LULA PRESO POLÍTICO

LULA PRESO POLÍTICO

quarta-feira, 9 de dezembro de 2015

Para entender o chavismo que amanhã pode morrer

venezuela direita revolta conservadorismo
ÓDIOFernão Lara Mesquita, dono do jornal “O Estado de S. Paulo

Por Milly Lacombe, em seu blog
Se o assunto é Venezuela a opinião parece estar sempre formada. Para quem se alimenta de informação através de veículos de massa, e de nada além deles, o país é uma catástrofe e hoje em dia falta até papel higiênico.
A análise simplista, sempre a pior delas, decreta que a Venezuela não é uma democracia, que Chávez e Maduro instauraram a ditadura, que membros da oposição são presos e assassinados, que aliás quase não há oposição e que falta todo o tipo de produto para consumo por lá.
Eu não conhecia nada da política venezuelana até ir estudar um pouco. Sigo sem conhecer muita coisa, mas talvez já seja capaz de fazer uma análise que escape do simplismo e daquilo que nos é oferecido pela mídia corporativa. A fim de entender o chavismo temos que entender Hugo Chávez.
Para Jimmy Carter, o ex presidente americano e hoje humanista, Chávez pode ser considerado o político mais legitimamente eleito do planeta. Carter esteve algumas vezes na Venezuela para testemunhar e auditar as eleições e chegou a dizer que as eleições venezuelanas são as melhores do mundo. Na primeira vez que foi eleito Hugo Chavez levou a parada com 56% dos votos no primeiro turno.
Dizer, portanto, que não há oposição na Venezuela chega a ser embaraçoso, até porque nas eleições desse domingo, 6 de dezembro, a oposição tem tudo para se sair vencedora, acabando com quase duas décadas de chavismo.
Mas o mesmo chavismo que trabalhou para a emancipação da Venezuela e concedeu alguma dignidade aos mais pobres foi incapaz de se viabilizar como um sistema de unificação do país.
A Venezuela tem uma das maiores reservas de gás e petróleo do mundo, então não é preciso entrar em detalhes a respeito de que tipo de interesse os Estados Unidos têm pelo país. Durante muitos anos uma pequena elite venezuelana explorou os recursos naturais e extraiu sua riqueza, acentuando a marginalização dos pobres. Chávez acabou com isso, e a elite, naturalmente, o endemonizou.
Chávez levou medicina aos rincões mais pobres da Venezuela, trabalhou para que 98% das pessoas fizessem três refeições ao dia, abriu 22 novas universidades, aumentou consideravelmente o salário mínimo e diminuiu a pobreza pela metade. Mas, para o linguista, filósofo e ativista Noam Chomsky o chavismo talvez tenha sido destrutivo por não ter sido capaz de conectar os movimentos populares que permitiriam estender o êxito das mudanças sociais.
Chomsky também avalia que a corrupção e a incapacidade de se libertar de uma única fonte de exportação – o petróleo – contribuíram para que os ideias de Chávez não avançassem. Ainda assim ele reconhece que a emancipação ideológica e a integração continental alcançadas por Chávez têm especial valor.
Críticos do chavismo sempre levantam – com razão – preocupações humanitárias, como o aprisionamento da juíza María Lourdes Afiuni em 2009, movido pelo autoritarismo de Chávez, e o fato de Leopoldo Lopez, um dos líderes da oposição, estar preso há muitos meses.
Claro que o brutal aprisionamento da militar e delatora Chelsea Manning, que tornou público documentos secretos do governo americano, detida pela administração Obama de forma desumana e ilegal, e de a Anistia Internacional ter acusado o governo americano de torturar Manning, ou de a base militar americana de Guantánamo manter dentro de suas grades pessoas apenas suspeitas de terrorismo, muitas delas sem nunca terem sido sequer julgadas, não parece enfurecer aqueles que rapidamente saem gritando que Nicolas Maduro é um ditador por aprisionar oposicionistas.
Para mim, qualquer caso de privação de liberdade sem acusação formal, ou sem que haja julgamento é igualmente escandaloso. Então, quem chama Maduro de ditador teria o dever moral de se referir a Bush e a Obama da mesma forma.
Marta Harnecker é uma cientista política chilena que fez algumas entrevistas com Chávez e depois foi convidada por ele para ser uma de suas conselheiras (uma história sensacional que conto outro dia). Ela disse sobre Chávez na época em que conviveu com ele:
