LULA PRESO POLÍTICO

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segunda-feira, 15 de junho de 2015

EU E A TV, A TV E EU - POR EUGÊNIO AFONSO

É SEMPRE BOM PERCEBER QUE A TELEVISÃO É TÃO SOMENTE MAIS
UM MEIO DE COMUNICAÇÃO CHEIO DE FALSAS PROMESSAS. NADA ALÉM

Por Eugênio Afonso*, via Trabalhador da Notícia

Quando eu nasci não existia televisão. A gente ocupava o tempo e se divertia de várias outras formas. Daquelas maneiras que todo mundo já sabe, sobretudo quem nasceu em cidade do interior e morou em casa. Era o dia inteiro grudado nos vizinhos, subindo em árvore, batendo lata, correndo, se escondendo, andando de bicicleta, montando a cavalo...enfim...ocupando a infância.

Um dia, assim como quem não quer nada, a TV chega sorrateira e se instala nos lares, inclusive no meu. Mas, sabe-se lá porque cargas d’água, nunca me prendeu. Nunca me fascinou, nunca conseguiu me entreter o suficiente para que eu achasse que valia a pena abrir mão da minha vida de brincadeiras. Aí eu, sem perceber o fascínio da novidade, continuava na casa dos amigos esperando por eles para dar prosseguimento à vida. Mas já não era tão fácil. Todos estavam embevecidos e com os olhos grudados naquela tela hipnotizadora.

E olha que a TV, naquela época, era em preto e branco, tinha uma programação mínima de, no máximo, três a quatro horas por dia, e falhava o tempo todo. O melhor era quando saía do ar e ficava chuviscando.

Hoje, a TV é colorida, tem programação 24 horas em alta definição, existe em todos, ou quase todos, os lares brasileiros, e exerce um fascínio absoluto e diabólico. Tem gente que tem TV até no banheiro. O objeto passou a ser um utensílio imprescindível em todos os lares, assim como a geladeira, o fogão e a cama. Não há casa sem TV, a não ser a de alguns poucos, pouquíssimos, seres que têm medo de ficar burro, burro demais, como diz a canção. Uma questão mesmo ideológica.

Pronto. A TV existe e faz parte dos lares brasileiros. Constatação. Fato. Mas por que ela está presente também, em todos, ou quase todos, os não-lares tupiniquins? Hein? Por que? Não há restaurante, bar, salão de beleza, sala de espera, banca de revista, aeroporto, rodoviária, lanchonete, em que não esteja lá em local de destaque, reluzindo, o querido, queridíssimo aparelho de TV.

Mas me conta uma coisa. Quando a gente se dispõe a sair de casa não é com o intuito de estar em um novo ambiente com uma nova gente para respirar novos ares? É ou não é? A ideia não é criar um novo momento para a sua vida, diferente, para que você possa voltar pra casa reabastecido? É ou não é?

Então por que a TV está lá onipresente gemendo, sapateando, lhe observando e roubando de você um momento que deveria ser diferente e somente seu? Para que lembrar de casa nessa hora? Para que ver a novela ou o futebol? Com tanta gente em volta, ou mesmo sozinho, não seria muito melhor desanuviar, seduzir ou enlouquecer? Por que não aproveitar que já está na rua e sair mesmo de casa? 

Um belo dia, eu estava num restaurante especializado em pastas, em São Paulo, e, claro, lá estava ela, a TV, gritando, me perseguindo, implorando minha atenção. Imediatamente, chamei o garçom e perguntei se poderia desligá-la, no que fui prontamente atendido. Ninguém no restaurante chiou. E a comida, assim como a companhia, passou a ter um novo destaque. Fui obrigado a me ater mais aos dois e tudo ficou muito mais saboroso.

É sempre bom perceber que a televisão é tão somente mais um meio de comunicação cheio de falsas promessas. Nada além. Que você a consuma dia e noite, em sua casa, vá lá. Mas que eu seja obrigado a emburrecer entre picanhas e nhoques são outros setecentos. Fora de casa, quero somente olhares, abraços, beijos, comida, teatro, literatura, viagem, música e sexo. Sem testemunha.

*Eugênio Afonso é jornalista, especialista em comunicação para multimeios e colunista da Educadora FM e TVE
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