LULA PRESO POLÍTICO

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sexta-feira, 3 de junho de 2016

SILENCIOSAMENTE ESTADOS UNIDOS PREPARAM-SE PARA A GUERRA




Por John Pilger

De volta aos EUA em ano de eleições o que mais me espanta é o silêncio. Cobri quatro eleições presidenciais, a primeira em 1968; estava ao lado de Robert Kennedy quando foi assassinado e vi o assassino preparando-se para matá-lo. Foi um batismo à moda dos EUA, com a violência que salivava da polícia de Chicago na conturbada convenção do Partido Republicano. Começava a grande contrarrevolução.


O primeiro que foi assassinado naquele ano, Martin Luther King, ousou associar o sofrimento dos afro-norte-americanos e do povo do Vietnã. Quando Janis Joplin cantou “Freedom’s just another word for nothing left to lose” [“liberdade é só mais uma palavra que resta para [significar] nada a perder”], falava talvez inconsciente por milhões de vítimas dos EUA em terras distantes.

“Perdemos 58 mil soldados jovens no Vietnã, e eles morreram defendendo a liberdade de vocês. Tratem de não esquecer.” Foi o que disse num serviço religioso no National Parks Service semelhante ao que filmei semana passada no Memorial Lincoln em Washington. Falava a um grupo de jovens adolescentes vestidos em camisetas cor-de-laranja. Como se sempre, rotineiramente, mostrasse a história oficial sobre o Vietnã como mentira nunca antes desmascarada.

Como se os milhões de vietnamitas que morreram e envenenados e aleijados e roubados pelos norte-americanos naquela invasão não tivessem lugar histórico na mente dos jovens, para nem falar dos estimados 60 mil veteranos que se suicidaram. Não faltava quem perguntasse a um marine amigo meu que voltou paraplégico do Vietnã: “Mas você lutou de que lado?”

Há poucos anos assisti a uma exposição popular intitulada “O Preço da Liberdade”, na venerável Smithsonian Institution em Washington. As filas de pessoas comuns, a maioria crianças que entravam como se ali fosse uma caverna de Papai Noel do revisionismo, recebiam sortimento variado de mentiras: a bomba atômica de Hiroshima e Nagasaki salvou “um milhão de vidas”; o Iraque foi “libertado [por] ataques aéreos de precisão sem paralelos no mundo”. O tema era indiscutivelmente heroico: só os norte-americanos pagam ou algum dia pagaram o preço da liberdade”.

A campanha presidencial de 2016 é notável, não só por causa da ascensão de Donald Trump e Bernie Sanders, mas também pela resiliência do impenetrável, duradouro silêncio sobre uma divindade assassina, autorreverenciada. Um terço dos membros da ONU já sentiram o peso do tacão norte-americano, derrubando governos, subvertendo a democracia, impondo bloqueios e sanções. A maioria dos presidentes responsável por tudo isso eram social-democratas – Truman, Kennedy, Johnson, Carter, Clinton, Obama.

O recorde insuperável de perfídia, também por isso passou por uma mutação na mente popular, como disse o falecido Harold Pinter, “nunca aconteceu (…) Nada jamais aconteceu. Mesmo naquele momento em que estava acontecendo não estava acontecendo. Não importava. Não interessava. Nunca teve importância…” Pinter expressou admiração irônica ao que chamou de “manipulação quase clínica do poder em todo o mundo, sempre mascarada como se fosse uma força aplicada a favor do bem universal. É brilhante, espertíssimo, pode-se dizer que é um altamente bem-sucedido ato de hipnose.”

Vejam Obama. Agora que se prepara para deixar a presidência, os elogios incansáveis já recomeçaram. Obama é “cool“. Um dos presidentes mais violentos e mortíferos, Obama deu rédea solta ao aparelho de produzir guerras do Pentágono do presidente (desacreditado) que o antecedeu. Processou mais sentinelas-vazadores – gente que arrisca a vida para dizer a verdade aos semelhantes – que qualquer outro presidente. Declarou Chelsea Manning culpada, antes de haver sequer julgamento. Hoje, Obama comanda campanha mundial de terrorismo e de assassinatos por drones, de dimensões absolutamente jamais vistas.

Em 2009, Obama prometeu ajudar a “livrar o mundo das armas atômicas” e deram-lhe o Prêmio Nobel. Nenhum presidente algum dia construiu mais ogivas nucleares que Obama. Está “modernizando” o arsenal apocalíptico dos EUA, inclusive com novas ‘mini’ bombas atômicas, cujas dimensões e tecnologia ‘inteligente’ (sic), diz um dos altos generais dos EUA, asseguram que o uso das tais bombas “deixou de ser impensável”.

