Por Samarone Lima, via Marco Zero
No dia 20 de outubro de 1971, um nome aparecia como franco favorito para ganhar o Prêmio Nobel da Paz, que seria anunciado em Oslo, na Noruega: Dom Hélder Câmara, Arcebispo de Olinda e Recife.
Conhecido internacionalmente pela denúncia que vinha fazendo das torturas e crimes cometidos pela ditadura, que tomara o poder em 1964, Dom Helder sabia, através de contatos internacionais, que estava no páreo. Em uma de suas famosas Circulares Conciliares, cartas que escrevia aos colaboradores mais próximos, geralmente na solidão das madrugadas em seu quarto, comentou sobre seus sentimentos.
“Tenho que admitir a hipótese da loteria sair para o Recife. Na hipótese do faz de conta, o Nobel só valeria na medida em que ajudasse a marcha das ideias, que não são apenas minhas, mas nossas!” Após uma enorme expectativa internacional, foi anunciado o vencedor. Por três votos a dois, o Nobel de 1971 foi para o chanceler alemão Willy Brandt do Partido Social Democrata. Mais um voto, e o arcebispo brasileiro teria vencido, ganhando uma projeção mundial.
A derrota, no entanto, teve um motivo fundamental – uma batalha feroz nos bastidores da diplomacia e da cúpula da ditadura brasileira, que contou com uma rede de apoios, intimidação a empresários noruegueses, reuniões entre embaixadores e a criação de um dossiê para influenciar a decisão do Comitê do Prêmio. O trabalho incansável, especialmente do embaixador brasileiro em Oslo, Jayme de Souza Gomes, acabou dando resultados.
Em 29 de outubro de 1970, num ofício secreto, ele já comemorara um feito:
“Acredito que, cercada do maior cuidado e sigilo, esta Embaixada, embora sem efetuar qualquer gestão oficial, pôde contribuir para o afastamento, pelo menos este ano, da candidatura de Dom Helder Câmara ao Prêmio Nobel da Paz”.
Tore Munck 19710001
No ofício, ele cita a “campanha jornalística” realizada na Noruega contra a primeira candidatura do arcebispo brasileiro. Ele cita um personagem que teria papel de destaque tanto naquele ano, quanto nos seguintes: Tore Munck, um dos diretores da Munck do Brasil S.A, que tinha duas fábricas de guindastes em São Paulo. Além disso era diretor de jornais em Oslo e Bergen.

Munck, relata Jayme, colheu “farto material” em suas viagens ao Brasil sobre a “vida pregressa” de Dom Helder graças às relações que mantinha com Júlio Mesquita Neto, diretor e proprietário do jornal O Estado de São Paulo.
Na volta a Oslo, encarregou um de seus jornais, o Morgenposte, a polemizar com o brasileiro, que já era citado como “sendo o mais provável ganhador do Prêmio Nobel da Paz deste ano”. O jornalista escalado foi Alrild Lilleb.
Um dos artigos do jornalista tinha como manchete “Prêmio da Paz para ex-fascista”, e foi encaminhado ao governo brasileiro com tradução.
“Teve decisiva influência junto à Comissão do Parlamento norueguês, havendo sido até anexado ao respectivo dossier”, comenta o embaixador brasileiro, que em alguns documentos assinava como J. de Souza-Gomes. O artigo era ilustrado com uma fotografia, da época em que Dom Hélder fora integrante da Ação Integralista Brasileira.
Para concluir o sucesso da operação para barrar o arcebispo em 1970, Tore Munck teria conversado com Sjur Sandebaekke, diretor do Bergens Private Bank, novo membro da Comissão do Nobel, alertando-o para a “má repercussão que teria a vitória de Dom Helder nos meios políticos brasileiros”, pela sua atitude de “acintosa, sistemática e injusta crítica ao atual governo do Brasil”.
Jayme informa que a opinião de Munck foi retransmitida por Sjur aos demais membros da Comissão, se tornando “um fator de grande valia que prevaleceu na indicação final do nome do Dr. Norman Ernest Borlaug”, como o vencedor de 1970.
O persistente Jayme manda telegrama à Secretaria das Relações Exteriores em 30 de dezembro de 1970, e alerta para um desafio ainda maior: a premiação de 1971.
“A candidatura de Dom Helder Câmara ao Prêmio Nobel da Paz de 1971 aumenta de vulto à proporção que se aproxima a data da escolha final, só encontrando, aparentemente, um nome que lhe oponha – o do Chanceler Willy Brandt”, diz em ofício datado de 25 de maio de 1971.
Uma nova arma seria utilizada: a monografia “A dialética política de Dom Hélder Câmara”, produzida por Felix A. Morlion, por intermédio do então embaixador Roberto Campos, entregue pessoalmente pelo “incansável colaborador da nossa campanha, senhor Tore de Albert Munck”.

