LULA PRESO POLÍTICO

LULA PRESO POLÍTICO

sexta-feira, 29 de dezembro de 2017

A “guerra ao Papa”, no ‘The Guardian’


Por Fernando Brito, via Tijolaço

Muito boa a extensa reportagem de Andrew Brown, do jornal inglês The Guardian, sobre a oposição crescente e organizada, dentro da Igreja Católica, ao Papa Francisco.
O jornal Público, de Lisboa, publicou a sua tradução e é leitura obrigatória para quem quiser entender o que se passa dentro do Vaticano e como, também lá, as forças da intolerância não suportam a orientação humanista que o cardeal argentino Jorge Bergoglio imprimiu à Santa Sé.
Um aperitivo do texto integral , que está aqui:
O Papa Francisco é atualmente um dos homens mais odiados do mundo. E quem mais o odeia não são ateus, protestantes ou muçulmanos, mas alguns dos seus próprios seguidores. Fora da Igreja goza de grande popularidade, afirmando-se como uma figura de uma modéstia e uma humildade quase ostensivas. Desde o momento em que o cardeal Jorge Bergoglio se tornou Papa em 2013, os seus gestos prenderam a atenção do mundo: o novo Papa guiou um Fiat, transportou as próprias malas e pagou a conta em hotéis; sobre os homossexuais, perguntou: “Quem sou eu para julgar?”, e lavou os pés de refugiadas muçulmanas.


Dentro da Igreja, porém, Francisco tem desencadeado uma reação feroz por parte dos mais conservadores, que temem que este novo espírito divida a Igreja ou até que a destrua. Este Verão, um proeminente clérigo inglês disse-me: “Mal podemos esperar que ele morra. É impublicável o que dizemos dele em privado. Sempre que dois padres se encontram, falam sobre o quão horrível Bergoglio é… ele é como Calígula: se tivesse um cavalo, fazia dele cardeal.” Claro que após dez minutos de repetidas críticas, acrescentou: “Não pode publicar nada disto, senão serei despedido.”
Vale muito a pena a leitura, para católicos ou não, até poque não é a fé que se discute, mas tolerância, humanidade e poder.

