LULA PRESO POLÍTICO

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sábado, 7 de maio de 2016

GALERIA DOS HIPÓCRITAS #5 Marco Feliciano: Quando homens que “conversam com Deus” promovem a desumanização alheia; o alerta de Philip Zambardo completou dez anos

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O pastor Marco Feliciano diz que conversou com Deus. Literalmente.
Ele contou em um culto que quando comprou sua primeira propriedade, em Orlândia, no interior de São Paulo, voltava para casa com as chaves quando ouviu do Senhor que deveria oferecer a casa a alguém que precisasse mais dela. Consultou a esposa, Edileusa de Castro Silva Feliciano.
Os dois decidiram abrir mão do sonho e doaram a casa a uma senhora, não identificada pelo pastor. Foram ao cartório em Orlândia e registraram a transferência.
A recompensa tardou, mas não falhou: Deus, segundo conta o pastor, deu a Feliciano o empurrão na construção da Assembleia de Deus Catedral do Avivamento, através da qual ele erigiu um pequeno império neopentecostal.
Feliciano parece não ter superado a polêmica de quando presidiu a Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados, em 2013.
Alega que a filha foi ofendida na universidade, que a esposa sofreu síndrome do pânico e, assim, justifica sua “vingança”: depois de militar pela eleição de Aécio Neves em 2014 e de se tornar pregador do impeachment de Dilma Rousseff, requereu a criação da Comissão Parlamentar de Inquérito da UNE, último ato do ex-presidente da Câmara Eduardo Cunha antes de ser defenestrado por liminar do ministro Teori Zavascki, do STF.
Feliciano é do PSC, o Partido Social Cristão. Ele se elegeu pela primeira vez em 2010, com 211.855 votos.
Em 2014, reelegeu-se com 398.087, o terceiro mais votado em São Paulo.
O PSC é presidido pelo Pastor Everaldo, candidato ao Planalto em 2014. Planilhas da contabilidade paralela da Odebrecht revelam que em 2010 Eduardo Cunha, também evangélico, foi  “padrinho” de uma doação da empreiteira de R$ 3 milhões ao diretório nacional do partido.
O PSC é fiel aliado de Cunha na Câmara. O líder do partido, André Moura, assinou a nota condenando o afastamento de Eduardo Cunha pelo STF. Ela diz, em certo trecho: “Este fato demonstra um desequilíbrio institucional entre os Poderes da República, cuja manutenção pode acarretar consequências danosas e imprevisíveis para a preservação da higidez da democracia no Brasil”.
Feliciano corroborou no Facebook: “Considero extremamente perigosa e desastrosa a decisão do ministro Teori Zavascki por não ter lastro constitucional que a fundamente”.
Cunha é o líder político sobre o qual existe o maior número de provas de corrupção obtidas no âmbito da Operação Lava Jato.
Há indícios de que o parlamentar carioca amealhou uma fortuna e no processo montou a bancada que o ajudou a se eleger presidente da Câmara.
Fiel a Cunha, a bancada do PSC, que inclui Jair Bolsonaro e o filho Eduardo Bolsonaro, votou de forma unânime pela abertura do processo de impeachment contra Dilma Rousseff.
MENTIROSO COMPULSIVO
Apesar de dizer que para o PT “a palavra moral já não existe mais”, o pastor Marco Feliciano mente de forma compulsiva. Não se trata de uma opinião, mas do confronto entre falas dele e a verdade factual.
Exemplos recolhidos de um único vídeo, no qual Feliciano pediu votos para Aécio Neves na reta final da campanha de 2014 e exerceu seu antipetismo:
1. “A fortuna de Luís Inácio Lula da Silva e de seu filho é a oitava maior do Brasil”, disse. A revista conservadora Forbes listou 65 brasileiros com mais de U$ 1 bi naquele ano. Lula não apareceu na lista. Os mais ricos eram Jorge Paulo Lemann, Joseph Safra, Marcel Telles, João Roberto Marinho, José Roberto Marinho, Roberto Irineu Marinho, Carlos Alberto Sicupira e Francisco Ivens de Sá Dias Branco, o oitavo, com U$ 4,1 bi. Se o deputado tem dados comprovados sobre fortuna oculta de Lula, superior a U$ 4,1 bi, deveria apresentá-los publicamente. O mandato parlamentar não dá a ele o direito à mentira, embora possa mentir sem maiores consequências.
2. “Tá vindo um decreto lá de cima, do governo pra baixo, dizendo que dentro das instituições que recuperam meninos drogados não se pode mais usar a palavra Deus”, sobre um decreto inexistente do governo Dilma.
3. “Nós temos aí o decreto 8243, bolivariano como foi apelidado, que pode simplesmente anular o poder do Congresso Nacional”. Ele se refere ao projeto que instituía a Política Nacional de Participação Social, que simplesmente regulamentava a participação da sociedade civil na formulação, execução, monitoramento e avaliação das políticas públicas em caráter meramente consultivo.
4. “Nesses últimos 12 anos as universidades públicas de nosso país não produziram nenhum intelectual, pelo contrário, os meninos e meninas que estudaram nas grandes universidades, a maioria deles se transformou em revolucionários. Taí os black blocs pra gente provar”. São várias mentiras encadeadas. A mais risível é a de que aqueles que usaram táticas black blocs nas manifestações de 2013 estudaram em universidades, ou em universidades públicas. Levantamentos informais demonstraram que muitos dos black blocs eram jovens desempregados da periferia, sem educação formal. Também importante registrar que algumas das universidades públicas a que ele se refere estão em São Paulo, sob administração de reitores indicados por governos do PSDB — portanto, livres da “influencia malévola” do PT.
QUANDO O TOM “COMBATIVO” NOS LEVA A PHILIP ZAMBARDO
O pastor Marco Feliciano votou pela abertura de processo de impeachment contra Dilma com as seguintes palavras:
Com a ajuda de Deus, pela minha família, pelo povo brasileiro, pelos evangélicos da Nação toda, pelos meninos do MBL, pelo Vem Pra Rua Brasil — dizendo que o Olavo tem razão, Sr. Presidente, dizendo “tchau” para essa querida e para o PT, Partido das Trevas –, eu voto “sim” ao impeachment, Sr. Presidente!
Foi a reprise de falas anteriores, em que Feliciano afirmou que o PT havia feito “pacto com as trevas” e “pacto com o diabo para colocar o Brasil onde está hoje”.