“Encontrei um homem sensível, simpático, autocrítico, reflexivo, com uma grande capacidade para escutar com atenção os comentários feitos. Apaixonado, com uma grande força interior. Me chamou especialmente atenção sua grande sensibilidade humana e sua genuína vocação popular. Adora suas filhas e filhos e é muito terno com eles. Não pode viver sem ter um contato direto e frequente com os setores populares mais humildes, onde sabe que reside sua maior força. Se sabe adorado pelo seu povo, mas quer reverter esse amor em organização e desenvolvimento autônomo. É um dirigente extraordinariamente humano. Todas essas virtudes não negam suas falhas. Ele mesmo reconhece que tem grandes dificuldades para trabalhar em equipe, perde facilmente a paciência, fere seus colaboradores, confia excessivamente em pessoas que não devia confiar, é incapaz de organizar sua agenda de forma racional, fala mais do que devia falar”.
Ainda a respeito dos benefícios do chavismo, na avaliação de Harnecker, “o aparato de saúde herdado era incapaz de atender aos setores sociais mais desvalidos por duas razões: em primeiro lugar, porque a maioria dos médicos e enfermeiras não tinham disposição para ir a lugares de difícil acesso. Preferiam trabalhar em seus confortáveis consultórios do centro da cidade. Em segundo lugar, não estavam preparados para dar atenção profissional necessária: não eram médicos integrais, mas apenas especialistas em alguma matéria. Constatando essa realidade, surgiu a ideia de criar a missão Bairro Adentro, que consistia em instalar consultórios nos morros, nos bairros populares e nos vilarejos rurais mais afastados. Enquanto se preparavam as futuras gerações de médicos venezuelanos para assumir essa tarefa, se solicitou a colaboração de médicos cubanos”.
A cientista-política lembra que outro aspecto importante da gestão de Chávez foi haver impulsionado a criação de uma estrutura legal para poder transitar pela via institucional até a construção de uma nova sociedade (a fim de consolidar legalmente a participação popular): “Isso tudo poderia ter ficado apenas como palavras se Chávez não tivesse promovido a criação de espaços adequados para que os processos participativos pudessem ocorrer plenamente”, ela diz.
A criação dos conselhos comunais (espaços comunitários auto-gestionados) foi fundamental para que a população participasse efetivamente da vida pública. Para ela, os conselhos de trabalhadores, estudantes e camponeses fizeram uma construção coletiva e geraram uma nova forma de Estado descentralizado. Ainda ela: “Construir com o povo significava para ele conquistar corações e mentes para o novo projeto de sociedade. E isso não se consegue através de pregações, senão com a prática: criando oportunidades para que o povo vá entendendo o projeto na medida em que vai sendo o seu construtor”.
Mas economicamente me parece que a Venezuela de Nicolas Maduro é de fato um caos, não sei dizer se por incompetência e pelo fato de o chavismo que nunca ter sido capaz de se livrar da dependência exclusiva do petróleo, mas não me parece razoável achar que a volta de políticas neoliberais farão o quadro mudar drasticamente e ainda manterão os avanços sociais conquistados pelo chavismo. Para Harnecker, o caminho para um resgate econômico venezuelano seria tornar eficientes as empresas que hoje estão nas mãos do Estado.
Em minha memória Chávez vai ser sempre o homem que em discurso na ONU chamou George Bush de diabo, uma afirmação que a história tratará de acolher quando os crimes de Guerra cometidos pelo ex-presidente americano, que levaram à morte mais de um milhão de iraquianos inocentes, forem devidamente divulgados.
E nunca deixarei de me intrigar com aqueles que não pensam duas vezes para chamar Chávez e Maduro de desumanos, mas fazem vista grossa para as atrocidades humanitárias cometidas por Bush e Obama.
Por fim, para entender o chavismo talvez Jimmy Carter fique com as últimas palavras. Quando Chávez morreu Carter escreveu o seguinte:
“Conheci um homem que expressava a visão de alcançar profundas mudanças em seu país em benefício dos negligenciados e marginalizados. Embora não concordasse com todos os métodos de sua administração nunca duvidei de seu comprometimento com a melhora da vida de milhões de seus compatriotas. O Presidente Chávez será lembrado pela forte afirmação de autonomia e independência latino-americana, por sua formidável capacidade de se comunicar e por sua conexão com aqueles que o apoiavam, dentro de fora da Venezuela. [Com ele] as taxas de pobreza da Venezuela caíram pela metade, e milhões de venezuelanos tiraram documento de identidade pela primeira vez, fazendo com que pudessem participar de forma mais efetiva da economia e da política”.
Nas eleições desse domingo 6 de dezembro o chavismo, para o bem ou para o mal, pode começar a morrer.
Postar um comentário