quinta-feira, 28 de dezembro de 2017

A Não Violência é patriarcal: Como a Não Violência protege o Estado


O patriarcado é uma forma de organização social que produz o que comumente reconhecemos como sexismo. Porém, vai mais além do preconceito individual ou sistêmico contra as mulheres. Em primeiro lugar, consiste na falsa divisão das pessoas em duas categorias rígidas (homem e mulher) que são afirmadas como sendo tanto naturais como morais. (Muita gente perfeitamente sadia não se encaixa em nenhuma destas categorias fisiológicas, e muitas culturas não ocidentais reconheciam – e ainda o fazem, se ainda não foram destruídas – mais de dois sexos e gêneros.) O patriarcado insiste em definir papéis claros (econômicos, sociais, emocionais e políticos) para homens e mulheres, afirmando (falsamente), que estes papéis são naturais e morais. O patriarcado tenta destruir, social e, inclusive, fisicamente, qualquer um que não se encaixe em uma destas categorias ou que recuse este “binarismo de gênero”. Sob o patriarcado, as pessoas que não se encaixam ou que recusam estes papéis de gênero são neutralizadas por meio da violência e do ostracismo. Fazem-lhes parecer e sentir feios, sujos, temíveis, depreciáveis e inúteis.
O patriarcado é danoso para todos, e é reproduzido por qualquer um que nele viva. De acordo com seu nome, coloca os homens em uma posição dominante e as mulheres numa posição submissa. As atividades e características que estão tradicionalmente associadas ao “poder”, ou ao menos ao privilégio, pertencem majoritariamente aos homens[1]. O patriarcado outorga tanto a habilidade, quanto o direito ao uso da violência quase exclusivamente aos homens. Com o gênero, assim como em relação à raça, a não violência é inerentemente uma posição privilegiada. A não violência assume que, ao invés de nos defendermos da violência, podemos sofrê-la pacientemente até que uma parte considerável da sociedade se mobilize para se opor pacificamente a ela (ou que podemos esperar e “transformar” individualmente qualquer agressão que nos ameace). Muitos proponentes da não violência a apresentam não apenas como uma prática política meramente demarcada, mas como uma filosofia que merece penetrar no tecido social e dele desenraizar a violência em todas suas manifestações. Mas parece que os pacifistas não levam a violência do patriarcado em consideração. Depois de tudo, nas guerras, nas revoluções sociais e na vida diária, as mulheres e as pessoas transgênero são, dentro da sociedade patriarcal, as receptoras primárias da violência.
Se retirarmos esta filosofia da arena política impessoal e a colocarmos num contexto mais real, a não violência implica na crença de que é imoral que uma mulher se defenda de um agressor ou que aprenda autodefesa. A não violência assume que para uma mulher maltratada seria melhor partir, ao invés de se mobilizar em um grupo de mulheres e dar uma surra no marido agressor, escurraçando-o de casa[2]. A não violência afirma que é melhor ser estuprada do que tirar uma caneta do bolso e afundá-la na jugular do agressor (porque fazê-lo seria supostamente alimentar um ciclo de violência e fomentar futuras violações). O pacifismo simplesmente não tem ressonância nas realidades diárias das pessoas, a menos que estas pessoas vivam em um extravagante mar de tranquilidade, em que toda forma de violência civil, reativa e pandêmica, tenha sido expulsa pela violência sistêmica menos visível da polícia e das forças militares.
Por outro ângulo, a não violência cabe muito bem ao patriarcado. Depois de tudo, a abolição do patriarcado requer formas de resistência que enfatizem a cura e a reconciliação[3]. A concepção ocidental de justiça, baseada na lei e no castigo, é totalmente patriarcal. Já nos primeiros códigos legais as mulheres eram definidas como propriedades, e as leis foram escritas para e por homens proprietários, que por sua vez eram educados para não demonstrarem emoções; os “delitos” eram corrigidos através de castigos, ao invés de reconciliações. E mais, o patriarcado não se sustenta com base em uma elite poderosa que deva defendê-lo pela força, mas é sustentado por todo mundo.
Uma vez que a distribuição do poder dentro do patriarcado é muito mais difusa que no Estado ou no capitalismo, lutar contra os poderosos ou máximos responsáveis é um papel muito menor. Um general que, por exemplo, assessora uma empresa armamentista possui poder significativo dentro do Estado e do capitalismo, mas não extrai especificamente do patriarcado muito mais poder que qualquer outro homem, exceto talvez o de representar um modelo de virilidade. Devemos construir uma cultura que nos permita ter uma identidade própria em termos de gênero e que apoie a construção de relações saudáveis e a recuperação de gerações de violência e trauma. Isto é perfeitamente compatível com o treinamento em autodefesa para mulheres e pessoas transgênero, e combate às instituições econômicas, culturais e políticas exemplarmente patriarcais que são especialmente responsáveis por suas formas mais brutais. Matar um policial que estupra travestis e prostitutas sem casa, por fogo no escritório de uma revista que conscientemente publica um padrão de beleza que conduz à anorexia e à bulimia, ou sequestrar o presidente de uma empresa que trafica mulheres - nenhuma dessas ações vai de encontro com a construção de uma cultura de liberdade. Mas são aqueles com poder, que conscientemente tiram proveito do patriarcado, os mais ativos opositores do desenvolvimento desta cultura. Valorizar relações mais livres complementa-se com uma oposição militante às instituições que propagam relações exploradoras e violentas. Atacar os exemplos mais visíveis e provavelmente incorrigíveis do patriarcado é uma maneira de educar as pessoas sobre a necessidade de uma alternativa. A maior parte do trabalho necessário para superar o patriarcado provavelmente será pacífico, focado na construção de alternativas e de reabilitação das feridas provocadas por ele. Mas uma prática pacifista que esquece o uso de qualquer outra tática deixa sem opção as pessoas que necessitam proteger-se da violência aqui e agora.
No caso do estupro e de outras formas de violência contra mulheres, a não violência implica nas mesmas lições que o patriarcado nos ensinou durante milênios: glorificar a passividade – “dar a outra face” e “dignificar o sofrimento” – frente à opressão. Todas as histórias, mandamentos, parábolas e leis contidas no Antigo Testamento, um dos textos mais lúcidos que define como conservar e pôr em prática o patriarcado, aconselham às mulheres sofrer pacientemente a injustiça e rezar para que a divina Autoridade intervenha. (Esta prescrição é parecida com a crença existente no pacifismo de que, sempre que os meios de comunicação disseminam imagens do sofrimento dignificado, as autoridades se sentem motivadas a realizar a justiça.) Dado que o patriarcado prescreve claramente uma violência masculina unilateral, as mulheres estariam interrompendo esta dinâmica de poder não reforçando-a, senão reapropriando-se de sua capacidade de exercer violência[4]. Neste sentido, o fato das mulheres reclamarem para si a habilidade e o direito do uso da força não põe fim por si só ao patriarcado, mas é uma condição necessária para a libertação de gênero, assim como uma forma útil de empoderamento e de proteção a curto prazo.
As pacifistas e feministas reformistas têm apontado muitas vezes que são as pessoas que praticam o ativismo militante as que são sexistas. Em muitos casos específicos, essa acusação tem sido válida. Mas a crítica frequentemente se estende para sugerir que o uso ativista da violência é sexista em si mesmo, masculino, ou, ao menos, previlegiado[5]. Como Laina Tanglewood explica: “Algumas ‘feministas’recentes criticam que o anarquismo condenou a militância a ser sexista e a não incluir as mulheres [...] Esta ideia é em realidade mais sexista”[6]. Outras anarquistas assinalam que “na verdade, a masculinização da violência, com sua velada concomitância sexista e a feminização da passividade, realmente se deve mais àquelas pessoas cuja noção de mudança inclui a revolução ou a aniquilação do Estado”[7].
Da mesma forma, para quem a noção de liberdade não inclui a capacidade das mulheres de defenderem a si mesmas? Respondendo à suposição de que as mulheres somente podem ser protegidas por amplas estruturas sociais, a ativista Sue Daniels recorda-nos: “uma mulher pode livrar-se de um agressor por si mesma [...] a questão central não é de quem é fisicamente mais forte; é uma questão de treinamento”[8]The Will to Win!Women and Self-Defense (O direito de ganhar! Mulheres e autodefesa), um panfleto anônimo, agrega o seguinte:

É ridículo que existam tantas organizações de apoio e orientação para mulheres que tenham sido violentadas, atacadas ou maltratadas, e nenhuma que trabalhe para preparar e prevenir que estas coisas aconteçam. Devemos rechaçar sermos vítimas e desfazer a ideia de que devemos nos submeter a nossos agressores para nos mantermos distanciadas de uma violência ainda mais extrema. Na realidade, submeter-se a nossos agressores só contribuirá para uma futura violência contra outras[9].

