LULA PRESO POLÍTICO

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sexta-feira, 19 de junho de 2015

Qual o nosso problema?


Por Milly Lacombe, em seu blog
No dia em que no Brasil a Câmara dos Deputados aprovou a redução da maioridade penal a Hungria anunciou que vai construir um muro para evitar que sérvios entrem ilegalmente no país.
De comum, o governo Húngaro e a atual Câmara dos Deputados brasileira têm uma faceta ultra-nacionalista e conservadora (a Hungria é liderada hoje por um partido que Noam Chomsky chama de “virtualmente neonazista”, o Jobbik), características que quase sempre levam a atitudes que flertam com o fascismo.
Mas há outros muitos muros sendo erguidos pelo mundo com o objetivo de evitar migrações, e embora tenhamos comemorado como irmãos e cidadãos de um mesmo planeta a queda do muro de Berlim não fazemos nada em relação às notícias de muros sendo erguidos.
Qual o nosso problema?
O primeiro deles é o de nos deixar conduzir como gado pelas corporações, mídia entre elas.
Comemoramos a queda do muro de Berlim porque fomos doutrinados a acreditar que ela significava o fim do maléfico comunismo, esse sistema que, também fomos disciplinados a acreditar, come criancinhas (uma alegoria infantil, mas que colou durante muito tempo, e ainda cola. Já sobre o capitalismo escravizar e levar criancinhas à morte nada se fala).
O muro caiu e, com ele, avisaram, ia junto a Guerra-Fria e o risco de um apocalipse nuclear; acontece que o risco de uma guerra nuclear, dizem especialistas, ainda é altíssimo, talvez mais do que nunca — outro tema-tabu sobre o qual só se fala reservadamente.
Russia e Estados Unidos estão em conflito, China e Estados Unidos flertam com um, o Oriente Médio é um caldeirão, a Europa está a cada dia mais dividida, a Arábia Saudita bombardeia o Iêmen todos os dias, a Síria está se auto-destruindo incentivada pelos Estados Unidos, Israel, também com amplo apoio americano, se separa da Palestina erguendo muros e aprisionando a população de Gaza, Obama criou uma campanha terrorista de drones que sai pelo mundo assassinando qualquer um que o governo americano considere suspeito de um dia talvez fazer alguma coisa contra os Estados Unidos, e como rastro vai matando centenas de inocentes, crianças entre eles, até porque suspeitos são também inocentes até que se prove o contrário… O que exatamente acabou com a queda do muro de Berlim?
A África, devastada depois de séculos de exploração e guerras financiadas pelos Estados Unidos e aliados, vê parte de sua população tentar escapar para a Europa, e centenas morrerem afogados na tentativa. Trata-se de uma tragédia humana, de uma história de puro horror. 
Em 2009, os Estados Unidos apoiaram um golpe em Honduras e o país mergulhou numa crise. Hoje, centenas de hondurenhos tentam fugir e entrar ilegalmente nos Estados Unidos. Por lá, chamam isso de crise imigratória porque colocam o foco, claro, no país rico. A crise é humanitária e o foco deveria estar no país oprimido e devastado pelo imperialismo americano.
Na década de 90 Estados Unidos, Canadá e México firmaram acordo comercial – o NAFTA – que ajudou a oprimir ainda mais a população miserável do México. Na mesma época, e não a toa, as fronteiras americanas foram reforçadas e militarizadas porque era apenas sabido que os mexicanos tentariam escapar da dureza que um acordo comercial que favoreceria empresários, corporações e o poder do capital.
Criamos um mundo com 60 milhões de refugiados, ou 1 em cada 122 pessoas, segundo dados mais recentes divulgados pela ONU.
A Itália, que anda resgatando os africanos que se afogam durante tentativa de deixarem seus países avisou que não pode mais lidar com isso. E a União Europeia lava as mãos, e a tendência é que outros horrores aconteçam e que essas pessoas sejam esquecidas para morrerem em alto mar.
Pouco se fala também do tipo de desespero que leva alguém a largar tudo para trás e tentar escapar de algum lugar. O drama humano não importa, o que vale é erguer muros e impedir que pobres entrem.
E assim se escalona o racismo, o fascismo e todo o tipo de separação entre cidadãos do mundo.
Como chegamos a esse ponto já tendo testemunhado horrores como o nazismo, a escravidão, os apartheids, os genocídios africanos… ?
Quantos inocentes mais terão que morrer para que entendamos que o problema é o sistema, que a crueldade é a fúria pelo lucro e pelo acúmulo de capital e bens, que a desumanidade é darmos a corporações a honra de serem tratadas como seres-humanos e tratarmos seres-humanos como commodities que podemos avaliar, recusar e jogar fora?
Vivemos dentro de um sistema no qual países ricos devastam, escravizam e exploram países pobres e depois fecham as portas quando seres humanos desesperados tentam escapar das distopias criadas pelo explorador.
Um sistema que marginaliza, discrimina e exclui pessoas de baixa renda, que ao mesmo tempo vende a eles a noção de que só o consumismo justifica uma vida feliz, e depois lida com isso encarcerando crianças.
Um sistema baseado em capital e exploração e acúmulo e que criminaliza a pobreza não vai nos elevar a um lugar de mais significado; não vai nos elevar a lugar nenhum na verdade.
“As paredes protegem, mas também limitam”, escreveu a inglesa Jeanette Winterson. Ao aplaudirmos a criação de muros e  grades estamos nos limitando e separando e apenas isso.
A cada muro erguido um pouco de todos nós morre; e se houver anjos e paraíso e uma fonte de amor única eles estão, nesse instante, chorando.
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