LULA PRESO POLÍTICO

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quinta-feira, 31 de março de 2016

O sistema carcerário americano é privatizado e tem ações na bolsa: quanto mais pessoas presas melhor para o valor da ação.

Um grupo de presos em Sacramento (Califórnia).

UM DIA HISTÓRICO
Por Milly Lacombe, em seu blog
Dilma tem sido uma enorme decepção. Fez uma primeira administração ruim e está se superando em descaso com o meio ambiente, com minorias e em austeridade nessa segunda, o que ajuda a nos afundar um tico mais. Para usar apenas uma palavra: lastimável. O PT deixou de fazer as reformas necessárias e sucumbiu aos esquemões de corrupção que há muitas décadas destroem o país. Só verdades.
Mas a passeata desse domingo 13 de março não tem nada a ver com Dilma, ou com Lula, ou com a nobre luta contra a corrupção e acho que a história tratará de colocar as coisas em seus devidos lugares e dar a elas os nomes que elas têm.
Se os problemas fossem Lula, Dilma e o PT acho que veríamos o resto dos povos vivendo razoavelmente bem. Países considerados de primeiro mundo estariam em paz e prosperando. Não é o caso.
Nos Estados Unidos a desigualdade bate recordes. Passei os últimos dois anos em Nova York e a população de mendigos chama a atenção de qualquer um. Há estudos e estudos a respeito de como as grandes cidades americanas enfrentam a crise dos sem-teto, sobre o aumento da desigualdade, sobre a população que hoje mora nas ruas, sobre famílias e crianças que não têm o que comer. Aqui mesmo nesse espaço há muitos textos sobre o tema.
O planeta inteiro vive essa crise e falar que a crise é apenas brasileira é dar a informação pela metade e sem contexto, e dar a informação pela metade e sem contexto é manipulação pura e simples. Não mudaria a narrativa se ficasse claro que a crise é mundial e não apenas nossa? Não seria interessante tentar entender por que o mundo inteiro passa por isso? Por que quando se fala da crise brasileira ela nunca é colocada em contexto? Não nos elevaria a um lugar de mais significado buscar essas respostas?
A desigualdade atinge todos os cantos e estamos mergulhados em dívidas e guerras e crises. Diariamente milhões de seres humanos tentam escapar da misérias de suas realidades, bombardeadas pelas grandes “democracias” do mundo, e vagam por aí sem pátria, sem nome, sem passado e sem futuro. Não é a toa que o zumbi é o personagem do momento.
Em larga escala somos todos zumbis, mortos-vivos comandados por corporações que se vestiram de instituição para fazer leis e comandar governos e polícias.
No meio desse barulho todo fica difícil encontrar resposta para a pergunta: o que de fato importa?
Certamente não coisas como desenvolvimento espiritual, felicidade, liberdade e criatividade – algumas das essências da natureza humana. O que importa nas sociedades atuais é crescer economicamente, e quem mede isso é o PIB. O sucesso de uma sociedade é medido pelo PIB, e nada mais.
O PIB é um troço que leva em conta gastos com saúde, por exemplo. Quanto mais gastos, melhor para a economia. Em outras palavras: quanto mais miséria e doenças melhor para o PIB, até porque não existe possibilidade de lucro em sociedades saudáveis e que vivam na mais harmônica paz.
Então a Guerra é outro grande estimulador do PIB: vamos bombardear e depois ganhamos na reconstrução. A paz não interessa porque não se ganha dinheiro com ela.
O sistema carcerário americano é privatizado e tem ações na bolsa: quanto mais pessoas presas melhor para o valor da ação.
Que nome dar a um sistema adoentado como esse? Um que nos priva de nossa mais essencial necessidade: a de sermos livres e criativos.
“[O capitalismo] Rouba do homem seus direitos, aturde o seu crescimento, envenena o seu corpo, o mantém na ignorância, na pobreza, na dependência, daí institui caridades que medram sobre os últimos vestígios do auto-respeito humano”, escreveu Emma Goldman há décadas.
No mundo inteiro o capitalismo estrebucha, e o efeito colateral desse fracasso se chama fascismo. Basta que olhemos para a história: sempre que o capitalismo mostra sua ineficiência surgem líderes fascistas que, usando o medo como arma, nos jogam uns contra os outros em nome de defender o sistema, e a concentração de renda e de poder.
Em troca pedem que a gente entregue liberdades, e a gente faz de bom grado. É quando passa a ser aceitável que um juiz faça o papel de justiceiro e que polícias se transformem em polícias políticas e invadam casas e comunidades e privacidades.
Assim nascem Trumps, Le Pens, Bolsonaros, Alckmins.
Um sistema que depende do consumo e da exploração do planeta para sobreviver e que tem como inimigas a eficiência, a sustentabilidade e a preservação não pode servir a nossos sonhos.
De tempos em tempos o capitalismo mergulha em uma crise e precisa se perguntar como fazer para que as pessoas sigam com os mesmos hábitos de consumo — que é, afinal, o que sustenta o sistema — diante da crescente pobreza da maioria e de tantas evidências de que estamos acabando com o planeta.
Aí entram empréstimos e a propaganda, essa distribuída por duas vias: publicidade e noticiário. O ser humano (especialmente o endividado) é facilmente condicionado a comportamentos que sejam adequados à manutenção do sistema.
O que estamos vendo no mundo todo, com partidos de extrema direita ganhando cada vez mais adeptos, é resultado desse completo fracasso do sistema capitalista.
Um mundo no qual 60 pessoas têm a mesma riqueza de 3.5 bilhões, no qual a cada minuto cinco crianças morrem de fome, no qual milhões de pessoas perdem a vida tentando escapar de suas nações miseráveis, no qual governos que ainda têm dinheiro gastam erguendo muros para que refugiados não entrem é um mundo em completo estado de putrefação e desespero.
E o ser humano desesperado acaba aceitando ser comandado por fascistas na esperança de que haja aí uma solução para seus problemas, nem que seja em detrimento de minorias.
Engana-se quem ainda acha que o destruidor do planeta, o grande causador de violências, e da pobreza e da miséria é um governo corrupto, ou uma corporação. O causador de todos os problemas é o sistema dentro do qual vivemos. Esse é o contexto que nos é escondido pelas corporações de mídia, essa é a narrativa que está faltando. Por que? É importante se fazer essa pergunta.
E quem for às ruas nesse dia 13 com a ilusão de que está indo protestar um governo corrupto estará apenas marchando lado-a-lado com líderes fascistas e empresários de baixa índole a quem interessa apenas manter as coisas como elas sempre foram.
A ilusão de que ao tirar Dilma estaremos tirando do poder toda a corrupção é letal porque o que estaremos eliminando com isso é uma coisa muito mais importante do que uma presidente inábil: a democracia.
Caberia justamente aos mais privilegiados, portanto àqueles que tiveram as melhores oportunidades na vida, o papel de ser responsável e desafiar os sistemas econômicos que funcionam doutrinando a massa e nos privando de liberdades. Mas a classe privilegiada estará amanhã nas ruas em nome da manutenção de todas coisas: a passeata desse domingo é uma desesperada tentativa de manter vivo e operante esse sistema que concentra a renda e o poder nas mãos de poucos.
Acho que esse 13 de março entrará para a história como mais um dia da infâmia, e a manifestação será mesmo eternizada como a marcha dos corruptos, uma na qual, em pouco tempo, muitos dos presentes jurarão que jamais fizeram parte.
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