A ideia de que a violência é masculina, ou que o ativismo revolucionário exclui necessariamente as mulheres, travestis e pessoas trans está, como outras premissas da não violência, baseada em um esquecimento histórico[10]. Ignoram as mulheres nigerianas ocupadas em sabotar as jazidas de petróleo; as mulheres mártires da intifada palestina; as guerreiras travestis e transgênero da Stonewall Rebellion; as milhares de mulheres que lutaram com o Vietcong; as mulheres líderes da resistência Nativa ao genocídio europeu e norte-americano; Mujeres Creando, um grupo de anarco-feministas na Bolívia; as sufragistas britânicas que geraram distúrbios e lutaram contra os policiais. Se esquecem também das mulheres que ocuparam os mais altos níveis de liderança à frente do Partido dos Panteras Negras, as zapatistas, as Weather Underground, e outros grupos militantes. A ideia de que defender-se de algum modo exclui as mulheres é absurdo. Nem sequer a história do branco e pacificado “primeiro mundo” o afirma, porque nem o patriarcado mais efetivo que pudéssemos imaginar, em momento algum, seria capaz de impedir que todas as pessoas transgênero e todas as mulheres lutassem de maneira militante contra a opressão.
As pessoas partidárias da não violência, que fazem uma limitada exceção com a autodefesa porque reconhecem até que ponto é errôneo dizer que as pessoas oprimidas não podem ou devem proteger a si mesmas, não têm estratégias viáveis para tratar com a violência sistêmica. A autodefesa serve para defender-se de um marido maltratador, mas não para fazer voar ao ar uma fábrica emissora de dióxido que intoxica seu leite materno? O que existe sobre uma campanha mais coordenada para destruir a empresa que pertence à fábrica e ao responsável de liberar os contaminantes? É autodefesa matar o general que envia soldados que violam mulheres em uma zona de guerra? Ou os pacifistas devem permanecer na defensiva, somente respondendo aos ataques individuais e submetendo a si mesmos à inevitabilidade de tais ataques até que a tática não violenta faça mudar de alguma forma o general ou provoque o fechamento da fábrica, em um futuro incerto?
Além de proteger o patriarcado da oposição militante, a não violência também ajuda a preservar as dinâmicas patriarcais dentro do movimento. Uma das maiores premissas do atual ativismo antiopressão (nascido do desejo comum de promover movimentos mais livres e empoderadores e de evitar o corpo a corpo amplamente contido por dinâmicas de opressão e de descuido que invalidaram as lutas de libertação das gerações anteriores) é que as hierarquias sociais opressivas existem e reproduzem a si mesmas no comportamento de toda pessoa, e devem ser superadas tanto interna como externamente. Mas o pacifismo prospera evitando a autocrítica[11]. A maioria de nós está familiarizada com o esteriótipo parcialmente justificado da autocomplacência, a autocelebração de ativistas não violentos que “personificam a mudança que desejariam ver no mundo”[12] até tal ponto de, em suas mentes, personificarem todo o belo e correto. Um seguidor de uma organização pacifista exclamou, em resposta a críticas sobre o privilégio, que o líder de raça branca e de gênero masculino participante do grupo, possivelmente, não podia exercer um privilégio por ser branco e ser homem já que se tratava de uma boa pessoa, como se a supremacia branca e o patriarcado fossem associações inteiramente voluntárias[13]. Em tal contexto, com que facilidade poderia um grupo com uma liderança predominantemente masculina, entendido como a personificação do ideal não violento, resultante de sua participação em um impressionante número de greves de fome e protestos, ser mobilizado contra comportamentos opressivos, contra a transfobia ou contra o abuso sexual?
A tendência do pacifismo de evitar a autocrítica não é somente típica, é funcional. Quando sua estratégia para vencer provém de “capturar e manter a superioridade moral como vantagem diante de nossos oponentes”[14], é necessário reproduzir a si mesmo como moral e a seu inimigo como imoral. Não cobrir fanatismos e dinâmicas opressivas diante líderes e membros do grupo é simplesmente contraproducente para a estratégia escolhida. Quantas pessoas sabem que Martin Luther King Jr. tratou Ella Becker [que foi a responsável geral da construção da Conferência de Liderança Cristã do Sul (Southern Christian Leadership Conference, SCLC), enquanto King era ainda inexperiente como organizador] como sua secretária; riu da cara de algumas mulheres da organização quando sugeriram que o poder e a liderança deveriam ser compartilhados; disse também que o papel natural das mulheres era a maternidade, e que elas, sem sorte, se viam “forçadas” a ocupar as posições de “mestre” e “líder”[15]; e expulsou Bayard Rustin de sua organização porque Rustin era gay [16]? Mas, então, porque estes fatores, amplamente disponíveis quando transformamos King em um ícone, levariam a encobrir tais faltas retratando-o como um santo? Para o ativismo revolucionário, de qualquer maneira, a vitória chegará através do empoderamento e do uso de melhores estratégias para combater o Estado e sobreviver à repressão. Tal caminho requer constante avaliação e autocrítica[17].
É frequente a pré-existência de suposições sexistas que pintam os grupos militantes mais sexistas do que em realidade o são. Por exemplo, as mulheres eram, efetivamente, excluídas das posições de liderança no SCLC[18] de King, quando, ao contrário, as mulheres (por exemplo, Elaine Brown), às vezes, alcançavam as mais altas posições no Partido dos Panteras Negras (Black Panther Party, BPP). Ainda assim, é o BBP, e não o SCLC, que se elevou como o paradigma do machismo. Kathleen Cleaver contestou quando disse: “Em 1970, o BPP tomou uma posição formal na libertação da mulher. O Congresso dos Estados Unidos fez a mínima declaração sobre a libertação da mulher?[19]”. Frankye Malika Adams, outra Pantera, disse: “As mulheres organizaram bastante a BPP. Não sei como conseguiram ser um partido de homens ou pensaram como se fossem”[20]. Ressuscitando uma história mais rigorosa do Partido dos Panteras Negras, Mumia Abu-Jamal documenta que foi, de alguma maneira, “um partido de mulheres”[21].
Apesar disso, o sexismo persistiu entre os Panteras, como persistiu em qualquer ambiente revolucionário, e em qualquer outro segmento da sociedade patriarcal de hoje em dia. O patriarcado não pode ser destruído da noite para o dia, mas pode ser gradualmente vencido por grupos que trabalham para destruí-lo. O ativismo deve reconhecer o patriarcado como o principal inimigo e abrir espaço nos movimentos revolucionários para mulheres, travestis e transgêneros para constituir-se como forças criativas no momento de dirigir, assessorar e reformular a luta (enquanto também apoia os esforços dos homens para entender e neutralizar nossa própria socialização). Uma avaliação honesta mostra que não importam nossa intenções, resta muito trabalho para fazer para libertar o movimento do controle das mãos dos homens e para encontrar formas mais saudáveis e reconfortantes para tratar com padrões de abuso em relações, sociais ou sexoafetivas, entre membros do movimento.
Sejam militantes ou pacifistas, quase todas as discussões táticas ou estratégicas nas quais participei foram assistidas e dominadas constrangidamente por homens. Longe de afirmar que as mulheres e as pessoas transgêneros são de alguma forma incapazes de participar de uma ampla gama de opções táticas (ou mesmo discuti-las), faríamos bem em lembrar as vozes daquelas que lutaram, violentamente, de maneira desafiante, efetivamente como revolucionárias. Por exemplo, as Mujeres Creando, um grupo anarco-feminista da Bolívia. Suas integrantes se dedicaram a campanhas de grafites e campanhas antipobreza, e protegeram as pessoas da violência policial durante as manifestações. Em sua ação mais dramática, se armaram com coquetéis molotov e cartuchos de dinamite e ajudaram um grupo de agricultores indígenas a tomar um banco para reivindicar que fosse perdoada uma dívida que estava matando de fome a todos eles e às suas famílias. Em uma entrevista, Julieta Paredes, membra fundadora, explica as origens do grupo:

