.
Millay escreveu:
Vossa Excelência,
[…]
Esta noite, com a humanidade em dúvida, com esta nação imersa na dúvida, com os olhos da Europa inteira voltados para Massachusetts e para os Estados Unidos em lancinante dúvida e angústia – o senhor ainda tem certeza? Nem mesmo uma leve sombra de dúvida atormenta a sua consciência? Porque, embora seu espírito seja de fato forte, continua sendo o espírito vulnerável de um ser humano. O senhor não necessita, nesse momento, do auxílio de um espírito superior ao seu próprio?
Tente refletir. Reflita tanto quanto puder.
Que caminho Ele teria percorrido, este Jesus em quem o senhor acredita? Certamente não o senhor percorreu!
Você me prometeu, e eu acredito em você, que pensaria em tudo o que eu disse. Quero que cumpra sua promessa agora mesmo. Fique, por um instante, sozinho consigo mesmo. Olhe para dentro da sua própria alma. Deixe que tudo abandone sua mente perturbada, tudo exceto isso: – “Que caminho Ele teria percorrido, o Jesus em quem eu acredito?”
Milhões de vozes formam a minha própria quando imploro: Responda às nossas dúvidas. Exerça a clemência, pois sua posição permite que o faça.
Esta noite, Massachusetts exige um grande homem. Não é tarde demais para que o senhor seja esse homem.
Edna St. Vincent Millay”
St. Vincent Millay protesta contra a condenação: "A honra americana morre com Sacco e Vanzetti".
St. Vincent Millay protesta contra a condenação: “A honra americana morre com Sacco e Vanzetti”.
O governador jamais ascendeu à grandiosidade. Millay foi presa por participar de protestos públicos contra a sentença e da “vigília da morte”. Sacco e Vanzetti foram executados pouco depois da meia-noite do dia 23 de agosto.
Nos três meses que seguiram a execução, Millay continuou a investir na história e na ampla implicação cultural da mesma. No dia 9 de novembro de 1927, a revista semanal nova-iorquina The Outlook publicou seu artigo sobre a decisão. Seu título era “Fear” [“Medo”] – uma espécie de carta aberta ao público, uma opinião contra a execução dos dois homens e, em um sentido mais amplo, da própria pena de morte. Ela escreveu:
Na superfície de um Cristianismo já tão desonrado e desfigurado pelos crimes cometidos pela Igreja, esta mancha não é tão escura. Frente a uma liberdade enigmática, cutilada por todos os crimes cometidos pelo próprio Estado, um dilaceramento como este é distinguido com sofrível dificuldade.
E você está certo; o melhor é esquecer que os homens morrem. Até agora, não inventamos nenhuma maneira de derrotar, enganar ou subornar a morte. A qualquer momento, uma nuvem pode se partir sobre nós e deixar que a lança dourada da morte penetre em nossos corações. A qualquer momento, a terra pode se partir ao meio e a mão da morte pode segurar nossos tornozelos e nos arrastar ao abismo. A qualquer momento, o vento pode soprar e varrer o teto de nossas casas, transformando-nos em poeira. Se isso não acontecer, e daí? De qualquer modo, vamos morrer em breve. E o melhor é esquecer que as coisas são assim.
Mas que homens, antes da hora, impiedosa e arbitrariamente, sejam arrebatados da luz do sol em direção a escuridão do túmulo devido à cegueira ou ao medo de seus companheiros; – não podemos nos esquecer disso.”
Millay argumenta que a atrocidade da sentença em si foi amplificada pelo equívoco da justiça; que, em sua opinião, condenou dois homens inocentes à morte a fim de puni-los por seu ativismo social:
“Se você se deslocasse de seu próprio corpo por um instante e contemplasse sua existência, você se sentiria perturbado, eu imagino, e muito menos tranquilo e confiante, ao descobrir que é possível que um homem como você, inocente de qualquer crime, seja preso e condenado à morte. Não importa se aqueles homens, a quem não pretendo nomear, cometeram ou não assassinato – o fato é que não foi este o motivo de sua execução. O crime pelo qual os executaram foi o seguinte: Eles respiraram sobre a janela congelada e olharam para fora.