James Bradley, autor do best-seller "Flags of Our Fathers" e filho de um dos marines dos EUA que implantaram a bandeira em Iwo Jima, disse, “[Um] Grande mito que estamos vendo em cena hoje é que Obama seria alguma espécie de sujeito ‘pacífico’, tentando livrar-se de bombas nucleares. É o maior matador nuclear de que se tem notícia. Meteu os norte-americanos numa trilha de ruína, de gastos de 1 trilhão de dólares em mais armas atômicas. Sabe-se lá por quê as pessoas vivem nessa fantasia de que porque Obama faz palestras vagas e ainda mais vagos discursos e faz pose para fotógrafos amigos alguma dessas coisas teria a ver com a política real. Não. Nada têm a ver uma coisa e outra.”

No governo de Obama está-se construindo uma segunda guerra fria. O presidente russo é o ‘malvadão’ de filme; os chineses ainda não voltaram a ser a velha caricatura sinistra com rabo de porco que correspondia a eles no passado – quando os chineses foram banidos dos EUA – mas os jornalistas pró-guerra já trabalham nisso.

Nem Hillary Clinton nem Bernie Sanders sequer tocaram nesses temas durante a campanha, nem remotamente. Não há perigo. Nenhum perigo ameaça os EUA ou toda a humanidade. Para os candidatos, não aconteceu o maior acúmulo de forças militares junto às fronteiras da Rússia desde a Guerra Mundial. Não aconteceu. Dia 11 de maio, a Romênia entrou em cena ‘ao vivo’, com uma base “de mísseis de defesa” da OTAN, que existe para que os EUA tenham a prioridade de um primeiro ataque diretamente contra o coração da Rússia, a segunda maior potência nuclear do mundo.

Na Ásia, o Pentágono está enviando navios, aviões e forças especiais para as Filipinas para ameaçar a China. Os EUA já cercam a China com centenas de bases militares que desenham um arco, da Austrália até a Ásia, atravessando o Afeganistão. Para Obama, trata-se de “pivô para a Ásia”.

Consequência direta disso tudo, a China já mudou oficialmente sua política nuclear, de “nenhum primeiro ataque”, para alerta máximo, e já pôs no mar submarinos armados com armas atômicas. A escalada da guerra avança, cada vez mais rápida.

Foi Hillary Clinton quem, como secretária de Estado em 2010, elevou o tom das reivindicações sobre penhascos e barreiras de corais no Mar do Sul da China, como “territórios contestados” e fez disso uma questão internacional; na sequência, houve a histeria da CNN e da BBC, que segundo elas a China estaria construindo pistas de pouso nas ilhas em disputa. Nesse jogo em 2015, para a guerra de proporções de mamute houve a Operação Talisman Sabre, onde os EUA treinaram ataques contra o estreito de Malacca, por onde transitam quase todo o comércio e o petróleo chineses. Nada disso foi manchete.

Clinton declarou que os EUA teriam “interesse nacional” naquelas águas asiáticas. Filipinas e Vietnã foram encorajados e subornados para que mantivessem as ‘demandas’ e as disputas contra a China. Nos EUA, as pessoas já estão sendo adestradas para ver qualquer posição defensiva dos chineses, como agressão. Vale dizer que o cenário está pronto para uma escalada rápida rumo à guerra. E uma escalada similar de provocação e propaganda está em ação também contra a Rússia.

Clinton, a “candidata mulher”, deixa por onde passa uma trilha de golpes sangrentos e morticínio: em Honduras, na Líbia (o assassinato do presidente da Líbia) e na Ucrânia.

A Ucrânia agora é uma espécie de parque temático da CIA, pululando de nazistas, linha de frente da guerra que está sendo construída contra a Rússia. Foi através da Ucrânia – literalmente, através daquela área de fronteira – que os nazistas de Hitler invadiram a União Soviética, que perdeu, naquela guerra, 27 milhões de pessoas. Essa catástrofe épica é presença eterna na Rússia. A campanha de Clinton à presidência recebeu dinheiro de nove das dez maiores empresas fabricantes de armas do mundo. Nenhum outro candidato sequer se aproxima desses ‘números’.