Mujeres Creando é uma "loucura" iniciada por três mulheres [Julieta Paredes, María Galindo e Monica Mendoza] a partir da arrogante, homofóbica e totalitária Bolívia dos anos oitenta [...] A diferença entre nós e aqueles que falam sobre a derrubada do capitalismo é que todas as propostas para uma nova sociedade provêm do patriarcado de esquerda. Como feministas, em Mujeres Creando queremos revolução, uma mudança real do sistema [...] Eu disse antes e repito que não somos anarquistas por Bakunin ou pela CNT, mas sim por nossas avós, e esta é uma bela escola do anarquismo[22].

Sylvia Rivera, uma drag-queen porto-riquense, falou sobre sua participação na rebelião de Stonewall em 1969, provocada depois da batida policial, no Stonewall Bar en Greenwich Village da cidade de Nova Iorque, com a finalidade de perseguir a clientela trans e travesti:

Não aceitaremos mais merdas como essa. Temos feito muito por outros coletivos. Chegou o momento. Na primeira linha estavam os gays das ruas de Village e as pessoas sem teto que viviam no parque de Sheridan Square em frente ao bar, depois as drag-queens e todo mundo atrás de nós [...] Estou encantada de ter estado nos distúrbios de Stonewall. Lembro que quando alguém lançou um coquetel molotov, pensei: ”Meu deus, a revolução finalmente está aqui!” Sempre acreditei que teríamos que nos defender. Tinha certeza de que nos defenderíamos. Só que não sabia que ia ser naquela noite. Se tivesse perdido esse momento, iria me sentir de alguma maneira dolorida porque foi quando vi como mudava o mundo para mim e para minha gente. Ainda que, claro, resta diante de nós um longo caminho por seguir[23].

Ann Hansen, uma revolucionária canadense, cumpriu sete anos de condenação em prisão por estar envolvida em 1980 nos grupos clandestinos Direct Action e Wimmin's Fire Brigade, que, entre outras ações, colocaram uma bomba na fábrica de Litton Systems (fabricante de componentes para mísseis navais) e lançaram bombas incendiárias em uma cadeia de lojas de pornografia que vendia vídeos reproduzindo violações. De acordo com Hansen:

Existem muitas formas diferentes de ação direta, algumas mais efetivas que outras em diferentes momentos da história, mas em conjunto com outras formas de protesto a ação direta pode fazer o movimento mais efetivo pela mudança abrindo caminhos de resistência que não são nem facilmente absorvidos nem facilmente controláveis pelo estado. Infelizmente, as pessoas de dentro do movimento debilitam suas próprias ações quando fracassam no entendimento e no apoio das diversas táticas disponíveis [...] Nos transformamos em pacíficos[24].