Ele também usou a tradicional comparação com o animal ameaçador, que frequentou a capa da revista Veja em várias edições da campanha de 2014, ao afirmar que o PT “acabou infiltrando os seus tentáculos em todas as principais organizações de nosso país”.

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O polvo que esmaga a vítima com os seus tentáculos frequenta o arsenal desumanizador do outro desde que a propaganda se tornou arma política.
Ao lado da Veja, acima, exemplos de como o polvo ameaçador foi usado em cartazes contra os judeus, a União Soviética, o Japão e os Estados Unidos.
É algo recorrente esta desumanização literal: a propaganda nazista se referia aos judeus como “ratos” e, em Ruanda, antes do genocídio, os hutus classificavam seus rivais tutsis como “baratas”.
Em 2007 o professor de psicologia Philip Zambardo, da Universidade de Stanford, escreveu um livro muito interessante sobre o assunto: "O Efeito Lúcifer: entendendo como pessoas boas se tornam diabólicas". Ele trata de um experimento que precisou interromper por causa da violência, depois que escalou alunos para encenar papéis de prisioneiros e guardas de presídio em Stanford.
No livro, Zambardo trata do processo de desumanização do qual uma das variáveis, no Brasil, é a ideia do pastor Marco Feliciano de que é preciso invocar Deus para derrotar o “pacto com o diabo” que o deputado do PSC propagandeia ter sido firmado por petistas.
“No centro da maldade está o processo de desumanização pelo qual certas pessoas ou grupos são descritos como menos que humanos, não comparáveis em humanidade ou dignidade pessoal àqueles que rotulam. O preconceito emprega estereótipos negativos em imagens ou verbalmente para aviltar ou degradar os objetos desta visão estreita de superioridade sobre os alegadamente inferiores”, escreveu Zambardo.
“A desumanização é um dos processos centrais na transformação de pessoas comuns em pessoas indiferentes ou mesmo perpetradoras deliberadas da maldade. Desumanização é como uma catarata cortical que embaça o pensamento e promove a percepção de que outras pessoas são menos que humanas. Isso faz com que algumas pessoas enxerguem o inimigo como merecedor de tormento, tortura e mesmo aniquilação”, afirma o autor.
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No livro,  o professor analisou gibis utilizados pela propaganda nazista contra os judeus, posters da propaganda internacional e fotos de cidadãos norte-americanos posando com vítimas de linchamento. Foi assim, aliás, que nasceu a indústria dos cartões postais nos Estados Unidos.
“Cidadãos de bem”, inclusive crianças, posavam com os mortos e cópias das fotografias eram enviadas pelo correio para familiares e amigos. É preciso lembrar que muitos dos linchamentos aconteciam no Sul dos Estados Unidos, no chamado Bible Belt, o “cinturão da Bíblia”.
Como o pastor Marco Feliciano tem profunda responsabilidade social no Brasil, como mandatário e líder religioso, atendemos ao pedido de vários de nossos leitores para incluí-lo na Galeria dos Hipócritas.
O argumento principal é de que ele posa de defensor da família brasileira mas adota um linguajar incompatível com os princípios cristãos em nome dos quais diz promovê-la.