LULA PRESO POLÍTICO

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quinta-feira, 14 de maio de 2015

Vai mal a velha Europa


Via Esquerda Caviar

Mar da morte

Por Guilherme Boulos

No último dia 19 de abril, o naufrágio de um barco pesqueiro em águas líbias matou 800 pessoas que tentavam atravessar o mar Mediterrâneo. Pouco antes, cerca de 450 pessoas morreram em casos semelhantes. O drama dos imigrantes refugiados de países africanos para a costa europeia já é uma das maiores tragédias humanitárias do século 21. 

Fugindo da miséria e de guerras civis que envolvem a atuação do Estado Islâmico ou do Boko Haram, verdadeiras multidões saídas de países como Gana, Níger, Somália, Mali, Gâmbia, Senegal, Nigéria, Eritreia e Síria aportam ou tentam aportar no velho continente por meio de lanchas e barcos improvisados - invariavelmente precários - em busca de nada menos que a sobrevivência. 

Os números são impressionantes. Nos primeiros três meses deste ano, o Acnur (Alto Comissariado da ONU para Refugiados) estima que 31.500 pessoas cruzaram o Mediterrâneo para chegar à Itália ou à Grécia, vindos especialmente de portos clandestinos na Líbia. No ano passado 219 mil pessoas conseguiram cumprir o trajeto, número quase quatro vezes maior que o de 2013, quando 60 mil pessoas chegaram até portos europeus. 

A OIM (Organização Internacional para Migrações) registrou até agora quase 2 mil mortes em 2015. Durante todo o ano de 2014 foram 3,4 mil mortes de imigrantes, número que deve ser superado em algumas semanas, podendo alcançar os 30 mil até o final do ano. 

Os poucos centros de atendimento aos refugiados na Itália e na Grécia estão superlotados e não podem receber mais ninguém, o que aumenta o descaso e as políticas anti-imigração na União Europeia. Os xenófobos de sempre aproveitam a ocasião: "A Suíça não tem que carregar sozinha o peso da miséria do mundo", escreveu o jornalista Pascal Décaillet sobre os imigrantes que chegam no país. 

A operação "Triton", levada a cabo pela UE desde o fim de 2014 em substituição ao "Mare Nostrum", visa ao combate à imigração com medidas como a destruição das embarcações utilizadas para transportar imigrantes. Com isso, pretendem desestimular a imigração, ignorando que o desespero tende a produzir formas de travessia ainda mais precárias que as existentes. Medidas como estas só aumentarão os casos fatais. 

Nesta semana, a UE deixou de lado as meias palavras e anunciou sua política beligerante para o caso dos imigrantes ilegais. O plano - elaborado pelo Reino Unido —é empreender ataques militares na Líbia para supostamente desbaratar as redes ilegais de transporte. Ao problema social dos refugiados, a resposta da UE vem sob a forma de bombardeios. 

Por outro lado, setores da imprensa europeia tentam demover a xenofobia da UE, para quem patrulhar fronteiras é mais importante que salvar vidas, com a ideia de que a imigração é uma das formas de resolver problemas de custos no mercado de trabalho. Ou seja, trata-se de utilizar refugiados como forma de rebaixar salários e direitos trabalhistas: "imigração é uma fonte essencial de oportunidades para garantir a recuperação da crise e a preservação da preponderância europeia na cena mundial" afirma o editorial do "El País" de outubro de 2014. 

Uns defendem que deixe morrer, outros a escravização. Vai mal a velha Europa. 

Os governos e imprensa europeus comportam-se com a arrogância colonialista de sempre. Se a tragédia não é lá, que o inferno seja dos outros e se a crise ainda é uma ameaça, por que não utilizar mão de obra barata dos imigrantes? 

Ilustrativo é que a mesma Europa que parou para chorar quando do deplorável assassinato dos cartunistas do Charlie Hebdo não seja capaz de derramar uma lágrima pelos milhares de corpos africanos em suas praias. 
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