Nascida na Rússia, Emma Goldman - a anarquista americana mais famosa – participou na tentativa de assassinato do empresário do aço Henry Clay Frick em 1892; partidária da Revolução Russa e uma das primeiras críticas do governo leninista, escreve o seguinte sobre a emancipação das mulheres: “A história nos conta que toda classe oprimida ganha a verdadeira libertação de seus amos através de seus próprios esforços. É necessário que a mulher aprenda esta lição, que perceba que não alcançará sua liberdade até que alcance o poder para realizá-la[25].
Mollie Steimer foi outra imigrante anarquista russa na América. Desde muito jovem, Steimer trabalhou com Frayhayt, um periódico anarquista em yiddish de Nova York. Na capa do mesmo aparece este lema: “A única guerra justa é a revolução social”. De 1918 em diante, Steimer foi detida e presa repetidamente por falar claramente contra a Primeira Guerra Mundial ou em apoio da Revolução Russa, que, naquele tempo, antes da consolidação leninista e dos exílios, tinha um componente significativamente anarquista. Em um julgamento declarou: “Para o cumprimento desta ideia [o anarquismo], consagrarei toda minha energia e, se necessário, darei minha vida por isso”[26]. Steimer foi deportada para a Rússia e depois presa pelos Sovietes por seu apoio aos anarquistas prisioneiros lá.
Anna Mae Pictou-Aquash foi uma mulher Mi'kmaq e uma ativista do Movimento Indígena Americano (American Indian Movement, AIM). Depois de ensinar e orientar a juventude Nativa, e “trabalhar com as Boston's African American e Native American Communities”[27], uniu-se ao AIM e se envolveu na ocupação de 71 dias do Wounded Knee na reserva de Pine Ridge em 1973. Em 1975, em relação a um período de brutal repressão, durante o qual pelo menos 60 membros e partidários do AIM foram assassinados por paramilitares equipados pelo FBI, Pictou-Aquash esteve presente em um tiroteio no qual dois agentes do FBI foram assassinados. Em novembro de 1975, foi declarada fugitiva por faltar a uma audiência de acusação de posse de explosivos. Em fevereiro de 1976, foi encontrada morta com um disparo na nuca; o legista apontou como causa de morte “hipotermia”. Por trás de seu falecimento, se supôs que o FBI a ameaçou de morte por não delatar outros ativistas do AIM. Durante toda sua vida, Pictou-Aquash foi uma ativista e revolucionária muito comprometida.

Essa gente branca pensa que o país pertence a elas – não percebem que, se agora estão no lugar certo é só porque eles são mais numerosos. O país inteiro mudou com só um punhado de peregrinos maltrapilhos que vieram aqui em 1500. É possível conseguir um punhado de índios maltrapilhos para fazer o mesmo; eu tentei ser um desses índios[28].

Rote Zora (RZ) foi um grupo alemão de guerrilha urbana de feministas anti-imperialistas. Junto às aliadas Células Revolucionárias, levaram a cabo mais de duzentos ataques, a maioria colocando bombas, durante os anos 70 e 80. Apontaram contra pornógrafos; empresas exploradoras; edifícios governamentais; companhias que traficavam mulheres para serem esposas, escravas sexuais e trabalhadoras domésticas; entre outras coisas. Em uma entrevista anônima, integrantes do Rote Zora explicaram: “As mulheres do RZ começaram em 1974 colocando uma bomba no Supremo Tribunal de Karlsruhe porque queríamos a abolição total da '218' (a lei do aborto)”[29]. À pergunta de se a violência prejudica o movimento tanto como suas bombas, responderam:

Zora 1: Para prejudicar o movimento - você fala da instalação da repressão. As ações não prejudicam o movimento! Tudo ao contrário, podem e devem apoiá-lo de uma forma direta. Nosso ataque contra os traficantes de mulheres, por exemplo, ajudou a expor à luz pública seus negócios, a ameaçá-los, e agora eles têm que antecipar-se à resistência das mulheres se querem seguir adiante com seus negócios. Estes “cavalheiros” sabem que têm que prever a resistência. A isso chamamos o fortalecimento de nosso movimento.

Zora 2: Faz já muito tempo que a estratégia da contrarrevolução começou a dividir totalmente a ala radical do resto do movimento ilhando-se para debilitar o movimento inteiro. Nos anos 70, tivemos a experiência do que significa que setores da esquerda adotem a propaganda do estado, quando começam a apresentar aqueles que lutam de maneira autônoma[30] como os responsáveis do estado de perseguição, destruição e repressão. Não só confundem a causa com o efeito, como implicitamente justificam o estado de terror. Portanto, são eles mesmos quem debilitam suas próprias posições. Eles estreitam o marco dos protestos e as resistências [...]

A entrevista prosseguiu desenvolvendo a seguinte questão: como mulheres não autônomas e não radicais podem entender o que vocês querem? Ações armadas para o efeito de assustar.

Zora 2: Talvez seja temível que a realidade do dia a dia seja questionada. As mulheres, que desde pequenas têm martelado em suas cabeças a ideia de que são vítimas, se transformam em inseguras se têm que enfrentar o fato de que as mulheres não são vítimas e nem pacíficas. Isso constitui uma provocação. Aquelas mulheres que experimentam sua falta de poder com raiva podem identificar-se com nossas ações. Dado que cada ato de violência contra uma mulher cria uma atmosfera de ameaça contra todas as outras, nossas ações contribuem - mesmo que só apontem o responsável individual - para o desenvolvimento de uma atmosfera de "A resistência é possível!"[31].

