LULA PRESO POLÍTICO

LULA PRESO POLÍTICO

sexta-feira, 27 de maio de 2016

DESCULPE, FUI ESTUPRADA



Era quarta feira. Ambulatório de violência sexual, residência de medicina de família e comunidade. Eu estava chocada com as histórias de terror que eu havia escutado alí no último mês. Cansada, desencantada com o mundo, doída do sofrimento de mães e filhas que entravam deprimidas, emagrecidas, roxas, esvaziadas de sua humanidade, porta a dentro.

Naquela manhã, duas pacientes me marcariam especialmente. Uma, portadora de deficiência mental, carregada pela mãe, dopada. Havia sido encontrada sem roupa, dormindo em um lote vago de onde os vizinhos viram sair 3 homens. Outra, magra, feito o quê, em uso de medicação para evitar infecções sexualmente transmissíveis desde a noite em que fora abordada na porta de uma boate por um policial civil e levada para uma estrada escura, onde apanhou e foi estuprada. Foi ao hospital para me pedir um atestado para faltar ao trabalho e a faculdade.

"Isso. Fique em casa. Esses remédios causam tanto enjoo... tanto mal estar..."

"Não, Dra. Júlia. Eu tô passando o dia na rua. Não posso passar mal em casa pra ninguém desconfiar de nada. Minha mãe é daquelas que quando ouve notícia de alguma mulher que foi estuprada, logo fala: 'mas o que tava fazendo na rua, a essa hora, com essa roupa.' Depois de tudo isso, eu não tenho o direito nem de chorar na minha própria cama."

Sabe, machistas, mesmo que eu descida transar com todo mundo, quando eu não quiser e alguém me violentar, isso será chamado de estupro. Vocês e seus comentários perpetuam sofrimento, dor e violência. Vocês atrasam minha evolução. Saiam daqui!