LULA PRESO POLÍTICO

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segunda-feira, 11 de janeiro de 2016

“O novo ministro da Saúde é uma marionete do capital privado”, afirma médico

everton

Profissional do “Programa Mais Médicos” em comunidades indígenas de Roraima, Everton Walczak avalia troca no ministério como um retrocesso à saúde pública brasileira e sentencia: “o programa não é de nenhum partido, ele é do povo”.


Muitas mudanças ocorreram desde a primeira entrevista de Everton Walczak ao Brasil de Fato, quando havia acabado de receber a notícia de sua aceitação no “Programa Mais Médicos”.

Em junho deste ano, Everton entrou na lista dos 387 médicos brasileiros formados no exterior que ingressariam na equipe de profissionais do programa – atualmente com 18.240 profissionais.
Passados quatro meses, o paranaense relata nesta nova entrevista sua experiência no atendimento de nove comunidades da etnia Ingaricó, residentes da terra indígena Raposa Serra do Sol.
A rotina de trabalho não é fácil, mas “o sorriso e a simplicidade das pessoas superam qualquer cansaço”. Acompanhado por uma equipe formada por enfermeiros, agente de saúde e dentista, Everton passa quinze dias viajando de avião por comunidades ilhadas da capital do estado, Boa Vista (RO).
Nas aldeias, aproximadamente 90% dos seus 1.500 pacientes são atendidos por meio da intermediação de um tradutor. Apesar disso, “a receptividade foi enorme” à chegada do primeiro acompanhamento médico contínuo na região.
Para Everton, estes primeiros meses de atuação no Mais Médicos apenas provaram a necessidade de “continuação e ampliação” do programa, que considera fundamental para a saúde dos moradores das áreas isoladas do país, onde poucos médicos se predispõem a trabalhar.
Entretanto, a mudança no comando do Ministério da Saúde preocupa Everton, que considera a entrada de Marcelo Castro (PMDB – PI) no Ministério da Saúde um retrocesso que ameaça a conservação das políticas do ex-ministro Arthur Chioro (PT-SP). “O que eu vou falar da mudança de uma pessoa que defende o SUS para uma pessoa que defende os interesses das grandes empresas privadas de saúde?”
Confira a entrevista:
Você entrou no Programa Mais Médicos no meio deste ano (2015). Como você avalia esses primeiros meses de atuação?

Depois de anos de estudo em Cuba e mais seis meses de espera em São Paulo, entrei para o Programa Mais Médicos em junho deste ano. No início, passei cerca de dois meses em treinamento na cidade de Brasília e, logo em seguida, fui encaminhado para a região norte do país, onde a maioria dos médicos prefere evitar. Atualmente, estou trabalhando no Distrito Sanitário Especial Indígena Leste, no município de Uiramutã, em Roraima. Esta área está localizada dentro da região conhecida como Raposa Serra do Sol, que já foi palco de amplos conflitos territoriais há alguns anos. A experiência está sendo muito gratificante, porque eu realmente acredito que o meu trabalho está contribuindo para melhorar a vida das pessoas.

Como é a sua rotina de trabalho?

Integro uma equipe que reúne dentista, auxiliar de dentista, enfermeiro, técnico de enfermagem, técnico de enfermagem especializado em imunização e agente de saúde indígena. Esses profissionais são subordinados à Secretaria de Saúde Indígena (Sesai), que acompanha todo o processo. A cada quinze dias, pegamos um avião em Boa Vista [capital de Roraima] e peregrinamos entre as nove comunidades indígenas da etnia Ingaricó, oferecendo atenção primária a uma população de aproximadamente 1.500 pessoas. Cerca de 90% das minhas consultas são feita com a intermediação de tradutor indígena, porque as maiorias dos meus pacientes não falam o português.

Qual foi a recepção das populações indígenas ao atendimento médico?

Os Ingaricós, por exemplo, haviam recebido apenas um médico que não ficou por muito tempo na comunidade. Eles nunca haviam tido atendimento médico contínuo. Talvez por isso, a receptividade foi enorme. Você consegue notar, ao mesmo tempo, a satisfação e a carência do povo pela atenção básica de saúde. E, pessoalmente, eu sinto um prazer muito grande em contribuir com essas populações de regiões isoladas. Mas, não é para qualquer pessoa essa rotina, ou falta de rotina, que pressupõe passar quinze dias viajando pela floresta amazônica, dormir em rede, levar picada de mosquito e comer os alimentos que você consegue levar no avião. Essa é uma jornada de trabalho cansativa, mas que eu considero extremamente gratificante. Você ver o sorriso e a simplicidade das pessoas ao receber um tratamento, que é direito de todo brasileiro, superam qualquer cansaço.