Há, no entanto, muita literatura feminista que anula os efeitos empoderadores (e historicamente importantes) da luta militante do movimento de mulheres e outros movimentos, oferecendo em seu lugar um feminismo pacifista. As feministas pacifistas apontam o sexismo e o machismo de certas organizações militantes de libertação as quais deveríamos tomar conhecimento. O argumentar contra da não violência e a favor de uma diversidade de táticas não deveria implicar absolutamente em um acordo com as estratégias ou culturas de grupos militantes do passado (por exemplo, a postura machista do Weather Underground ou o antifeminismo das Brigatte Rosse)[32]. Mas o fato de tomarmos seriamente estas críticas não impede que sinalizemos a hipocrisia das feministas que de boa vontade censuram o comportamento sexista dos militantes, mas encobrem quando são pacifistas os que o cometem, por exemplo, deleitando-se com o conto de que Gandhi aprendeu de sua mulher a não violência, ignorando os preocupantes aspectos patriarcais de sua relação[33].
Algumas feministas vão além das críticas específicas e tentam forjar uma ligação metafísica entre o feminismo e a não violência: esta é "a feminilização da passividade" antes mencionada. Em um artigo publicado no jornal de Berkeley Peace Power, Carol Flinders cita um estudo realizado por cientistas da Universidade da Califórnia (UCLA), alegando que as mulheres são hormonalmente programadas para responder ao perigo não com o mecanismo de "atacar ou correr", que é atribuído aos homens, mas com o mecanismo de “cuidar ou tentar aproximação”. De acordo com esses cientistas, as mulheres, em um estado de ameaça, “acalmam as crianças, alimentam a todos, disseminam a tensão e se conectam com outras mulheres”[34]. Esse tipo de ciência sensacionalista tem sido uma ferramenta favorável para reconstituir o patriarcado mediante a suposta prova da existência de diferenças naturais entre homens e mulheres; as pessoas estão pré-dispostas a esquecer princípios matemáticos básicos com tal força a ponto de se entregarem a um mundo tão bem sistematizado. Ou seja, dividindo-se arbitrariamente a humanidade em duas partes (macho e fêmea) com base em um número muito limitado de características, invariavelmente, serão produzidos diferentes resultados que servem de cânone para cada parte. As pessoas que não sabem que o resultado extraído de tal operação aritmética não expressa, mas obscurece, a diversidade dentro de um conjunto declaram animadas que as partes são categorias naturais e continuam fazendo as pessoas se sentirem como antinaturais e anormais se não se encaixam no cânone de sua parte (não queira Deus que se encaixem com o resultado oposto. Façamos uma pausa para comemorar a imparcialidade da Ciência!).
Mas Flinders não para por aí, com o estudo implicitamente transfóbico e essencializador do gênero[35] da Universidade de Califórnia. Continua investigando em "nosso remoto passado pré-humano. Entre os chimpanzés, nossas relações mais próximas, os machos patrulham o território no qual as fêmeas alimentam as crias [...] As fêmeas raramente estão nessas frentes, elas se dedicam mais ao cuidado típico de descendentes". Flinders diz que isso mostra que "entrar em combate direto nunca foi uma característica particularmente adaptativa para as mulheres" e "as mulheres tendem a aproximar-se da não violência a partir de diferentes frentes e até mesmo viver a não violência de forma bastante diferente”[36]. Flinders está outra vez equivocada em nome da ciência, além de assumir um tom extremamente sexista.
Primeiramente, o determinismo evolutivo que usa nem é escrupuloso e tampouco se pode provar; sua popularidade provém de criar uma desculpa para as estruturas sociais historicamente opressivas. Inclusive neste contexto incerto, Flinders é imprecisa em suas suposições. Os não humanos evoluíram a partir de chimpanzés, mas ambas espécies evoluíram a partir de um antecessor comum. Os chimpanzés são tão modernos quanto os humanos e ambas as espécies tiveram a oportunidade de desenvolver adaptações no comportamento que divergem de um ancestral comum. Nós estamos mais atados às divisões de gênero do que os chimpanzés, do que eles estão a nossa propensão para desenvolver enormes listas de palavras para obscurecer a verdade do mundo à nossa volta. Segundo, através do mesmo caminho que a levou a afirmar a tendência feminina para não violência, Flinders encontrou uma afirmação de que o papel natural das mulheres é confortar as crianças e alimentar a todo mundo longe da linha de frente. Flinders mostrou, ainda que marcada por acidente, que o mesmo sistema de crenças que diz que as mulheres são pacíficas, também diz que o papel da mulheres é cozinhar e criar crianças. O nome para este sistema de crença é patriarcado.
Outro artigo de uma feminista acadêmica se torna essencialista em menos de um piscar de olhos. No segundo parágrafo de Feminism and Nonviolence: A Relational Model(Feminismo e Não Violência: Um Modelo relacional), Patrizia Longo escreve:

Anos de pesquisa [...] sugerem que apesar dos problemas potenciais que se supõe, as mulheres têm participado de forma consistente na ação não violenta. No entanto, as mulheres escolhem a não violência não por querer melhorar a si mesmas através de um sofrimento adicional, mas porque a estratégia se encaixa com seus valores e recursos.[37]

Constrangendo as mulheres à não violência, parece que as feministas pacifistas devem também restringir nossa definição de "valores e recursos" das mulheres; definem quais traços são essencialmente femininos confinando as mulheres em um papel falsamente identificado como natural, e deixando de fora aquelas que não se encaixam nele.
É difícil quantificar o número de feministas que aceitam atualmente as premissas do essencialismo, mas parece que um grande número de feministas de base não aceitam a ideia de que o feminismo e a não violência estão ou devem estar intrinsecamente ligados. Em um fórum de discussão online, dezenas de mulheres que se definem como feministas responderam à pergunta: "Existe uma ligação entre a não violência e feminismo?" A maioria das presentes, algumas pacifistas, outras não, expressou a crença de que as feministas não precisam apoiar a não violência. Uma mensagem resumiu a discussão da seguinte maneira: "Há uma pressão substancial dentro do feminismo, que vincula as mulheres a não violência. Mas há um grande número de feministas lá fora, entre as quais eu mesma me incluo, que não querem se ver automaticamente incluídas em uma postura (isso é, a não violência), simplesmente por nossos órgãos genitais ou por nosso feminismo”[38].

