LULA PRESO POLÍTICO

LULA PRESO POLÍTICO

sexta-feira, 12 de junho de 2015

"Em 20 anos, o mundo não vai mais ignorar a África"

Malama: "Há uma conspiração para tentar fazer com que a cultura negra não seja importante"

Por Simone Freire, via Brasil de Fato
A afirmação é do escritor zambiano, Malama Katulwende. Ele e a brasileira Raquel Trindade participaram da mesa de abertura do Festival Afreaka e falaram sobre a realidade cultural vivida em cada território.
A África tem mudado constantemente nos últimos anos e a invisibilidade de sua cultura e história estão com os dias contados. Este foi um dos pontos levantados pelo escritor zambiano Malama Katulwende, em sua participação na mesa de abertura do Festival Afreaka, na noite desta terça-feira (9), no centro de São Paulo (SP).
Malama conectou o Brasil à efervescência cultural de seu continente, presente de forma intensa em todas as modalidades artísticas, seja no cinema, nas artes plásticas ou na literatura. A cultura africana, diz ele, influenciou diretamente as obras de artistas ocidentais, como Pablo Picasso, e continua influenciando a de vários outros pelo mundo.
Mesmo assim, pontua Katulwende, há muitos empecilhos para a disseminação das produções culturais do continente. No cinema, por exemplo, os filmes são traduzidos para o inglês, "mas ainda é difícil a tradução para o português", pontua.
Outra observação feita por ele foi o fato do ocidente ignorar e criar estereótipos sobre as matrizes africanas a fim de ofuscar todo o brilho que elas têm preservado ao longo dos séculos, além de criar um monopólio acerca do mercado da cultura. "Há uma conspiração para tentar fazer com que a cultura negra não seja importante", lamentou.
Embora as dificuldades continuem, a África não é mais a mesma e, combinando o passado e o presente, a vivacidade cultural tem criado laços ao redor do mundo e os jovens são protagonistas deste processo. "Em 20 anos, o mundo não vai mais ignorar a África", prevê o escritor.
"Minha casa é um pedaço da África no Brasil" 
No debate intitulado "Brasil e África: entre tradições e modernidades", Katulwende dividiu a mesa com a ativista brasileira da cultura negra e escritora, Raquel Trindade. Filha do escritor e ator Solano Trindade, a escritora transformou o debate em um daqueles momentos aconchegantes em que os mais novos sentavam ao redor dos mais velhos e passavam horas escutando as histórias de seu povo. As vivências com o pai comunista, a mãe presbiteriana e a vida no teatro e na dança tornaram-se vivas. "Minha casa é um pedaço da África no Brasil", disse.
Raquel lamentou o senso comum que se criou no país de achar que tudo que é africano é inferior. "Infelizmente, a gente vê a mídia modificar as coisas de origem africana. O que me dá mais tristeza, por exemplo, é ouvir a palavra 'axé music'. Axé é uma energia de dentro do candomblé que não podia ser deturpada", protestou.
Sobre a realidade do negro no Brasil, Raquel comemorou o crescimento e maior apoio para produção cultural negra no país. Por outro lado, lamentou os impactos que a discriminação racial ainda fazem na sociedade.
 
Trindade: "A gente tem uma coisa muito boa que chama resistência!"  | Fotos: Aimê Uehara 
"Eu sempre soube que tinha muita discriminação, como todo negro brasileiro. Mas eu tive uma orientação tão forte de meus pais que ninguém consegue me derrubar através da discriminação. Eu sou mulher, negra, nordestina e do candomblé, e casei muitas vezes. Para todos os tipos de discriminação acho que a gente tem uma coisa muito boa que chama resistência!", enfatizou.
Ainda no final de sua fala, Raquel resgatou as letras de seu pai recitando os poemas "Eu sou negro" e "Navio negreiro", tirando muitos aplausos dos presentes, que lotaram dois andares da Biblioteca Mario de Andrade.
Programação 
O "Festival Afreaka: encontros entre Brasil e África Contemporânea" é realizado através da parceria entre o projeto Afreaka e a Biblioteca Mário de Andrade, no centro de São Paulo.
As atividades continuam até o dia 27 de junho e incluem exposições, fotografias, sessões de cinema e workshops sobre arte e tecnologia. Mais informações estão disponíveis no site do festival: www.afreaka.com.br/festivalafreaka
Postar um comentário