LULA PRESO POLÍTICO

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sábado, 30 de abril de 2016

42 anos da Revolução dos Cravos, os militares pela democracia


Por Jari da Rocha, via Tijolaço

A história portuguesa, ou a história de suas navegações, mostra que a sucessão de conflitos e dos dirigentes de um país altera as fronteiras como se fosse um desenho abstrato em movimento, animado pelos homens históricos e seus feitos.
A expansão marítima foi o fruto da necessidade de se encontrar uma forma de driblar o monopólio árabe-veneziano no comércio de produtos do oriente, sobretudo as especiarias.
Com esse monopólio, as especiarias chegavam mais caras ao mercado europeu, ficando os lucros deste comércio em maior parte com árabes e venezianos.
Além disso, o escoamento de grande quantidade de metais preciosos da Europa em direção do Oriente, para pagar as caríssimas especiarias, vinha desvalorizando o metal europeu, devido à sua baixa circulação.
Outro fator que colaborou com o ideal expansionista foi à crise do século X, que envolveu peste, fome e guerras, comprometendo a produção de alimentos na Europa.
A crise também punha em risco o comércio pelas rotas continentais, forçando os mercadores a optarem por rotas marítimas via mediterrâneo, passando pelo estreito de Gibraltar em direção ao norte da Europa.
Essa opção por mar favoreceu a economia portuguesa, que passou a ser um entreposto comercial, fortalecendo ainda mais a burguesia lusa.
Lançar caravelas ao mar em busca de um novo caminho para as regiões fornecedoras de especiarias, como as Índias, ou em busca de metais preciosos, não era uma tarefa fácil e de baixos custos.
Os grupos mercantis não pensavam em assumir sozinhos os riscos desses empreendimentos. Era fundamental, para um empreendimento dessa dimensão, a participação de um Estado forte e centralizado que tivesse recursos financeiros para investir na empresa ultramarina.
Portugal era a única região com esse status e por isso foi o pioneiro na expansão ultramarina.
A monarquia portuguesa manteve-se da maneira que pôde até o início do século XX. Em 1910 uma revolução instaura o regime republicano parlamentar.
É quando começa um período ainda mais conturbado da vida política portuguesa, que vai culminar com a revolta militar de 1926.
O protagonista do golpe militar é o ex-seminarista Antônio de Oliveira Salazar.
Seu regime havia acentuado ainda mais o atraso econômico, científico e cultural em que o país já se encontrava no início da república.
O mesmo regime viria a estimular o conflito com as colônias africanas, que mergulharia Portugal num mar de dívidas.
Durante o governo Salazar, ao contrário do que era informado para a população, houve um empobrecimento de tal ordem que, nas reuniões clandestinas do Partido Comunista Português, pobreza e as consequências da ditadura no país eram pautas permanentes.
Na África, tanto Angola, Moçambique como Guiné-Bissau, a situação era muito pior. No embalo das várias independências que vinham ocorrendo no continente africano, à elite intelectual dessas colônias, formada na Europa principalmente, iniciava o processo de descolonização, que seria árduo, lento, porém irreversível.
A guerra nas colônias africanas durou treze anos. Com início no norte de Angola, em fevereiro de 1961. Depois na Guiné, em 1963 e, a partir de 1964, em Moçambique.
O exército português formaria três frentes de combate, que chegou a recorrer ao uso de armas químicas, como o napalm, servindo-se de todos os meios militares ao seu dispor para combater a guerrilha.
Ao longo da luta, Portugal enviou para África centenas de milhares de soldados, com um número oficial de mortos de cerca de nove mil homens e dezenas de milhares de feridos, isso sem mencionar um número ainda superior de baixas entre guerrilheiros e civis guineenses, angolanos e moçambicanos.
Em nenhum momento da guerra o regime português quis discutir o problema das colônias.
O Estado Novo manteve com grande rigidez o essencial da política colonial, fechando todas as portas a uma solução aceitável para o problema de qualquer dos territórios.
A guerra acabou, aliás, por conduzir a maior dureza dos sistemas repressivos do regime, impedindo qualquer discussão ou abordagem do problema.
Quando Salazar caiu da cadeira e bateu a cabeça, em 1968, deixou ao sucessor um regime desacreditado, com mais de cem mil homens armados em três frentes de combates e mais de um terço dos gastos do Estado direcionado às despesas militares.
A guerra colonial acabaria sendo o algoz da ditadura, empunhando o próprio braço armado do regime: a instituição militar.
A difícil implantação do regime democrático num país vítima de quase meio século de ditadura, que de repente se encontra de braços dados com uma descolonização tardia, a que se juntavam os efeitos da crise econômica internacional, que acontecia, principalmente, durante o ano de 1973, explicam as peculiares características da transição de um regime totalitário para a democracia.
O colonialismo impediu uma transição sem sobressaltos revolucionários radicais para uma democracia parlamentar.
Em fevereiro de 1974 foi publicado o livro do general Spínola, Portugal e o futuro. Através desta publicação, fica demonstrado publicamente o conflito existente no seio do regime no que se refere à solução política final para o problema ultramarino.
A essas alturas, a revolução era somente uma questão de dias.
O Movimento dos Capitães conseguiu transformar um protesto de natureza corporativa numa mudança completa de regime.
A incapacidade do governo de Marcelo Caetano em encontrar uma solução política para a guerra colonial, que se alastrava por treze longos anos, foi o fator determinante na mobilização dos oficiais.
Na madrugada do 25 de abril, daquele ano de 1974, ao som da canção de José Afonso "Grândola, Vila Morena", pela primeira vez, em quase meio século, a população toda pôde participar livremente de toda e qualquer informação.
Alto-falantes anunciavam a boa nova.
No Terreiro do Paço, as floristas distribuíam cravos aos soldados, que não precisaram disparar um tiro sequer.
Foi  bonita a festa, pá.