LULA PRESO POLÍTICO

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quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

Desprivatizar o Brasil...

Destruição da vila de Bento Rodrigues, em Mariana, provocada pela empresa Samarco, é
um testemunho do caráter predatório que os interesses privados têm no Brasil.

Por J.S. Faro, em seu blog

Sinto-me mais uma vez contemplado pela contundência de Eliane Brum no texto Tarifa não é dinheiro, é tempo publicado no El País: com rara clareza, a jornalista constrói minuciosamente uma argumentação que não deixa dúvidas sobre de que lado está a razão no embate sobre o aumento das passagens de ônibus e sobre o sofisma do custo privado do transporte coletivo - que é, antes de qualquer coisa, um equipamento que cria riqueza social. Ao final do texto, a conclusão é incontornável: não há qualquer justificativa para que o setor seja explorado comercialmente por empresas particulares.

O transporte coletivo é apenas um dos setores da vida brasileira que se encontram estrangulados pelo controle que sobre eles exerce o interesse do capital. Agora mesmo, não satisfeito com o passa-moleque que tomou do consórcio "responsável" pelas obras da linha 4 do metrô, o governador Geraldo Alckmin foi humilhado mais uma vez e repetiu o papel de bobo da administração pública: as empreiteiras Andrade Gutierrez e C. R. Almeida abusaram de tal forma do descaso pela obra - pela qual foram regiamente remuneradas - que o Estado não teve alternativa senão cancelar o contrato da construção do monotrilho que levava a Guarulhos.

São dois exemplos que nos servem de metodologia para o entendimento da natureza da crise brasileira mas que estão bem longe de conseguir representar a condição de reféns em que Estado e Sociedade vivem: trata-se de um processo sistemático de transferência de renda que confina a estágios sempre menores a capacidade de investimento em setores relevantes para a vida nacional. 

Uma matéria da Folha de S. Paulo mostra como isso se transformou em elemento estruturante da ação governamental: imaginando que pudesse estimular o crescimento econômico através da renúncia fiscal, Dilma Rousseff terá brindado os empresários até o final do seu governo (em 2018) com a soma de R$ 458 bilhões em desonerações (R$ 116 bilhões só em 2016) - fato que responde pelo déficit primário que desequilibra todo o funcionamento da economia. Em resposta a esses privilégios o que houve foi uma retração de investimentos que culmina agora no péssimo desempenho do PNB. Em outras palavras: os beneficiários da crise foram os que a criaram. O símbolo dessa armação é o presidente da Fiesp, Paulo Skaf, uma espécie de líder do parasitismo do empresariado brasileiro.

O resultado desse contexto é um país inviabilizado pois não há nenhum elemento dinâmico capaz de retomar os estímulos que permitam à economia dar sinais de vitalidade. Não é por outro motivo que o Brasil é visto hoje no cenário internacional como um país em liquidação: em 2015, chegou a 51% a proporção de empresas estrangeiras que participaram de transferências de empresas nacionais para o exterior. Para 2016 esse percentual deve chegar a 55% (leia aqui). É um círculo mais que vicioso: essa desnacionalização progressiva cobra o preço anual da remessa de lucros - um processo secular de sangria dos recursos nacionais que o Brasil sofre desde a época colonial: só nos últimos dois anos foram US$ 52 bilhões enviados a outros países que acabamos por irrigar com nossos recursos. Uma ironia que os neoliberais se envergonham de reconhecer. 

O Brasil precisa ser desprivatizado pois que a perda da soberania do Estado sobre os rumos da economia nos condiciona a um processo de desarticulação social e política com consequências dramáticas a médio prazo. 
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