LULA PRESO POLÍTICO

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sábado, 9 de abril de 2016

Não se pode absolver Kissinger


Dilma cumprimenta um genocida.
Pense numa escolha bosta de Lula


Kissinger é, seguramente, um dos políticos responsáveis por mais centenas de milhares de mortos na conta do seu registo criminal.

Poderá ser, aos 91 anos, um Professor de sucesso, um dos mais bem pagos conferencistas mundiais, os seus livros poderão êxitos editoriais, poderá não vir a ser julgado. Kissinger passará à história como um dos políticos com mais mortes agarrados a sua actividade política – um criminoso de guerra que ficou por julgar.

Henry Kissinger gostaria de passar à história como o ideólogo da normalização diplomática com a China, que abriu as portas a uma nova era nas relações internacionais, como o negociador do cessar-fogo do Vietname, o que lhe granjeou o Prémio Nobel da Paz apesar de quase logo se ter tornado inútil, e até como o prestigioso académico que analisou como poucos e o continua a analisar o futuro histórico e politico do mundo.

Nos últimos 40 dos seus 91 anos empenhou-se num trabalho de reconstrução pessoal para entrar o mais impoluto possível na posteridade. Consegue-o através dos seus livros, da sua actividade universitária, das suas conferências pagas a preço de ouro e da sua assessoria a vários presidentes, sendo o último George Bush. Trata de construir a sua figura de homem de Estado, patriota e pragmático. Preocupa-o a sua pegada na história e não quer que esta o retrate com o seu perfil mais sinistro: o de principal assessor de Richard Nixon nas guerras genocidas e de terra queimada do Sudeste Asiático, de cúmplice na implantação com o auxilio da CIA de ditaduras anticomunistas na América Latina (Chile, Argentina, Uruguai…) e o de inspirador da Operação Condor que permitiu aos Pinochet, Videla e companhia torturar, assassinar e fazer desaparecer milhares e milhares de opositores de esquerda.

Mas o passado persegue-o. Não há muito tempo, Bernie Sanders, também candidato democrata à presidência dos Estados Unidos, quis envergonhar a sua rival Hillary Clinyon por desejar contar com o apoio e conselho de Kissinger e assegurou que este fora um secretário de estado «destrutivo», por isso tinha orgulho de não ser seu amigo. Quando publica um novo livro, as resenhas mais sérias reconhecem-lhe os méritos, mas também abundam as que lembram as vergonhas antigas que o tornam mais credor de um banco de réus num tribunal internacional sobre genocídios e crimes de guerra do que de um altar de excelência académica ou do Olimpo dos grandes homens de Estado.

Contudo, Kissinger, que um dia afirmou referindo-se ao Chile «que não se deve permitir que um país se torne comunista pela irresponsabilidade do seu próprio povo», há décadas que publica obras que ajudam a entender melhor o mundo, embora a sua óptica esteja deformada pela ideologia disfarçada de objectividade e ciência política, mas ao serviço dos supremos interesses norte-americanos. As obras mais recentes, publicadas em castelhano pela editorial Debate, são China e Ordem Mundial.

Esta última constata que os Estados Unidos já não têm a capacidade — nem sequer a vontade — de impor as suas próprias ideias de ordem global, depois dos fiascos sofridos nas últimas décadas (Afeganistão, Iraque…) e do aparecimento de novos actores internacionais. E reconhece a dificuldade de tomar partido entre as duas opções que marcaram a política externa do seu país: a idealista e a realista. Aposta num modelo misto, ao mesmo tempo que abjura tanto a ideia de Samuel Huntington de «choque de civilizações», como a de Francis Fukuyama do «fim da história».

Kissinger vai até à paz de Westfália, que no século XVIII pôs fim à Guerra dos Trinta Anos e evitou muitas outras na base da soberania dos Estados nacionais e da não ingerência estrangeira. Encontra semelhanças com a época actual e as relações com a progressiva marcha-atrás norte-americana e com a construção de uma nova ordem em que existem várias esferas de influência regional, embora sejam contrapostas. Pelo caminho, trata de como a ruptura desse modelo westfaliano e mais em concreto do surgimento da grande Alemanha esteve na origem de conflitos como as guerras napoleónicas, a da Crimeia, a franco-prussiana e as duas guerras mundiais.

Fala muito do passado da Europa, China, Índia e Próximo Oriente. Dá a máxima importância à relação entre os Estados Unidos e a China, dada a emergência desta como superpotência do Império do Meio, e mostra-se pessimista sobre o futuro da Europa, ao achar que a tentativa de criar uma estrutura supranacional pode degenerar num vazio de poder.

São apenas algumas pinceladas de um livro em que Kissinger mostra uma capacidade notável para fazer em simultâneo a análise e a síntese, para oferecer uma visão do mundo que, em alguns aspectos, é perfeitamente aceitável, já não como um ideal, mas sim como retrato da realidade, isso sim, parcial e interessado.

De passagem, talvez em busca de absolvição, aproveita para ajudar na lavagem da sua imagem. Sendo uma obra com tanta história — não só como ensaio, é estranho que não haja qualquer referência aos golpes no Chile e na Argentina, com que teve tanto a ver. Como se a omissão purgasse a culpa. E tem a desfaçatez de afirmar sobre o Vietname: «As acções militares que o presidente Nixon ordenou — e que eu, como conselheiro de Segurança Nacional, apoiei — juntamente com a política de flexibilidade diplomática levaram a um acordo em 1973». Como se depois da assinatura não tivesse uma campanha terrível de bombardeamentos maciços sobre o Vietname do Norte. Ou como se não tivessem existido guerras secretas e ilegais no Cambodja e no Laos que causaram centenas de milhares de mortos e que ainda hoje têm os dois países semeados de milhões de bombas sem explodir. Ou como se aquilo tivesse sido uma vitória, quando na realidade, foi o princípio da queda até uma derrota militar sem apelo nem agravo, a mais humilhante da história dos Estados Unidos.

No início da Ordem Mundial, Kissinger lembra que em 1961 visitou Harry Truman, que mandou lançar as duas bombas atómicas sobre o Japão e que este lhe disse: «Derrotamos os nossos inimigos por completo e depois trazemo-los de novo para a comunidade das nações». O presidente «queria ser recordado não tanto pelas vitórias mas sim pelas reconciliações» E quase no final, volta ao tema ao garantir que «o poder militar norte-americano é um escudo de segurança para o resto do mundo, quer os seus beneficiários o peçam ou não».

Ninguém em seu perfeito juízo diria hoje que, o que talvez se aplicasse nos casos do Japão e da Alemanha, hoje não seria viável para os iraquianos, os afegãos, os sírios ou os líbios. Se foi essa a ordem mundial a que levou a política externa norte americana, talvez tivesse sido melhor que Kissinger chamasse à sua obra Desordem Mundial. Entretanto, é melhor não contar com que, por mais livros que publique — mesmo que chegue aos cem anos — consiga que o mundo esqueça o seu papel sinistro num momento crítico da história do século XX.

* Jornalista

Este texto foi publicado em:
http://blogs.publico.es/elmundo-es-un-volcan/2016/04/01/la-absolucion-imposible-a-henry-kissinger/


Tradução de Manuela Antunes