LULA PRESO POLÍTICO

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quinta-feira, 12 de maio de 2016

Tchau, querida


Por Milly Lacombe, em seu blog
Quando Dilma foi eleita pela primeira vez minha sobrinha, então com uns seis anos, disse alguma coisa assim: se uma mulher pode ser presidente então a gente pode tudo, né? Pode, de verdade pode, eu respondi.
Da mesma forma que foi emocionante assistir, em 2002, um trabalhador de chão de fábrica chegar ao poder, foi lindo ver uma mulher fazer a mesma coisa e marcar nossa história.
Dilma agora descerá a rampa antes da hora e entregará a faixa ao mais miserável e deplorável partido brasileiro, um que ela escolheu para formar sua chapa e que nos deixa de herança, essa sim maldita.
Verdade que ela cometeu dezenas, talvez centenas, de erros durante a primeira administração, e se superou em erros na segunda, mas não pôde de fato governar dessa segunda vez porque o golpe já estava em gestação.
De toda a trajetória de Dilma, o que mais me impressiona é ter sido torturada e, ainda assim, não delatado seus companheiros. Me torturem e eu sou capaz de entregar até inocentes em menos de um minuto. Não é qualquer que se mantém reto e íntegro durante uma sessão de agressões físicas e morais. Como não é qualquer um que consegue escutar deputado fazer homenagem póstuma em rede nacional de TV àquele que a torturou.
É esse mulher que descerá a rampa e passará a faixa para um dos mais eloquentes representantes da elite neoliberal brasileira, uma gente que não seria capaz de voltar ao poder sem arquitetar um golpe.
Pode parecer que a vitória está com ela, com a elite branca-macho-homofóbica, ou com a Globo, ou com o vergonhoso judiciário desse país, ou com os patos da Fiesp, todos atuantes no processo desse impedimento Mandraque, mas esse jogo está longe de terminar, e o que estamos lendo é o primeiro volume de um livro que, quando for escrito, chamará as coisas por seus devidos nomes, e dará a Dilma os seus devidos créditos.
Não se enganem os que ainda acham que estamos testemunhando o fim das corrupções; o que estamos testemunhando é o fim das investigações.
Era isso, aliás, que Dilma tinha de diferente de seus antecessores: foi em suas administrações que mais se investigou e puniu políticos e empresários. Esse estado de coisas, claro, não poderia continuar; era preciso encontrar um motivo para demovê-la.
Mas por onde tirar Dilma? Forçando bastante a barra os golpistas foram capazes de encontrar um pseudo-motivo que, devidamente mexido, remexido e maquiado poderia servir para confundir a opinião pública a respeito de Dilma e de sua turma. Esqueçam que o motivo é tecnicamente falho, que pedaladas fiscais são cometidas por todos e não se enquadram em crime de responsabilidade porque sobre isso não precisamos falar.
Os avanços sociais, desde Bolsa Família, passando por ProUni, pela lei das domésticas, pela mundialmente reconhecida diminuição da pobreza, pelo SUS, pelo Minha Casa Minha Vida, pelo Luz para Todos  e chegando aos quase 80% de aumento no valor do salário mínimo fizeram barulho demais para uma elite mimada e sedenta por interromper tanta atenção dada às classes mais baixas. Nas urnas não estava dando, então façamos de um outro jeito.
Claro que Dilma cometeu deslizes imperdoáveis, que não se limitam a escolher Temer como vice, e deslizes que soam ainda mais graves para uma líder que se diz de esquerda, como o pouco caso com o meio ambiente e com povos nativos, mas ainda assim é impossível deixar de reconhecer todos os avanços sociais pelos quais passamos desde 2002.
Como administradora Dilma não deixará saudade, é verdade. Mas estamos tirando do poder uma mulher íntegra, ética e cujo maior crime foi não ter compactuado com a podridão política que há tantas décadas nos assola.
Tchau, querida. Que seja breve e que a verdade não demore a vir à tona.
Enquanto isso estaremos entregues ao que o Brasil tem de pior: uma elite corrupta, machista, misógina, elitistas, racistas e homofóbica. É o patriarcado novamente com força total nos quatro poderes (não tiremos a imprensa disso), e como o fascismo é a derradeira expressão da hierarquia patriarcal é de se lamentar que tenhamos que entrar nesse quarto escuro outra vez.
Que Deus nos proteja de seus fanáticos seguidores até que o povo novamente acorde e retome a soberania.