LULA PRESO POLÍTICO

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quinta-feira, 12 de novembro de 2015

Um mundo de 7 bilhões de suspeitos


Por Milly Lacombe, em seu blog
Estamos sendo vigiados sob o pretexto de que a vigilância em massa é feita para nossa segurança – a despeito das evidências que provam que vigilância em massa jamais evitou crime ou atentado. Não saberíamos da extensão dessa vigilância não fosse Edward Snowden, cujo documentário feito por Laura Poitras e Glenn Greenwald deveria ser obrigatório.
Mês passado Greenwald, Snowden e ativistas lançaram uma campanha que visa chamar a atenção para o problema.
A proposta é criar um tratado internacional que nos proteja da vigilância em massa – e proteja todos aqueles que se sentirem compelidos a expor a vigilância, como fez Snowden. O nome é barroco, mas preciso: Treaty on the Right to Privacy, Protection Against Improper Surveillance and Protection of Whistleblowers, que fica apelidado de “O Tratado de Snowden”.
O tratado exigiria que Estados acabassem com a coleta de dados em massa e implementasse um sistema público de supervisão de programas de segurança nacional.
Hoje as despesas em nome da segurança nacional e em programas de “inteligência” do governo americano é de 52 bilhões de dólares.
O dinheiro grosso desse orçamento é gasto em duas frentes: coleta de dados e análise de dados coletados, uma parceria da CIA com a Agência de Segurança Nacional, a NSA: a primeira coleta, a segunda analisa (veja ao final desse texto matéria do Washington Post sobre o que é conhecido como “Black Budget”)
Não estamos longe do dia em que, por exemplo, um passageiro ordinário será impedido de embarcar em um voo sem sequer saber por que ele está sendo impedido de embarcar, e apenas por ser considerado uma ameaça à segurança nacional devido a emails enviados, ou telefonemas dados, ou locais visitados – tudo analisado secretamente pelos serviços de “inteligência”.
1984 de George Orwell é agora, e bizarramente não acontece em estados totalitários, mas nos chamados “democráticos”. É a inversão máxima da pressuposição de inocência: atualmente somos todos suspeitos até que se prove o contrário.
Na Austrália, por exemplo, uma nova lei obriga empresas de Internet e Telecomunicações a reter a meta-data de seus consumidores – incluindo o local dos aparelhos e os endereços de IP – por dois anos. De acordo com a nova lei, o governo australiano pode acessar esses dado, e fazer o que quiser com eles, sem nenhum tipo de autorização formal.
“O que isso significa é que eles estão observando todas as pessoas o tempo inteiro, coletando informação, empilhando-as para que sejam reviradas quando eles quiserem e depois podem compartilhar isso com outras agência de inteligências internacionais. A despeito de você estar ou não fazendo alguma coisa errada, você está sendo observado”, disse Snowden sobre a nova lei.
Desde o 11 de setembro, estima-se que mais de 500 bilhões de dólares tenham sido gastos em programas de “inteligência” pelo governo americano. Até aqui houve apenas um resultado efetivo dessa vigilância em massa: um taxista de Nova York foi pego transferindo 8.500 de dólares para um grupo extremista na Somália. Sei que soa como piada, mas não é.
“Proteger o direito à privacidade é vital não apenas por definição, mas também porque é uma exigência essencial para o exercício da livre opinião e expressão, o mais fundamental pilar de uma democracia”, dizem os ativistas por trás do projeto.
Em video, Snowden alerta para o que está acontecendo: “As mesmas táticas que a Agência de Segurança Nacional e a CIA usam em lugares como o Iêmen estão migrando para a América para serem usadas contra criminosos comuns e pessoas que não representam nenhuma ameaça à segurança nacional”.
Para deixar tudo ainda mais grotesco, a relação entre governos e corporações quando se trata do compartilhamento dos dados coletados é, para dizer o mínimo, imoral.
Bruce Schneier, especialista em segurança de computadores e que há dez anos investiga essa relação, diz que nunca antes os Estados Unidos atingiram esse nível de controle e vigilância sobre a população, e que a parceria entre a vigilância que o governo faz e aquela que as corporações fazem precisa ser debatida urgentemente.
Sobre isso ele fez um livroData and Goliath: The Hidden Battles to Collect Your Data and Control Your World, ou, em tradução livre, “As batalhas secretas para coletar seus dados e controlar seu mundo”.
Portanto, enquanto gastamos nosso tempo debatendo o voto no político A ou no B, nutridos pela ilusão de que existe grande diferença entre eles, deixamos de perceber que já vivemos em uma plutocracia, e que o poder não está nas nossas mãos, mas nas mãos de uma parceria secreta entre governos e corporações.
Para que essa parceria funcione é preciso que nos mantenham amedrontados porque assim exigiremos segurança e aceitaremos abrir mão da liberdade – o cenário ideal para que continuem a lucrar.
A fim de nos manter amedrontados entra em cena o quarto poder: o noticiário, que tem papel fundamental na difusão do medo. A partir daí, todos nós devidamente confinados à passividade que o medo gera, o jogo está armado para quem pode ganhar com ele.
Enquanto esse jogo sórdido faz com que o dinheiro siga sendo acumulado na mão de 1% da população, estamos, você e eu, no picadeiro uivando em defesa do candidato A ou do B, para deleite do 1% que sabe exatamente como nos manter ali e, ocupadíssimos em nos agredir e ofender, jamais olhar para o que estão fazendo.
Leia aqui matéria sobre o livro de Schneier feita pelo Blog Baixo Manhattan em março.
aqui matéria do Washington Post sobre o “Black Budget”.
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