[…]
É assim que você enxerga a situação: Esses homens eram anarquistas, e é melhor mesmo que fiquem fora do caminho… É provável que fossem assassinos. Não que importe de verdade. Em qualquer caso, é muito melhor que eles fiquem longe do seu caminho. Foi a palavra Anarquista que os conduziu à cadeira elétrica, a palavra e a sua ignorância do significado dela.
Um anarquista, insiste você, é um homem que produz bombas e as coloca sob a Casa Civil, e isso é tudo. Mas não é verdade. Ao contrário do que você pensa, isso não é tudo. A pessoa que você tem em mente não é um anarquista, e sim um bombardeiro – e você poderá encontrá-lo em qualquer lugar, em qualquer grupo; entre anarquistas, fascistas, modernistas, agentes da Lei Seca, fundamentalistas e principalmente entre membros da Ku Klux Klan. Ele é aquele indivíduo que, quando não gosta de determinada coisa, lincha-a, despedaça-a, arranca-a, amaldiçoa-a… – ou a bombardeia. O nome dele é legião, e você o encontrará em toda parte.
Um anarquista, segundo o dicionário, é uma pessoa que acredita na bondade natural dos seres humanos; e que, se deixados por conta própria, eles governariam a si mesmos – a partir de um acordo mútuo – de modo muito mais efetivo e mais pacífico do que se fossem governados por um governo violento.”
Bartolomeo Vanzetti (esquerda) e Nicola Sacco, algemados
Bartolomeo Vanzetti (esquerda) e Nicola Sacco, algemados
Millay argumenta também que a posição dos homens como imigrantes os tornou mais vulneráveis à injustiça.
Esses homens eram náufragos em nosso litoral, e nós, uma tribo ignorante e selvagem, os matamos porque seu discurso e seus modos não eram compatíveis com os nossos – e porque, para a mente inculta, aquilo que é estranho é necessariamente diabólico e perigoso.
Esses homens foram executados porque preocupavam você; e seus filhos sabem disso. Sim – As mentes dos seus filhos são como piscinas límpidas que refletem fielmente tudo que passa por sua margem; na piscina de sua própria mente, quando uma imagem alheia se curva, um peixe de terror pula para encontrá-la, danificando sua reflexão”.
As palavras selecionadas por Millay para encerrar sua linha de raciocínio mostra a profundidade com a qual o caso havia tocado uma parte secreta da sua própria humanidade e, até os dias de hoje, quase um século depois, sua mordacidade é usada em debates sobre a pena de morte:
“Eu sou livre para dizer tais coisas porque não sou anarquista, embora você vá dizer que sou. Na sua visão, a pessoa que consente em arriscar-se para o bem de outra é muito insensata, a menos que ambas pertençam à mesma família, à mesma fraternidade ou no mínimo ao mesmo partido político. No que diz respeito a você e ao seu vizinho, você quer o bem dele; mas nem tanto assim.
[…]
Eu me atrevo a dizer tais coisas porque não sou anarquista, mas não só por isso. Eu me atrevo a dizer tais coisas porque minha liberdade individual, meu poder de escolha e até mesmo minha vida pessoal não são, atualmente, tão importantes para mim como foram um dia. Mesmo a morte, aquela intrusa, aparece para mim de vez em quando, principalmente quando penso no que aconteceu em Boston há dois meses. Nesses momentos, a morte aparece para mim como uma espécie de cômodo escuro onde podemos descansar nossos corpos desgastados afastados do resto do mundo, deixando a varredura da travessia para aqueles que ainda acham importante varrê-la. Como se realmente importasse se a travessia está limpa ou não quando, de todas as pessoas que passam por ela no curso de um dia, uma em cada dez mil possui uma faísca de coragem em seu coração e um pouquinho só de amor (além do amor que um gato sente por uma lareira) por qualquer criatura além de si própria. O mundo, o mundo físico, que um dia foi tudo para mim, de tempos em tempos me parece um labirinto sem saída, um oceano sem ilha, e então nada é capaz de me consolar. A beleza de algumas coisas não mais compensa a feiura do homem, sua maldade, sua ganância, sua hipocrisia”
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