Como você esta trabalhando a dualidade entre a medicina tradicional e indígena?

Para o profissional se deslocar até uma área indígena, ele tem que entender um pouco desse povo, estudar um pouco de antropologia. O médico precisa saber que ele não está lá para mudar os costumes desse povo, mas apenas para ajudar. Eu incentivo muito a medicina deles e sempre exalto o pajé, que é uma figura mítica para eles. Em nenhum momento eu vou dizer “o pajé está errado, eu estou certo”. Eu sempre tento trabalhar as duas coisas em conjunto. Sempre tento trabalhar no sentido de preservar a cultura indígena. A mata tem muito a oferecer aos homens e os indígenas são os maiores conhecedores dessa riqueza. Nesta semana, começamos em São Paulo uma especialização em Saúde Indígena que está contribuindo muito para a nossa formação. Nós temos que tratar com equidade a saúde indígena, porque ela é diferenciada da nossa. Precisamos entender que a saúde não está alheia à organização social de uma sociedade.

Na primeira entrevista ao Brasil de Fato, você afirmou que “a maioria dos médicos não se preocupa com o povo da periferia e do campo”. Essa postura está mudando com o Mais Médicos?

Praticamente não existia a presença de médicos nessas áreas onde eu atuo, por serem zonas de difícil acesso. Graças ao programa está ocorrendo uma cobertura, apesar de não ser a ideal. No meu polo atuam 18 médicos, por meio do Programa Mais Médicos. Apesar disso, ainda existe uma carência de 24 profissionais na região. A gente tem que abrir o olho para o fato de, ainda hoje, existirem milhões de pessoas no Brasil que não recebem atenção básica de saúde. E ainda está longe de alcançarmos a universalização do atendimento. O programa é um sucesso e tem que seguir avançando.

Você considera que a mudança no Ministério da Saúde pode comprometer o Mais Médicos?

O Chioro [Arthur Chioro foi ministro da saúde entre 2014 e 2015] é uma pessoa que defende o SUS. O que eu vou falar da mudança de uma pessoa que defende o SUS para uma pessoa que defende os interesses das grandes empresas privadas de saúde? Uma pessoa que é apadrinhada pelo deputado federal Eduardo Cunha que, por sinal, foi financiado pelo Bradesco Seguro na última campanha eleitoral? A pergunta é: esse ministro vai defender qual interesse? O interesse do SUS, que é destinado ao povo que realmente necessita dessa atenção, ou os interesses do capital? O Chioro estava fazendo um excelente trabalho e eu considero a troca muito negativa. Na minha visão, o novo ministro da saúde é uma marionete do capital privado.

Para além da troca de ministro, o PMDB também lançou a Agenda Brasil, que pode prejudicar a saúde pública.

Nosso Sistema Único de Saúde [SUS] ainda tem muito que melhorar, mas cabe somente a nós essa mudança. O sistema privado tem apenas um fim: lucrar. Em contrapartida, o SUS tem como objetivo ajudar as pessoas. Essa Agenda Brasil é um enorme retrocesso ao povo brasileiro. E quem vai sentir as consequências dessas medidas não vão ser as pessoas que têm dinheiro para pagar um plano de saúde. Setores conservadores pretendem transformar a saúde pública brasileira aos moldes dos Estados Unidos, onde só se consegue atendimento se você tem dinheiro. O povo mais carente que vai pagar a conta se essa ofensiva se concretizar.

Qual a sua visão do Mais Médicos depois desses meses de atuação?

O programa coloca médicos onde ninguém quer trabalhar. Ou melhor, onde os médicos das grandes capitais não querem trabalhar. No caso da saúde indígena, especificamente, todos os médicos que atuam naquela região são contratados pelo Mais Médicos. Nenhum outro profissional se dispôs a trabalhar nessa área. Nenhum médico aqui de São Paulo aceitou ficar 15 dias trabalhando nas aldeias de Roraima, porque preferem os salários e as condições das metrópoles. As pessoas que recebem o tratamento do Programa Mais Médicos que deveriam ser ouvidas em relação ao seu êxito ou fracasso. O Programa Mais Médicos não é de nenhum partido, ele é do povo. Ele é um programa das populações mais carentes que nunca tiveram assistência básica de saúde. Por isso, eu acho fundamental a continuação e ampliação desse programa. Pra mim, esse programa é fundamental muito antes da minha entrada, porque eu vim de uma comunidade do interior do Paraná ameaçada por uma hidrelétrica e sempre militei junto aos movimentos sociais. Não é nenhuma novidade, para mim, o descaso histórico do Estado em relação à saúde das populações residentes nos rincões do país.
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