No mesmo ofício, Jayme informa que iria entregar o estudo para “membros da Comissão Nobel do Parlamento Norueguês”, e já tinha determinado, de imediato, a multiplicação mimeográfica do trabalho.

Por fim, uma indicação de como deveria ser o “programa de ação” para tirar o Nobel de Dom Helder – as ações deveriam se concentrar no aspecto econômico-social. Naquele momento, o Brasil era o país estrangeiro com o qual a Noruega tinha mais investimentos, e que o governo norueguês havia dado “garantia à aplicação de parte desses capitais através do projeto Borrregard”.
A lógica era simples. Se fosse projetado mundialmente com o Prêmio, o brasileiro ajudaria a “concorrer para a formação de um ambiente político-social que venha a por em risco os capitais estrangeiros”, entre os quais se encontravam os noruegueses. Dois exemplos eram citados para esse “ambiente”: Cuba e o Chile. A batalha para 1971 estava apenas começando.

100 laudas

Todos os detalhes dos bastidores que impediram Dom Helder de ganhar o Prêmio Nobel da Paz, de 1970 a 1973, foram relatados com uma impressionante riqueza de detalhes e cópias de documentos oficiais, pela Comissão Estadual da Memória e da Verdade Dom Hélder Câmara. A partir de documentos obtidos diretamente com o Itamaraty, a Comissão reconstituiu todo o caminho escolhido, através de canais diplomáticos e políticos, para denegrir a imagem de Dom Helder e evitar o prêmio.
Cadernos da memória e verdade – volume 4 – Prêmio Nobel da Paz – a atuação da ditadura militar brasileira contra a indicação de Dom Helder Câmara, tem 230 páginas. A tramoia dos militares, no entanto, é contada em apenas 64 páginas. O restante da publicação é composto da reprodução de documentos oficiais e secretos.
O novelo começou a ser desatado em agosto de 2014, quando os membros da Comissão que investigam as violações de direitos humanos nos meios religiosos, Manoel Moraes, Nadja Brayner e Henrique Mariano, foram ao Itamaraty. Queriam confirmar uma série de suspeitas, especialmente sobre a premiação do Nobel de 1971. Falaram com Alexandre Peña Ghislen, diretor do departamento de recursos humanos e temas sociais.
Manoel Moraes/Reprodução
Manoel Moraes/Reprodução
“A gente teve notícia de que houve uma operação contra Dom Hélder, para ele não ganhar o Nobel da Paz em 1971. O que vocês têm nos arquivos do Itamaraty sobre isso?”, perguntou Moraes, um dos autores do livro.
“Esse tipo de ação, ninguém deixa por escrito. Se fizeram mesmo isso, dificilmente vai ter registro”, respondeu Alexandre, que ficou de verificar os arquivos do Itamaraty. Um mês depois, Manoel recebe um telefonema. Era Alexandre.
“A gente encontrou o que vocês estão procurado”, disse.
“Sério?’”, respondeu Manoel.
“Sério. E é um material bem denso”.
Em dezembro, Manoel recebeu em casa um pacote com 100 laudas, já organizadas por ordem alfabética. Dos 50 documentos iniciais disponíveis, a Comissão passou a trabalhar com 200.

Como em muitos momentos históricos, alguns burocratas acabam tendo uma importância que somente o tempo vai revelar. É o caso do obstinado Jayme de Souza Gomes.

O embaixador conta, a cada ofício, todos os caminhos escolhidos para influenciar os cinco jurados do Nobel.
“A meu ver, ele foi decisivo”, avalia Manoel.