Sanders, esperança de tantos jovens norte-americanos, não é muito diferente de Clinton nesse ideário pelo qual os EUA seriam proprietários do mundo além fronteiras. Sanders apoiou o bombardeio ilegal contra a Sérvia, no governo de Bill Clinton. Apoia o terrorismo de Obama operado por drones, a incansável provocação contra a Rússia e o retorno das forças especiais (esquadrões da morte) ao Iraque. Não disse coisa alguma sobre as crescentes ameaças à China e o risco crescente de guerra nuclear. Concorda com que Edward Snowden deve ser processado e chama Hugo Chavez – o qual, como o próprio Sanders, foi social-democrata – de “falecido ditador comunista”. E já prometeu apoiar Clinton, se for a escolhida.

A eleição entre ou Trump ou Clinton é a velha conversa fiada de escolher alguma coisa, quando de fato não há escolha: as duas faces da moeda são a mesma face. Fazendo das minorias bode expiatório e prometendo “fazer a América novamente grande”, Trump é populista doméstico de extrema direita. Mas em todos os casos Clinton pode ser mais letal para o mundo, que Trump.

“Só Donald Trump disse coisa com coisa contra a política externa dos EUA” – escreveu Stephen Cohen, professor de História Russa em Princeton e na NYU, e um dos poucos especialistas em Rússia nos EUA que falou claramente sobre o risco de guerra.

Num programa de rádio Cohen referiu-se a questões críticas que Trump e só ele havia levantado. Dentre elas: por que os EUA “estão ao mesmo tempo em todos os cantos do mundo?” Qual a verdadeira missão da OTAN? Por que os EUA sempre querem mudar, à força, o regime no Iraque, Síria, Líbia, Ucrânia? Por que Washington trata Rússia e Vladimir Putin como seus inimigos figadais?

A histeria da imprensa de ‘esquerda’ contra Trump só faz alimentar a fantasia de “debate livre e aberto” e de “democracia em ação”. O que ele diz sobre imigrantes e muçulmanos é grotesco, mas nem isso faz dele o deportador-em-chefe das pessoas vulneráveis para fora dos EUA: o deportador-em-chefe é Obama, não Trump. O ‘legado’ de Obama é ter traído os negros: gerou população carcerária na qual predominam os negros, já mais numerosa do que o gulag de Stálin.

A campanha eleitoral em curso pode não tratar de populismo, mas do que o mundo conhece como “‘esquerdismo’ à moda dos EUA” [orig. American liberalism], uma ideologia que se vê ela mesma como moderna e por isso superior e a única via ‘de verdade’. Os que habitam a ala direita desse ‘esquerdismo’ à moda dos EUA assemelham-se a imperialistas cristãos do século 19, que teriam a missão, dada por Deus, de converter, cooptar ou conquistar.

Na Grã-Bretanha, é o Blair-ismo. Tony Blair, cristão criminoso de guerra safou-se no processo da preparação secreta para invadir o Iraque, principalmente graças à classe política dos esquerdistas à moda dos EUA [orig. liberal political class] e porque a mídia caiu pelo tal “charme britânico” [orig. “cool Britannia”] do homem. No Guardian, o aplauso foi ensurdecedor; foi chamado de “o místico Blair”. Uma brincadeirinha conhecida como política de identidade, importada dos EUA, aproveitada para promovê-lo.

A História foi declarada acabada, as classes foram abolidas e o gênero foi promovido a feminismo; muitas mulheres foram eleitas ao Parlamento pelo Novo Trabalhismo. No primeiro dia, votaram a favor do Parlamento cortar os benefícios para famílias de pai ou mãe solteiros (a maioria, de mães solteiras e provedoras únicas), exatamente como haviam sido instruídas a fazer. A maioria da bancada ‘feminista’ votou a favor de uma invasão que produziu 700 mil viúvas iraquianas.

Equivalente a isso ´nos EUA são os belicistas promovidos a politicamente corretos no New York Times, Washington Post e redes de TV que dominam o debate político. Assisti a um debate feroz na CNN sobre as infidelidades conjugais de Trump. Evidentemente, diziam lá, homem desse tipo não poderia tomar conta da Casa Branca. Nada se discutiu, nada. Nem uma palavra sobre os 80% da população dos EUA, cujos níveis de renda desabaram para níveis de 1970s. Nem uma palavra sobre o alistamento militar. A palavra que desce dos céus sobre a humanidade parece ser “tape o nariz” e vote Clinton: qualquer coisa é melhor que Trump. Só assim você poderá deter o monstro e preservar um sistema que se calibra para mais uma guerra.

Traduzido para publicação em dinamicaglobal.wordpress.com