LULA PRESO POLÍTICO

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domingo, 15 de novembro de 2015

A tragédia em Mariana é um triste e fiel retrato do mundo atual

Obra da Samarco, via FHC

Por Milly Lacombe, em seu blog
Não fosse a tragédia causada pelo rompimento de duas barragens em Mariana, Minas Gerais, ficaríamos sem saber da ligação indecente entre a mineradora Samarco, responsável pelas barragens, e o Governo do Estado de Minas. Foi preciso que um acidente histórico acontecesse para que pudéssemos entender a relação entre o estado e a corporação de forma mais educativa.
Uma relação tão íntima que o Governo estadual, que passou dez anos com o staff do PSDB e desde janeiro desse ano está nas mãos do PT, não hesitou em conduzir um coletiva de imprensa, ou mais de uma, de dentro da sede da empresa, nem em montar o centro de operações de busca e resgate também dentro da Samarco (como referência futura, a Vale tem 50% da Samarco). É a privatização da gestão de uma tragédia.
Ao agir assim o Governo mostra a intimidade que tem com a mineradora e exclui a população de participar ativamente do processo. Como ainda há dezenas de desaparecidos, há também centenas de pessoas angustiadas para saber o que exatamente aconteceu com parentes, amigos, conhecidos.
O povo de Minas não elegeu para governar o Estado, e nem para a prefeitura de Mariana, o quadro de acionistas e o corpo diretor da Samarco, mas é como se o tivesse feito porque há muitos anos a decisão sobre como a empresa atua e impacta a região – social e ecologicamente falando – é feita por uma dúzia de homens que forma o corpo diretor da Samarco (todos bastante ricos é de se esperar já que se trata de uma corporação que lucra mais de 2 bilhões por ano) e afeta a vida de milhares de seres humanos.
Quem decidiu, por exemplo, não viabilizar um sistema de alarmes que alertasse a população sobre eventuais rompimentos? Provavelmente foi uma decisão dessa dúzia de homens que fazem parte do corpo diretor da Samarco, e uma investigação séria esclareceria a dúvida. Quem decidiu ignorar os relatórios que apontavam riscos na condução do negócio? Quem decidiu aumentar a produção em quase 10 toneladas em 2014 e acumular assim muito mais rejeitos nas barragens? Quem decidiu não reforçar as barragens? Tudo será apurado?
Esperamos que sim, mas esse filme é velho e sabido: em questão de dias o nome da Samarco sairá do noticiário, como saíram os do HSBC e da Volkswagen, e esqueceremos o que aconteceu em Mariana. A julgar pelo desespero verbal de políticos para evitar que joguemos lama sobre a Samarco (Aécio, Fernando Pimental etc) é bastante provável que jamais saibamos o que de fato aconteceu.
A mineração é uma das indústrias que mais afeta a vida na Terra, destruindo ecossistemas e colaborando para o aquecimento global em nome do lucro rápido e farto e da distribuição de dividendos a acionistas e diretores. É também uma daquelas indústrias que menos sofrem regulações de governos federais, que deveriam intervir para ditar o ritmo da exploração do solo, ou até para impedi-lo por completo diante das evidências científicas que mostram que se seguirmos nessa toada não duraremos mais muitas gerações por aqui (a propósito, foi o idolatrado FH que abriu a via expressa para que mineradoras se sentissem muito à vontade para sair violentando o solo brasileiro e pudessem lucrar mais e mais, e no final desse texto tem o link para o Viomundo, blog de Luiz Carlos Azenha, que esmiuça a questão).
Outro aspecto que merece ser observado diz respeito ao comportamento da imprensa de massa.
O rompimento das barragens em Mariana jogou toneladas de lama e de rejeitos no Rio Doce, a bacia hidrográfica mais importante da região Sudeste do país. A Samarco diz que esses rejeitos não fazem mal a saúde, a imprensa escreve o que a Samarco diz e seria hora de nos perguntarmos se a Samarco é que deve que ser a fonte para a informação.
Por que não interessa à imprensa corporativa ir atrás de outras fontes? Basta escutar o que a Samarco diz a respeito da segurança em relação à saúde pública?
Alguém imagina um porta-voz da Samarco dizendo o oposto? Tipo: “Lamentamos informar que os rejeitos são altamente tóxicos e que não há como prever que mal farão, a curto, médio e longo prazo, às populações da região”. Não seria adequado, portanto, investigar essa questão mais a fundo?
A parceria entre a Samarco e o Estado de Minas é um pequeno retrato do que acontece no mundo atual: esse pornográfico dueto entre governos e corporações.
Os Estados Unidos vendem a imagem de que a preocupação máxima da nação é defender a democracia no mundo. Em nome de exportar a democracia para países comandados por tiranos lançam-se em guerras e guerras. Para justificá-las haja propaganda e mensagens comoventes a respeito de “nossas tropas estão lá fora lutando pela liberdade”. Uma análise rápida e superficial mostra que acreditar nesse blá é tão constrangedor quanto achar que o Sol não é o centro do sistemas solar. As tropas estão lá fora para garantir o lucro das corporações que financiam as eleições americanas.
E se Obama de fato estivesse preocupado com a democracia já teria invadido a Arábia Saudita, talvez a maior ditadura no mundo hoje. Mas, em vez de declarar guerra ao sheik saudita, Obama o recebe com pompa na Casa Branca porque, afinal, são parceiros de negócios e diante da possibilidade de lucro que se dane a população oprimida pelo sheik.
É também em nome do lucro farto e rápido que as corporações financiam eleições e governos e fazem leis que as protegem. A vida dentro de uma corporação é tirânica por princípio: um grupo de uma dúzia de pessoas mandando em centenas (às vezes milhares) de funcionários que não têm poder de voto para escolher quem os comandará e que são obrigados a seguir um padrão de conduta rígido sob pena de serem mandados embora. O que há de democrático dentro de uma corporação? Se você já trabalhou em uma sabe que absolutamente nada.
E são elas, e mais ninguém, que mandam no mundo hoje. Como então falar em democracia se quem possui o poder político e econômico mundial são arranjos tirânicos?
O teatro de “vamos eleger quem nos governa de quatro em quatro anos” já não cola mais porque todos os governos estão de braços dados com os interesses do capital privado.
Os governos de direita fazem isso em graus indecentes, os mais à esquerda em graus ainda acanhados, mas também bastante curvados às corporações, que criam as leis, sambam sobre as togas do judiciário e seguem acumulando capital nas mãos de pessoas que nem sabem mais o que fazer com tanto dinheiro.
Um mundo no qual 70 homens têm a mesma riqueza que 3,5 bilhões de pessoas não pode estar no caminho certo. A tragédia da Samarco é a triste caricatura da vida na terra hoje.
Texto de Luiz Carlos Azenha aqui.
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