LULA PRESO POLÍTICO

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quarta-feira, 21 de outubro de 2015

General faz comício para a tropa

Divulgação / Exército Brasileiro
General Antonio Hamilton Martins Mourão

Por Antônio David, via Carta Maior

A pior de todas as corrupções é quando servidores públicos ameaçam a democracia. Da última vez que isso ocorreu, o resultado foi 21 anos de corrupção

Uma das vantagens da crise política atualmente em curso no Brasil, se é que dá para chamar isso de vantagem, é o fato de não haver risco de interferência militar como em tempos passados. 
 
Ao menos, é o que parece.
 
Isso não impede que militares da ativa resolvam por vezes ter insights saudosistas. 
 
A Folha de S. Paulo noticiou que o general Antonio Hamilton Martins Mourão, que comanda o Exército na região sul, teria dado declarações a subordinados seus, do quadro de oficiais da reserva, em palestra oficial, que de longe extrapolam as competências do Exército Brasileiro.
 
Tendo clamado pelo "despertar para a luta patriótica" em nome de "bons costumes", e tendo criticado a maioria dos políticos, que, segundo o general, "vendem grandes ilusões" aos eleitores, ele teria afirmado que "mudar é preciso" - numa alusão explícita à presidência da república.
 
O general teria feito a ressalva de que "a mera substituição da PR [presidente da República] não trará uma mudança significativa no 'status quo'", para, logo em seguida, acrescentar: "a vantagem da mudança seria o descarte da incompetência, má gestão e corrupção".
 
Em um dos slides, o general prevê quatro cenários para a crise: "sobrevida", "queda controlada", "renovação" e "caos". A reportagem não informou o que na prática cada um desses termos significa. Note-se que a normalidade institucional está fora de questão para o general. 
 
Quem seria o portador da "renovação"? Seria Aécio Neves portador dos "bons costumes" reclamados pelo general? Não sabemos. 
 
Políticos de hoje e de ontem - O general Mourão falou da maioria dos "políticos de hoje", mas o que ele teria a dizer dos políticos de ontem?
 
Ele parece ignorar que os políticos de ontem, civis e militares, não precisavam "apresentar grandes ilusões" aos eleitores, nem grandes nem pequenas, simplesmente porque durante muito tempo não houve eleitores livres no Brasil.
 
O general parece também ignorar que, se hoje graves escândalos de corrupção vêm à tona, e se deles sabemos, se são investigados e se os responsáveis são punidos, é porque existem no Brasil de hoje Poder Judiciário, Ministério Público e Polícia Federal livres e autônomos, além de liberdade de imprensa. Pelo menos, assim é em face de governos do PT. 
 
Nada disso existia na época dos políticos de ontem.
 
Quem investigou, apurou, noticiou e puniu a "incompetência", a "má gestão" e a "corrupção" dos generais-ditadores? O general talvez não acredite, mas muito foi roubado naquele tempo. Só que ninguém apurou, ninguém noticiou, ninguém soube. Diferentemente do Chile, onde se soube quanto o ditador Pinochet roubou, aqui no Brasil os generais ficaram impunes não só pelas torturas e assassinatos (isso também é corrupção!), mas também pelo que foi roubado.
 
Coisa fechada - Questionado pela reportagem, a emenda oferecida pelo general Mourão saiu pior do que o soneto: "Era uma coisa fechada e não para se tornar uma coisa política". 
 
Ah bom! Como era fechada, então tudo bem! Como era fechada, então pode! Afinal, o Exército Brasileiro não é uma instituição pública, com deveres estritos e regulados por lei, mas uma "irmandade" - para usar a expressão empregada por ninguém menos do que o comandante do Exército Brasileiro há alguns dias.
 
Mas não. O Exército Brasileiro não é uma irmandade. Só seria se fosse de propriedade dos oficiais militares. Ocorre que todas as instituições públicas pertencem ao povo brasileiro. Inclusive as forças armadas. Oficiais militares são servidores públicos. E onde há servidores públicos não deve haver lugar para "coisas fechadas", como, aliás, ocorreu na Petrobrás.
 
Enfim, o general não parece saber que a "coisa fechada", o segredo, é a antesala da corrupção - não só dessa, da Petrobrás, mas de todas as formas de corrupção.
 
A pior de todas as corrupções é quando servidores públicos esquecem quem são e, em nome dos "bons costumes", ameaçam a democracia. Da última vez que isso ocorreu, o resultado foi 21 longos anos de corrupção impune.
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