LULA PRESO POLÍTICO

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sexta-feira, 20 de novembro de 2015

ZUMBI DOS PALMARES: O HERÓI ULTRAJADO

20 novembro 2015
20 de Novembro de 2015 – Rio de Janeiro – foto Lelette Coutto

Por Eduardo Paparguerius, via Mamapress

A inscrição do nome de Zumbi no Panteão da Pátria em Brasília como herói nacional ao lado do Duque de Caxias e do Almirante Tamandaré sintetiza de certa forma o que Zumbi representa para o inconsciente coletivo de nossa nação.

O líder negro parece figurar como um estranho no ninho entre latifundiários escravocratas e imperialistas, uma convivência que parece ser possível apenas no frio mármore do monumento da capital federal. Porém, no meu entender, a maior diferença entre eles não está na cor da pele, na condição social ou mesmo nas causas pelas quais lutavam, mas no desfecho de suas histórias.

zumbi-caxias-tamandaré

Caxias na fundação do exército brasileiro e Tamandaré comandando nossa gloriosa, e então poderosa, marinha de guerra foram líderes militares vitoriosos, que voltaram à pátria cobertos de glória, festejados pela imprensa, saudados pelo povo e pelo poder, objetos de todo tipo de homenagens, com suas figuras imortalizadas e até hoje estampadas nos livros de história. Zumbi ao contrário perdeu sua guerra, seu exército foi dizimado e seu povo escravizado, é um herói sem rosto, cuja morte não bastou aos inimigos que com a mutilação de seu corpo pareciam querer apagar a sua existência de nossa história.

Caso o Império Brasileiro não tivesse vencido a guerra contra Solano Lopez o que seria da memória de nossos líderes militares? Provavelmente uma pálida lembrança de comandantes derrotados, cuja expressão não resistiria ao tempo. Zumbi ao contrário, derrotado e trucidado, amaldiçoado pela Igreja e proscrito pelo poder colonial, vê sua memória ressurgir flamejante das cinzas como a fênix.

Líder guerreiro de uma federação de aldeias com vários milhares de almas, tendo que lidar com o Império Português e nações indígenas em suas fronteiras, Zumbi certamente jamais sonhou que poderia um dia vir a existir uma sociedade brasileira, independente, multirracial e democrática e muito menos que para ela viesse a se transformar em um ícone. Talvez Zumbi nem mesmo prezasse tanto assim valores que hoje associamos a sua figura como a luta pela liberdade e contra a discriminação racial, certamente a luta pela preservação e prosperidade do quilombo ou até mesmo pelo poder dentro de sua estrutura eram algo bem mais presente.

Pouco importa, pois não foi propriamente sua vida e obra, bem pouco documentadas, que serviram para gravar sua imagem em nossa memória, mas sim sua morte heroica, defendendo até o fim o último bastião de seu povo contra forças muito superiores da bandeira de Domingos Jorge Velho. Zumbi não é um herói com feitos militares ou administrativos a serem contados, Zumbi não é um herói que tenha descendentes conhecidos, Zumbi é um herói sem sobrenome, sem rosto, mas que deixou uma marca indelével na alma de nosso povo. Zumbi foi o herói que morreu combatendo a opressão.

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Diferente de Tiradentes executado cruelmente pelo Estado, após a infame traição que abortou a Conjuração Mineira, Zumbi morreu de armas na mão, liderando um exército de homens que lutavam pela liberdade de viver da terra com suas famílias contra um inimigo terrível que prometia a tortura e a escravidão. Com a morte heroica de Zumbi, a Serra da Barriga nas Alagoas testemunhou o surgimento de um mito.

Que figura mitológica pode ser mais importante para a sociedade brasileira atual que a de um líder negro, defendendo até a morte suas comunidades, santuários de liberdade e tolerância em um mundo brutal, nas fronteiras do escravismo e da antropofagia. Nenhum outro personagem de nossa história é capaz de trazer um simbolismo tão forte quanto Zumbi dos Palmares, provocando amor e ódio, incendiando paixões presentes na alma brasileira desde os primórdios de nossa história.

20 novembroreparação já

Quando Brizola e Darcy Ribeiro cravaram na principal via do centro do Rio de Janeiro um monumento a Zumbi ficou clara a diferença entre o líder quilombola e os demais heróis da pátria brasileira. Enquanto Caxias em sua imponente estátua equestre na mesma avenida, Tamandaré de seu alto pedestal divisando a Baía da Guanabara, ou mesmo Tiradentes anualmente lavado pelo corpo de bombeiros fluminense, ornamentam há décadas a paisagem carioca sem causar qualquer reação, incomodados apenas pelos pombos. A estátua de Zumbi em seus poucos anos de existência já foi alvo de diversos ataques de vândalos com motivações racistas.

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Que poder formidável tem a imagem do líder de um povo cuja memória é capaz de incomodar seus inimigos séculos após sua morte.

Zumbi não é um herói do passado cuja memória repouse em museus para ser contemplada pelos homens do presente como parte de um passado resolvido e acabado. Zumbi é um herói da atualidade e vai continuar a lutar, não mais em seu arraial nas Alagoas, mas dentro da consciência de cada um dos brasileiros até que seu bom combate seja vitorioso, até que a liberdade e a igualdade para todos deixe de ser um sonho para todos nós cidadãos brasileiros, herdeiros dos sonhos e da grandeza de Zumbi dos Palmares.

#Eduardo Paparguerius é professor, jornalista e artista plástico.
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