LULA PRESO POLÍTICO

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quarta-feira, 20 de abril de 2016

MEU PAÍS É MEU DEUS, MINHA FAMÍLIA, MEUS AMIGOS E MEU CURRAL ELEITORAL

"Thesouro do Estado de S.Paulo - Brazil", "Pró-Constituição" Valor de 5 mil reis - Série 1ª, Estampa 2ª, Domingos Jorge Velho.
“Thesouro do Estado de S.Paulo – Brazil”, “Pró-Constituição”
Valor de 5 mil reis – Série 1ª, Estampa 2ª, Domingos Jorge Velho.

O domingo em que o sim virou um amém universal, na câmara federal de deputados em Brasília.

Por Marcos Romão*, via Mamapress

Levei muito a sério as declarações de todos os votos “sim”, pelo impeachment da Dilma.

Apesar de parecer uma chanchada de antes do cinema novo, levei realmente muito a sério a mímica e gestualística de cada um e de cada uma, nos poucos segundos de fama que conseguiram de exposição nas telinhas, diante de milhões de brasileiros e brasileiras.

As mímicas lembravam gestos cafonas de bodas de pratas ou formaturas de colégios do século passado.

Eram pessoas tímidas em sua maioria, que não sabiam o que falar, ou como falar para grandes públicos.

Não os menosprezo, pois já os conheço e os encontro todo dia já há um mês, se preparam para a disputa para a vereança, que deve acontecer em outubro.

Eles são assim mesmo, gente da política do varejo, que vive e obram suas miudezas mentais nos quase 6000 municípios no Brasil.

Aqui embaixo tem gente nesta disputa por pequenos cargos nos organismos públicos, que pertence a todas as cores, gêneros e classes, mas só uma maioria de homens e brancos ultrapassam a barreira do voto para se tornarem vereadores e, só uma minoria majoritária de homens e brancos, mas que pertençam a alguma família do poder, chegam a se tornarem deputados estaduais.

É na disputa para deputados federais, que se revela que quase só homens e brancos pertencentes às famílias abastadas ou amigos delas, conseguem atingir o olimpo do Planalto Central.

Mas todos conservam este fleugma de pobres de espírito, típicas de políticos acostumados à política do varejo nas disputas pela vereança.

Ao contrário dos pensadores, intelectuais jornalistas e outros que se especializaram nas redes sociais em fazer política para gente que é crítica demais para votar, eles sabem que política sem partidos e ideologias, se faz no suor do varejo.

Não é preciso muita conversa. Saber fazer festas, organizar doações, curtir churrascos de esquina são as coisas que contam ponto. E a família é fundamental para isto.

Não é à toa, que ficou todo mundo mandando beijinhos em público até para cachorros em seus currais eleitorais. Ou no privado mandando selfies, para familiares e amigos que se encarregavam de distribuírem imagens via whats app, do grande homem lá em Brasília.

Brasil, este país de 205 milhões de almas?

Isto não lhes importam.
O que importa é aquele voto do varejo, conseguido nos compadrios, afagos e trocas de favores.

Alguns chegaram quase ao ponto no início de suas falas, de lembrarem ao presidente Cunha, que ele havia esquecido de fechar as barriguilhas depois que eles babaram os seus ovos.

Sim, porque além dos votos de varejo eles precisaram de padrinhos para chegarem no planalto, precisaram de alguém que entendesse do regimento e da distribuição de favores e os instruíssem a hora de dizer amém.

Por todas estas coisas levo a sério estes deputados. São eles que definem as ocupações de "cargos públicos" em todos os municípios do Brasil. São eles que decidem até se vamos mijar em banheiros públicos ou nas ruas.
Como são homens, brancos ou assemelhados e das classes altas ou seus amigos:

A conclusão que tenho é que vamos ter muito trabalho pela frente, para que estes banheiros públicos da política, não passem a ter aquelas plaquinhas tipo Alabama, de uso exclusivo só para os escolhidos de Deus, da família e da propriedade deles.

Foi muito instrutivo conhecer todos eles, como diria minha avó.

Agora é descobrir os caminhos para termos uma reforma profunda no processo de escolha de nossas representações políticas.

Como está, estamos condenados a conviver com esta escória hipócrita o resto de nossas vidas. (nesta incluo até meia dúzia dos que votaram pelo não).

Como constata o sociólogo radicado na Alemanha, Ricardo Alves de Barros .
“Ver o Brasil como ele é, choca muito.”

São três anos que eu e minha companheira estamos aqui no Brasil.

Cada vez que vemos nos ônibus ou nos trens, alguém vociferando o nome de Jesus. Cada vez que queremos sair ou voltar para casa, e temos que passar um whats app para saber como está o clima de violência.

Cada vez que o atendente do guichê que procuramos, se recusa a nos atender, dizendo que o Brasil é assim mesmo e é preciso ter paciência para esperar o medicamento que foi desciado ou surrupiado.
Cada vez que olhamos na banca da esquina as manchetes estampandos diárias, manchetes de 4 ou 5 garotos pretos mortos só em Niterói e São Gonçalo e cada vez que escutamos um ministro falando que desenvolver é tirar índios, camponeses e quilombolas das terras e destruir o meio-ambiente para dar espaço ao agronegócio.
Cada vez que vemos estas coisas e mais, repetimos o quanto nossos amigos, que tecem teorias mirabolantes sobre confrontos de classes e sobre a economia mundial:
Revelam na realidade um total desconhecimento da mentalidade cultural neocolonial, cruel e violenta que no Brasil, domina as cabeças desde os “burgueses” até a cabeças do mais “despossuídos” da nação.
Slogans como “Pátria Educadora”, ” As elites do poder…” e “Salvamos milhões da miséria”, mais deseducam que informam e transformam as pessoas. Na verdade as cegam de verem o envolta e as motivarem a mudanças de mentalidade, e as fazem aceitar o lema positivista de ordem e progresso, em que só as ordens da morte aos diferentes, podem garantir o nosso progresso particular, de nossas famílias e amigos de bolso.
Ainda não trabalhamos nossas mentes para nos limpar do DNA cultural de Domingos Jorge Velho e suas tropas de bandeirantes brancos e mamelucos.
Domingos, chegou a levar de uma só vez para o seu patrão, 4 mil pares de orelhas de pessoas de tribos indígenas, para provar sua eficiência e subserviência ao patrão e receber seu soldo ou bônus.
Neste domingo, o novos Domingos Jorge Velhos levaram para o “Presidente suspeito de ser Ladrão”, 108 milhões de orelhas de eleitores.
Cada genuflexão do sim era um amém à tradição, à família e à propriedade de uma minoria de proprietários das terras, riquezas e pessoas objetos da escravidão moderna no Brasil.
A escravidão cultural da falta de informação e da ignorância sustentada pelas famílias que controlam os meios de comunicações é o novo império português do século XXI no Brasil.
Amém Instituto Millenium. Amém Bandeirantes. 
Marcos Romão é sociólogo e jornalista, editor da Mamapress, e coordena a Rede Radio Mamaterra e o SOS Racismo Brasil