Referências
1.    Ir para cima↑ Para mais informações sobre o patriarcado, recomendo encarecidamente as obras de Bell Hooks, assim como Kate Bornstein (Gender Outlaw, por exemplo) e Leslie Feinberg (por exemplo, Transgender Warriors). Também, para uma aproximação histórica e antropológica, The Creation of Patriarchy, de Gerda Lerner (Nova York: Oxford University Press, 1986). Lerner tem boas informações, mas se limita muito a si mesma dentro de uma perspectiva de gênero binária rezando para que a divina autoridade intervenha. (Este requisito é semelhante à fé que o pacifismo tem na mídia para que divulgue imagens de sofrimento dignas de motivar as autoridades a fazer justiça.) Ignora as categorias de gênero tomando-as como naturais, perdendo assim o primeiro passo e mais importante na criação do patriarcado, que é a criação de duas categorias rígidas de gênero. Interessante informação, corrigindo essa omissão, pode ser encontrada em Moira Donald e Linda Hurcombe, eds. Representatinos of Gender from Pre history to Present (St Martin’s Press, 200)
2.    Ir para cima↑ Esta última estratégia tem sido aplicada com sucesso em muitas sociedades antiautoritárias ao longo da história, incluindo a Igbo, na Nigéria, hoje. Por exemplo, ver Judith Van Allen, “‘Sitting on a Man’, Colonialism and the Lost Political Institutions of Igbo Women”, Canadian Journal of African Studies, v. 2, 1972, p. 211-219.
3.    Ir para cima↑ Para uma justiça mais restaurativa, uma forma básica de lidar com os danos sociais através da cura e da reconciliação (assim, um conceito de justiça conveniente para tratar vários "crimes" que têm suas raízes no patriarcado), ver Larry Tifft, Battering of Women: The Failure of Intervention and the Case for Prevention (Boulder: Westview Press, 1993) e Dennis Sullivan e Larry Tifft, Restorative Justice: Healing the Foundations of Our Everyday Life (Monsey, NY: Willow Tree Press, 2001).
4.    Ir para cima↑ Bell Hooks apresenta uma análise mais complexa, tratando também do problema da violência das mulheres, em muitos livros, incluindo The Will To Change: Men, Masculinity, and Love (Nova York: Atria Books, 2004). Porém, a violência das mulheres que Hooks discute não é política, não é uma forma de violência consciente contra os agentes do patriarcado, mas sim um deslocamento impulsivo contra o abuso de crianças e outras pessoas situadas em posições inferiores na hierarquia social. Este é um exemplo de um verdadeiro ciclo de violência, que as pacifistas acreditam ser a única forma de violência. E, enquanto todas as formas traumáticas de violência se transformam em cíclicas (isto é, a forma como as pessoas reagem ao trauma da violência inicial perpetuando-a), as hierarquias violentas se mantêm através do uso sistemático da violência de forma unilateral. A resistência violenta dirigida contra as hierarquias e seus engenheiros, longe de perpetuar o ciclo de violência, o debilita. O mundo não é um campo em que diferentes agentes sociais encontram-se em iguais condições (em termos de poder e responsabilidade) para exercer a violência. A violência que decorre de outros níveis de hierarquia e outros fins tem também, naturalmente, resultados diferentes. Mais especificamente, se as mulheres se organizarem de forma coletiva para um atacar enérgico e vigoroso contra os estupradores, violações específicas serão evitadas. O trauma de violações anteriores será exortado de forma construtiva e empoderadora, homens descartarão a opção de estuprar impunemente, e futuras violações serão desencorajadas. Ou, outro exemplo, negros e latinos das cidades que realizam ataques de guerrilha contra a polícia não encorajam um ciclo de violência. A polícia não mata pessoas não brancas por estar traumatizada por situações de violência anteriores; ela o faz porque o sistema de supremacia branca exige e porque é paga para isso. É claro que toda atividade revolucionária resulta em um aumento da repressão, mas isso é um mero obstáculo para a destruição do Estado, que é o maior agente fomentador de violência. Após a destruição do Estado, do capitalismo e das estruturas patriarcais, as pessoas ainda estarão traumatizadas, ainda terão pontos de vista autoritários e patriarcais, mas os problemas individuais que não são reforçados estruturalmente podem ser tratados de maneira cooperativa não violenta. Exércitos não terão mais lugar.
5.    Ir para cima↑ Por exemplo, Robin Morgan, em The Demon Lover: On the Sexuality of Terrorism (New York: W.W. Norton, 1989). The Rock Block Collective’s pamphlet, Stick it to the Manarchy (Decentralized publication and distribution, 2001) faz críticas válidas contra o machismo em círculos anarquistas brancos, mas sugere que a militância em si mesma é machista e que as mulheres, pessoas não brancas, e outros grupos oprimidos são, de alguma maneira, demasiado frágeis para participar de uma revolução violenta.
6.    Ir para cima↑ Laina Tanglewood, “Against the Masculinization of Militancy”, citado em Ashen Ruins, Against the Corpse Machine: Defining a Post-Leftist Anarchist Critique of Violence (Decentralized publication and distribution, abr. 2002). Disponível em: <http://www.infoshop.org/rants/corpse_last.html>.
7.    Ir para cima↑ Ibid.
8.    Ir para cima↑ Sue Daniels, e-mail, set. 2004. Para mais informações sobre autodefesa para mulheres, Daniels recomenda Martha McCaughei, Real knockouts: The Phisical Feminism of Women Self-Defense (Nova Iorque: New York University Press 1998).
