LULA PRESO POLÍTICO

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domingo, 20 de março de 2016

Lembrai do macarthismo!

A história se repete


Por Augusto Buonicore

Há mais de 20 anos o jornalista Argemiro Ferreira lançou um livro no qual traçava um amplo painel da política de segurança interna estadunidense no final da década de 1940 e início de 1950. Esse trabalho, ao lado de inúmeros outros, contribuiu para o desmascaramento da chamada democracia americana, paradigma das correntes liberal-conservadoras.

O termo macarthismo foi utilizado para designar o período em que o senador republicano Joseph McCarthy imperou soberano no cenário político e midiático dos Estados Unidos, encabeçando o famigerado movimento de caça aos comunistas e aos liberais progressistas, que se posicionavam contra os preparativos febris para uma nova guerra imperialista contra a China e a URSS. No entanto, segundo Argemiro Ferreira, o termo ajudou a encobrir a real dimensão do fenômeno, “reduzindo-o e atribuindo-o à ação controversa de um senador demagogo e irresponsável”, e isto “subverteu a realidade e evitou questões incômodas – como a dos fatores relevantes que contribuíram para o aparecimento do macarthismo”. E concluiu: “McCarthy apenas soubera tirar proveito do clima vigente para fornecer um símbolo e um nome aos excessos e desmandos obscurantistas de um período iniciado bem antes de sua afirmação política”.

O anticomunismo, enquanto política de Estado, tem uma longa tradição em terras americanas, mas arrefeceu um pouco durante a administração Franklin Delano Roosevelt, especialmente após o início da Segunda Grande Guerra Mundial. A retomada da ofensiva conservadora e obscurantista teve como um de seus principais marcos o anúncio da Doutrina Truman, realizado em 1947. Através dela o governo dos EUA se outorgava o papel de xerife do mundo. A política externa agressiva exigiu uma política interna mais repressiva. O primeiro passo foi a criação da comissão presidencial “Sobre a Lealdade do Empregado”, cujo objetivo era livrar a administração pública dos funcionários tidos como “desleais”. Esse método peculiar de “seleção de pessoal” passou a ser o padrão de organização interna de toda a vida pública e privada no país. 

A explosão da primeira bomba atômica soviética, pondo fim ao monopólio nuclear estadunidense, e a vitória da revolução chinesa dirigida pelo Partido Comunista assustaram a burguesia monopolista e acabaram impulsionando ainda mais a sua política reacionária. A histeria anticomunista, insuflada pela grande imprensa, foi incorporada por amplos setores da população. Buscou-se criar um clima de terror, assentado na ameaça iminente de um ataque sino-soviético ao território dos Estados Unidos. Os filmes produzidos aos borbotões reforçavam essa paranoia. Surgiu até a indústria do abrigo antinuclear residencial. 

O Congresso reativou um moderno tribunal da santa inquisição que se chamava “Comitê para Atividades Antiamericanas” e seguiram-se então inumeráveis altos de fé medievais. Foi em meio a esse clima que o pusilânime senador Joe McCarthy, auxiliado pelo jovem (e pouco conhecido) Richard Nixon, pôde emergir como figura de projeção nacional, constituindo-se no símbolo de uma época. Toda vida política e cultural passou a ser vasculhada e violada. O mundo do cinema e das artes tornou-se um dos alvos principais dos “caçadores de comunistas”.

O ponto alto desse processo foram o interrogatório e a posterior prisão dos chamados “dez de Hollywood”. As “listas negras” se multiplicaram. Centenas de pessoas (atores, diretores, roteiristas etc.) foram demitidas dos grandes estúdios e perseguidas por advogarem ideias avançadas ou por recusarem o triste papel de delatores. Alguns, como Ronald Reagan, então presidente do sindicato de atores, aceitaram o novo papel com prazer e o desempenharam muito bem.

Evocar em sua defesa a Constituição passou a ser considerado crime. Entre os artistas e intelectuais perseguidos estavam: Sérguei Eisenstein, Charles Chaplin, Bertolt Brecht, Lillian Hellman, Dashiell Hammett, Robert Taylor, Dalton Trumbo, Humprey Bogard. A vida acadêmica não ficou imune, e os expurgos atingiram indiscriminadamente escolas secundárias e universidades. Durante os governos Truman e Eisenhower, foram demitidos mais de seiscentos professores.

Um dia, insuflado pela extrema-direita, McCarthy ultrapassou os limites e investiu violentamente contra o governo republicano e o exército, convocando generais e submetendo-os a interrogatórios vexatórios. Em abril de 1954, diante das câmaras de televisão, em audiência no Senado o advogado dos militares acusados de desleais afirmou, dirigindo-se a McCharty: “Afinal, o senhor não tem nenhum senso de decência?”. Foi a gota d’água. Os setores democráticos e liberais, com apoio da esquerda, aproveitaram a ocasião para aumentar os seus ataques ao macarthismo e exigir o fim dos abusos cometidos pelo senador e sua equipe de auxiliares, que até então tinham total apoio do governo federal.

Atacado pela mesma imprensa que até então o apoiara, condenado por ampla maioria no Senado “por violação de procedimentos e comportamento inadequado”, acabou desaparecendo da cena política tão rapidamente quanto havia surgido. Cumprira o seu papel e não era mais útil.

Livrando-se de McCarthy, afirmou Argemiro Ferreira, “o sistema apenas se defendeu, protegendo-se contra danos maiores. Tolerava o macarthismo, desde que com bons modos (...). O naufrágio político do senador em nada reduziu a ‘caça às bruxas’, da mesma forma como não se devera a ele o aparecimento daquela histeria obscurantista”. McCarthy foi afastado, mas ficaram alguns de seus discípulos. Dois deles, inclusive, se tornaram presidentes dos Estados Unidos: o inquisidor-mor Richard Nixon e o delator Ronald Reagan.

No ventre da sociedade capitalista estadunidense o ovo da serpente continua sendo chocado pelos grandes monopólios industriais, especialmente o militar e o capital financeiro. As próximas eleições no império podem trazer à luz mais uma destas criaturas peçonhentas, o megaempresário Donald Trump. Resistir a isso é uma tarefa que os povos do mundo são obrigados a realizar – incansavelmente, dia a dia – até que tenham arregimentado forças suficientes para destruir a própria fábrica sombria que as produz e, em seu lugar, construir um monumento em homenagem à tolerância e à liberdade.

* Publicado originalmente na revista Princípios, nº 33, maio/julho de 1994.
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