9.    Ir para cima↑ The Will To Win! Women and Self-Defense é um panfleto anônimo distribuído por Jacksonville Anarchist Black Cross (4204 Herschel Street, #20, Jacksonville, FL 32210).
10.  Ir para cima↑ No texto original, o autor utiliza o termo anglo-saxão “whitewashing”, que é traduzido literalmente por “branqueamento”; com ele, se refere ao fato de apagar propositalmente da história e da memória toda marca que seja “incômoda” para o Estado, o patriarcado, o capitalismo ou a supremacia branca. [N. do T.].
11.  Ir para cima↑ O aforismo conservador pacifista de que "a mudança deve vir de dentro" não deve ser confundido com autocrítica. Funcionalmente, esta filosofia incapacita as pessoas para desafiar o sistema e combater a opressão estrutural; é análoga à noção cristã de pecado como uma barreira para a rebelião e outras ações coletivas para a opressão. Nos poucos casos em que a "mudança de dentro" significa principalmente mais do que um simples comando à não violência, é uma forma de autoaperfeiçoamento impotente para fingir que a opressão social é o resultado de falhas comuns de personalidade que podem ser superadas sem a remoção das forças externas. O autoaperfeiçoamento do ativismo antiopressão, por outro lado, supõe que forças externas (que são as estruturas de opressão) influenciam inclusive aqueles que lutam contra elas. Então, lidar com os efeitos é um complemento conveniente para combater as causas. Antes do ato como um complemento, o autoaperfeiçoamento pacifista tenta ser uma substituição.
12.  Ir para cima↑ "Seja a mudança que você deseja ver no mundo" ou "Personifique a mudança ..." são palavras de ordem pacifistas comuns que se pode encontrar ao menos em um par de bandeiras em qualquer protesto pacifista nos Estados Unidos.
13.  Ir para cima↑ E-mail pessoal ao autor, dez. 2003.
14.  Ir para cima↑ Cortright,The Power of Nonviolence.
15.  Ir para cima↑ Robnett, How Long?, p. 87, p. 166, p. 95.
16.  Ir para cima↑ A história de Bayard Rustin tendo que deixar a SCLC porque era gay pode ser encontrada em Jervis Andersen, Bayard Rustin: The Travells I’ve Seen (Nova Iorque: HarperCollins Publishers, 1997) e em David Dellinger, From Yale to Jail: The Life Story of a Moral Dissenter (Nova Iorque: Pantheon Books, 1993).
17.  Ir para cima↑ No entanto, as pessoas cujas estratégias incluem a formação de partidos ou organizações similares centralizadas, tanto revolucionárias como pacifistas, também manifestam interesse não expressado na autocrítica. Mas as ativistas revolucionárias de hoje demonstram uma tendência marcada longe de partidos políticos, sindicatos e outras organizações que desenvolvem o ego, a ortodoxia e interesse em si mesmas.
18.  Ir para cima↑ Robnett, How Long?, p. 93-96.
19.  Ir para cima↑ Abu-Jamal, We Want Freedom, p. 161.
20.  Ir para cima↑ Ibid., p. 159.
21.  Ir para cima↑ Ibid.
22.  Ir para cima↑ Julieta Paredes, “An Interview With Mujeres Creando”, em Quiet Rumours: An Anarcha- Feminist Reader, ed. Dark Star Collective (Edimburgh: AK Press, 2002), p. 111-112.
23.  Ir para cima↑ Leslie Feinberg, “Leslie Feinberg Interviews Sylvia Rivera”, Workers World, 2 jul. 1998, disponível em: <http://www.workers.org/ww/1998/sylvia0702.php>.
24.  Ir para cima↑ Ann Hansen, Direct Action: Memoirs of an Urban Guerrilla (Toronto: Between The Lines, 2002), p. 471.
25.  Ir para cima↑ Emma Goldmann, “The Tragedy Of Woman’s Emancipation”, em Quiet Rumours, ed. Dark Star Collective, p. 89.
26.  Ir para cima↑ Paul Avrich, Anarchist Portraits (Princeton: Princeton University Press, 1998), p. 218.
27.  Ir para cima↑ Yale, “Anna Mae Haunts the FBI”, Earth First! Journal, jul.-ago. 2003, p. 51.
28.  Ir para cima↑ Ibid.
29.  Ir para cima↑ “Interview With Rote Zora”, em Quiet Rumours, ed. Dark Star Collective, p. 102.
30.  Ir para cima↑ Entendido como um ativismo "independente", que não lida com as instituições. [N. do T].
31.  Ir para cima↑ Ibid., 105.
32.  Ir para cima↑ Para o sexismo do Weather Underground, ver Tani y Sera, False Nationalism, e Dan Berger, Outlaws Of America: The Weather Underground and the Politics of Solidarity (Oakland, CA: AK Press, 2005). Para a oposição ao feminismo das Brigatte Rosse, ao que denunciaram indiscriminadamente por ser burguês ao invés de abraçar sua radicalidade, ver Chris Aronson Beck et. al.Strike One To Educate One Hundred:The Raise Of The Red Brigades In Italy In The 1960’s- 1970’s (Chicago: Seeds BeneathThe Snow, 1986).
33.  Ir para cima↑ Carol Flinders, “Nonviolence: Does Gender Matter?”, Peace Power: Journal Of Nonviolence and Conflict Transformation, v. 2, n. 2, verão 2006, disponível em: <http://www.calpeacepower.org/0202/gender.htm>. Flinders utiliza o mesmo exemplo de Gandhi, mesmo elogiando o pacifismo inato de "a esposa devota hindu."
34.  Ir para cima↑ Ibid.
35.  Ir para cima↑ Para aqueles não familiarizados com o termo, algo que é "essencialização do gênero" implica a ideia de que o gênero não é uma construção social - ainda que sirva como uma divisão imperfeita - mas é uma série de categorias inerentes formadas por essências imutáveis ​​e até mesmo determinantes.
36.  Ir para cima↑ Flinders, Nonviolence: Does Gender Matter?
37.  Ir para cima↑ Patrizia Longo, “Feminism and Nonviolence: A Relational Model”, The Gandhi Institute, disponível em: <http://www.gandhiinstitute.org/NewsAndEvents/upload/nonviolence%20and%20relational%20feminism%20Memphis%202004.pdf#search=%22feminist%20nonviolence%22>.
38.  Ir para cima↑ “Feminism and Nonviolence Discussion”, fev. e mar. 1998, disponível em: <http://www.h-net.org<r/˜women/threads/disc-nonviolence.html>. Consultado em 18 out. 2006.